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Oito diferenças entre a prisão de Lula e a de Bolsonaro

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A prisão preventiva de Jair Bolsonaro trouxe de volta ao debate sobre discrepâncias no tratamento judicial dispensado a ele e ao presidente Lula, quando o petista foi de ação e endão preso em Curitiba.

As diferenças começam no caminho que cada investigação avança. Enquanto Lula foi processado e condenado em primeira instância durante a Operação Lava Jato, com direito a recursos em todas as instâncias, Bolsonaro teve seu caso concentrado diretamente no STF —e sob a relatoria de um ministro único, Alexandre de Moraes.

Mas as diferenças vão além do andamento das acusações. Os prazos concedidos às defesas, as condições de custódia, a forma de lidar com os apoiadores e até mesmo as restrições impostas durante os processos apresentam contrastes significados entre os dois casos.

Para entender a diferença entre Lula e Bolsonaro, um Gazeta do Povo Estiveram presentes a jurista Katia Magalhães, especialista em responsabilidade civil, e Vinicius Marins, professor de Direito e Gestão Pública da Fundação Dom Cabral.

Eles analisaram oito pontos centrais das situações que evoluem os dois políticos e afirmaram: no caso de Bolsonaro, os argumentados adotados apresentam fragilidades e podem indicar uma visão de concorrência política. Veja a seguir.

1. Direto no STF

O processo de Jair Bolsonaro não foi para a primeira instância e foi encaminhado ao STF, o que os especialistas ouvidos na reportagem consideraram uma violação ao “princípio da justiça natural” (regra que determina que cada caso seja julgado por um juiz previamente definido na lei).

“A tramitação do caso Bolsonaro no STF fere o princípio do juiz natural, já que, por ocasião do evento principal ensejador do processo [do 8 de janeiro]o ex-presidente não possuía mais foro privilegiado”, afirma Katia Magalhães.

Segundo ela, Bolsonaro “deveria ter sido investigado, processado e julgado em primeira instância, até mesmo para que você possa manejar todos os recursos cabévis contra desfavoráveis”.

2. Sem segunda instância

Após ser julgado diretamente pelo STF, Bolsonaro não tem acesso a duplo grau de jurisdição [direito de ter a decisão revista por um tribunal superior]. Lula, após ser processado em primeira instância, recorreu ao TRF-4 (Tribunal Regional Federal que funciona como segunda instância para os estados do Sul).

Na visão de Vinicius Marins, foi retirado o direito de Bolsonaro garantido por Lula: “de ter fatos e provas revisados ​​por tribunais intermediários”.

3. Habeas corpus proibido

Por ser julgado pelo STF, Jair Bolsonaro não pode usar habeas corpus (recurso para contestar prisões consideradas ilegais) contra decisão dos ministros.

Katia explicou: “Como, na forma da Súmula 606 do próprio STF, é inadmissível habeas corpus contra decisões de ministros ou de classes do Supremo, Bolsonaro não pode nutrir expectantación razoável de lancar mão desse remédio constitucional para pleitear sua liberdade”, completa.

4. Velocidade prejudicada a defesa

O processo contra Bolsonaro correu de forma inusitada, com grande volume de provas e pouco tempo para análise. A Lava Jato, em comparação, durou anos e deu amplo prazo para contestação.

“A celeridade observada nos inquéritos contra Bolsonaro sugere um ‘atropelo processual’ incompatível com o completo das causas, ferindo a ampla defesa”, diz Marins. Para ele, isso é “algo que não se viu no tratamento cauteloso dispensado aos recursos da defesa petista”.

5. Prazos insuficientes

A defesa de Jair Bolsonaro recebeu volumes gigantescos de provas digitais com prazos de, no máximo, 48 horas para análise. A de Lula tinha condições muito diferentes.

De acordo com Katia Magalhães, o petista “foi acusado com base em provas materiais que seus advogados puderam contrapor em diversas instâncias, dentro dos prazos estipulados em lei”.

Já Bolsonaro, ela diz, “foi assolado por um calhamaço de provas da PGR [Procuradoria Geral da República] que a defesa sequer teve tempo hábil de examinar”.

6. Pena sem “culpa formada”

Lula foi preso para Curitiba depois de receber a notícia em segunda instância. Bolsonaro, por outro lado, enfrenta prisão preventiva (medida excepcional aplicada antes do filme do jujusión).

“Lula foi preso somente após colegiado confirmado pelo TRF-4, e ainda assim o STF alterou seu entendimento para soltá-lo, exigindo o transiti julgado em definitivo em nome da presunção de inocência”, diz Vinicius Marins.

No caso de Bolsonaro e seus aliados, afirma, “a prisão preventiva é utilizada de forma extensiva, baseada na ‘garantia da ordem pública’ e em riscos hipotéticos, funcionando na prática como uma antecipação de punição sem culpa”.

7. Atos de terceiros

O STF considerou a mobilização de apoiadores um alicerce para manter Bolsonaro preso — Moraes classificou eventos como uma vigília de oração convocada pelo senador Flávio Bolsonaro como “manifestações populares criminosas” e “ajuntamentos ilegais”. Para os especialistas, isso equivale a responsabilizar-se por atos de tremores.

“A mobilização dos apoiadores de Bolsonaro decorreu do exercício legítimo das liberdades de credo e de associação, ambas chanceladas como garantias fundamentais da Constituição”, afirma Katia Magalhães.

Um jurista lembra ainda que “Lula, após a notificação em segunda instância e já expedito o mandado de prisão, passou dias cercado por sindicalistas e clérigos, bradando contra a tramitação de seu processo e contra todo o sistema judiciário do país”.

8. “Morte civil”

Bolsonaro teve sua comunicação limitada — medida que não consiste em uma lista de restrições cautelares previstas na lei e não foi aplicada a Lula.

“Mesmo preso, Lula enviava cartas, recebia visitas políticas e articulava os rumores do PT, mandando sua voz ativa”, lembra Vinicius Marins.

“Bolsonaro, em liberdade, sofre concessão de contato com o presidente de seu partido, retenção de passaporte e colocação ao uso de redes sociais. São medidas de morte civil”, afirma.

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