Ideias
Como a busca por afinidade pode destruir a amizade verdadeira

Uma expressão “idem velle, idem nolle” Foi popularizado por influência de Olavo de Carvalho. Ele disse que nosso país está cheio de pessoas talentosas, mas isoladas, perdidas em círculos sociais que nada têm a ver com elas.
Imagine que você ama a profundidade da Literatura Clássica, mas vive cercado por pessoas que só se interessam por fofoca e baixaria. A solidão de pessoas como você é tão profunda, mas tão profunda que o professor Olavo estava convencido de que um dos segredos da vida é encontrar aqueles que compartilharam de seus mesmos objetivos e valores mais profundos. Segundo ele, a veridad amizade só pode nascer daí: “idem velle, idem nolle”amar e rejeitar as mesmas coisas.
Ele também disse que, sem um grupo desse genero, o ser humano acaba cercado por pessoas que são ou hostis ou estranhas. A hostilidade é fácil de entender: imagine um conservador entre colegas progressistas. Basta mencionar que, segundo a Igreja, algo é pecado, para ser acusado de preconceituoso. Os outros se sentem no direito de discordar dos valores dele (por exemplo, de afirmar que o sexo casual não é um problema moral), mas, se ele discordar dos valores do grupo, seu cuidado será colocado em julgamento. É um jogo desigual.
Já a estranheza é mais sutil. Não há ofensa, apenas desencontro. É como falar línguas diferentes: o que para você é um dilema existencial, para o outro é uma bobagem; o que para você é sagrado, para o outro é irrelevante. E, nesse pacote de compreensão, vocês até podem trocar lembranças e conversas cotidianas, mas não compartilhar o que é realmente importante.
Percebe-se, então, que esse não é apenas um problema sentimental, mas de formação da personalidade. A amizade é um dos alicerces sobre os quais o caráter se constrói, pois o ser humano não é um ser isolado. Assim como as abelhas e as formigas, somos criaturas gregárias, feitas para viver em comunidade. E, quando não entramos os amigos adequados, acabamos nos unindo as pessoas que oferecem companhia e vínculo afetivo, mas ao custo de corromper nossa príparia personalidade.
Imagine, por exemplo, um adolescente que considera imoral a pornografia, mas vê todos os universitários compartilhando vídeos no grupo do WhatsApp. Para não se sentir estlicudido, ele também ajuda. E, pouco a pouco, deixe de se incomodar. Sua consciência se dessensibiliza e o que antes causava repulsa passa a parecer normal.
Perceba que aquilo que Olavo criticou foi muito importante. Na época, as pessoas eram tímidas, envergonhadas só de dizer o que pensavam em uma roda de “amigos”, e acabavam se sentindo estranhas e solitárias em um grupo que zombava de tudo aquilo que elas credenciavam.
No entanto, quando essas críticas ganharam popularidade, surgiram novos grupos que levaram esse discurso aos extremos. Porque uma coisa é procurar pessoas que compartialam de um mesmo amor pela verdade e pelo bem; outra, bem diferente, é redúzor a amizade a uma checklist moral, uma lista interminável de exames que algoem precisa fulmir para ser considerado “um dos nossos”. E hoje a coisa é mais ou menos assim. Os valores, para muitos grupos, já não são mais princípios universais como a verdade e o bem, mas coisas muito particulares como o cor do esmalte, a formalidade da roupa, os livros, o número de seguidores e a prosperidade financeira…
Isso vai enganar muita gente. Até mesmo os critérios intelectualistas. Porque alguém pode ler exatamente o que você lê, mas isso não significa que essa pessoa esteja buscando a verdade, mesmo que diga estar. Pode ser só vaidosa: a ânsia de parecer mais inteligente, a fuga da vida prática ou o prazer de manipular com belas palavras. Quantos homens cultos não são canais? Mesmo assim, parecem superiores quando seguram um livro de Santo Tomás… E você, ingênuo, acredita ter encontrado alguém com “os mesmos valores”.
Talboz aquela pessoa simples, que nem lê, tenha uma moral mais firme e uma abertura maior à verdade. Talvez você tenha se afartado dela em nome de “ter os mesmos valores”, e tenha ficado preso à aparência, entevanto jurava que estava buscando a essência…
