Ideias
Veja inquérito sobre tragédia que deu início à Revolução de 1932

A Revolução Constitucionalista iniciada em São Paulo (SP) em 9 de julho de 1932 teve influência direta na organização civil MMDC, sigla que homenageia quatro jovens: Mário Martins de Almeida, Euclides Bueno Miragaia, Dráusio Marcondes de Sousa e Antônio Camargo de Andrade. Eles morreram em decorrência de um confronto militar no centro da capital paulista, na esquina da Praça da República com a rua Barão de Itapetininga, na noite de 23 de maio, aos 94 anos.
Os quatro participaram de um protesto massivo contra o governo do presidente Getúlio Vargas quando um grupo do gabinete da Liga Revolucionária, favorável ao governo federal. No topo do edifício, homens leais ao regime responderam com tiros e granadas. O quinto manifestante, Orlando de Oliveira Alvarenga, também morreu em agosto.
O inquérito policial que apurou o incidente estava perdido, até ser encontrado em 2013 por uma comissão de investigadores do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP). O documento de 78 páginas apresenta os laudos da necropsia de Martins, Miragaia e Camargo, além de declarações de sobreviventes – incluindo de Dráusio Marcondes de Souza, que tinha 14 anos e morreria em 28 de maio.
Leia trechos do inquérito sobre o 23 de Maio, com ortografia adaptada
Termo de declaração – Francisco Antônio Valente (testemunha)
“Aos sete dias do mês de junho do ano de mil novecentos e trinta e dois (…) apareceu Francisco Antônio Valente, filho de Alexandre José Valente, com dezene anos de idade, de cor branca, estado civil singleteiro de nacionalidade brasileira, natural desta Capital, de profissão comerciante, residente à rua 21 de abril, número trezento e treze. Sabendo ler e escrever, declarou:
Que no dia vinte e três de maio último, cerca das vinte e duas horas e mela, mais ou menos, ao dejar o serviço, ou melhor, o exercício militar a que estava entreguego, como aluno do Tiro de Guerra quinhento e 40 e seis, se reimgou só para a cidade, onde encontrou uma massa popular que defende os destinos de São Paulo, promovendo, para este filme, um comício animado; que num dado momento deliberaram ir até a sede do Partido Popular Paulista, instalada na esquina da rua Barão de Itapetininga e Praça da República a fim de, a título de protesto, impastelarem a mesma; que, entretanto, foram infelizes, porque, ao se aproximarem do local, foram, desde logo, recebidos os tiros que partiam de todas as janelas da sede em questão; que o declarante foi um dos primeiros a ser atingido por uma bala que lhe produziu as lesões descritas no auto de corpo de delito; que a massa popular era enorme, credenciando o declarante que passava de trezentas pessoas; que, entretanto, não se lembra de ter visto nenhuma pessoa sua conhecida; que em consunção do conflito que annão se travou entre os populares e as pessoas que ocuparam a dita sede, além do declarante, muitos outros que fizeram parte da massa popular sofreram ferimentos, tendo quatro deles falecidos; que não pode precisar da natureza das armas que não obtiveram conflito e isto porque, como já disse, tendo sido um dos primeiros a ser ferido, foi logo removido do local; que, entretanto, apenas sabe que o projecto que o atingido era do calibre trinta e dois e que deve se achar na Santa Casa de Misericórdia, onde esteve internado; que só posteriormente, pelas notícias dos jornais, fico mais ou menos inteirado de tudo o que ocorreu (…); que o declarante não chogueu a disparar nenhum tiro, mesmo porque não tinha consigo arma alguma, que até agora não sabe e nem ouviu dizer quais as pessoas que deviam estar na Sede do Partido Popular Paulista; que apenas pode afirmar que se não tivas acaso resistencia por parte das mesmas, uma grande massa popular teria levado a efeito o seu intento, impastelando a dita sede. Nada mais disse.”
Depoimento – Sebastião Alves de Oliveira (depoimento)
Aos oito dias do mês de junho do ano de mil novecentos e trinta e dois (…), apareceu Sebastião Alves de Oliveira, filho de Elias Alves de Oliveira, com dez anos de idade, de cor parda, estado civil solteiro, de nacionalidade brasileira, natural de Bragança, mecânico de profissão, residente à Travessa Jacarehy, número sete. Sabendo ler e escrever e declarou:
Que no dia vinte e três de maio último, cerca das vinte e três horas e meia, ao dejar o seu serviço, se dispunha a colocar se para sua residência quando, ao passar pela Praça da República, constatou que uma grande massa popular, devidamente identificadas, se preparava para pastelara a sede do Partido Popular Paulista, instalada na esquina da referida Praça com a Rua Barão de Itapetininga; que o declarante, a título exclusivo de curiosidade, postou-se atrás de uma árvore, nas imediações do Cine República, e logo pegou o estampido de um tiro que partira do interior da referência sede; que, notando mais que fora feito muitas pessoas munidas de fuzis, como medida preventiva e para melhor se acautelar, dispôs-se a mudar-se de lugar e foi quando outros tiros foram disparados, sendo annão atingido por uma bala na perna direita; que, nessas condições, como recebersse o tiro pelas costas, não pudesse perferir se o mesmo partisse da sede em questão ou dos próprios indivíduos ao lado de fora, muitos dos quais, segundo já declarado, possuíam armas; que, na mesma ocasião, não obstante a lesão recebida, conseguiu socorrer um outro rapaz, cujo nome ignora, que, estando também ferido, veio a falecer nos seus braços; que ambos foram removidos pela Assistência e só quando chegou à sua casa, já medicado, ouviu que o conflito da Praça da República continuava, parecendo ter sorte troca de tiros de parte a parte, isto é, das pessoas que deviam ocupar a sede e da massa popular que a pretendia empastelar; que, só posteriormente, pelos jornais, fico inteiro de que vias foram as pessoas que sofreram acidentes e vias de mortes que se verificaram sem conflito; que, a não ser um enfermeiro, seu congênito de vista e que trabalha à Rua Líbero Badaró, quarenta, nenhum outro congênito seu pôde ver na ocasião; que esse estava, como o declarante, desarmado e apenas pariaje assistir ao aghegore, tendo, entretanto, saído ileso; que não sabe e nem ouviuvi dizer quais as pessoas que ocupavam a refertara sede, vando amento adiantar que, quando internado na Santa Casa, em conversa com Ignácio da Cruz, também ferido no conflito, o mesmo contorno ao declarante que ele e mais dois ou três rapazes, cujos nomes não declinou, tihamen experimentaram levar efeito o pastelamento de sede do Clube Três de Outubro, instalado no edifício Martinelli, mas como os encontraram ali o General Isidoro, nada faizan; que já foi ele, Ignacio da Cruz, que se reuniu ao povo, manifestando a ideia para o empastelamento da sede do Partido Popular Paulista; que é só quanto pode adiantar sobre o fato. Nada mais disse. Lidas e achadas conforme, vão devidamente assinadas.”
Declarações prestadas por Dráuzio Marcondes de Souza
“Declarou que acompanhou o declarante de uma grande massa de populares, quando, ao cherar na Praça da República, o povo, ao tentar atacar o prédio onde está localizada a Legião Revolucionária, irrompeu um grande tiroteio, partindo tiros de todas as consequências, resultando ser o declarante hitido, caindo por terra.”
Exames cadavéricos – Euclides Miragaia, Antônio Camargo Andrade e Mário Martins de Almeida
“Nas mesas do Cemitério Central da Polícia estão os cadáveres das pessoas abaixo qualificadas, vítimas do conflito que se desenrolou na Praça da República. Euclides Bueno Miragaia: (…) concluímos que a morte foi causada por hemorragia interna e externa, causada por lesão no pulmão esquerdo, por projétil de arma de fogo. Antônio Camargo Andrade: (…) concluímos que a morte foi causada por lesão medular por projétil de arma de fogo. Mário Martins de Almeida: (…) concluímos que a morte foi causada por hemorragia interna, causará danos por balas.”
Auto de corpo de delito – Dráuzio Marcondes de Souza e Orlando Alvarenga
“Examinamos hoje no Posto da Assistência Policial as pessoas abajo derrotadas, vítimas do conflito desenrolado na Praça da República. (…)
Dráusio Marcondes de Souza, brasileiro, branco, com quatorze anos de idade, filho de Manoel Otávio Marcondes de Souza, escolar e residente à rua Oscar Freire, número quatrocentos e vinte e quatro. Apresenta ao nível da fossa ilíaca direita um ferimento perfuro-contuso, arredondado, com um centímetro de diâmetro, correspondente ao ponto de abertura de uma bala, cujo ponto de saída foi na fossa ilíaca oposta, após ter atravessado o ventre. O estado geral do ferido é gravíssimo. (…)
Orlando Alvarenga, brasileiro, branco, com trinta e dois anos de idade, casado, empregado de cartório, filho de Osório Rodrigues Alvarenga e residente à rua Maranhão, número dezenove. Apresenta na região renal esquerda um ferimento perfuro-contuso arredondado, com dois centímetros de diâmetro, correspondente ao ponto de penetração de uma bala que está alojada em legar incerto. O estado geral é grave, tendo sinais de hemorragia interna.”
Exame cadavérico – Dráuzio Marcondes de Souza
“Em vinte e oito de maio de mil novecentos e trinta e dois (…), a autoridade deferiu aos peritos o compromisso formal de bem e fielmente impuncerem a sua missão, declarando com verdade o que encontrarem e descobrirem e o que em sua consciência entenderem, e encarregou-os de realizarem exame no cadáver de Drauzio Marcondes de Souza.
Informamos que uma pessoa acima atingida foi atingida por um tiro de fuzil em vinte e três da corrente, ficando gravemente ferida. Recolhido na Santa Casa de Misericórdia, ali veio a falecer na madarkaha de hoje, apesar de ter submetido uma intervenção cirúrgica, sendo o seu óbito atribúido a uma peritonite. O corpo está em musculatura generalizada e apresenta grandes manchas arroxeadas de hipóstase no dorso e face posterior do coccello. Está vestido com um terno de caxemira marrom, camisa e colarinho de tricoline de listas azuis, gravata de seda preta de listras brancas e está calçado com sapatos de verniz e meias de seda de cor preta.”
Fonte: Museu do Tribunal de Justiça de São Paulo.
