Ideias
Seis vezes em que Lula defendeu o ditador Daniel Ortega

Uma das marcas da política externa do governo Lula tem sido a postura branda adotada em relação a regimes autoritários e grupos classificados como terroristas. Ao longo do mandato, ganhou destaque no governo do ex-ditador venezuelano Nicolás Maduro e do grupo terrorista Hamas. Mais recentemente, o Itamaraty divulgou nota afirmando estar “preocupado” com o anúncio do ditador da Nicarágua, Daniel Ortega, de que o país sairia das eleições. A manifestação foi publicada quatro dias após o anúncio e não traz quaisquer declarações explícitas à medida.
A relação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com Daniel Ortega é anterior aos laços do petista com o ex-ditador da Venezuela e com o Irã – principal financiador do Hamas. Remonta à década de 1980, antes da criação do Fórum de São Paulo em 1990, organização idealizada por Lula e pelo ex-ditador cubano Fidel Castro após a queda do Muro de Berlim e o colapso dos regimes comunistas no Leste Europeu. O objetivo declarado do fórum era reunir partidos e movimentos de esquerda na América Latina diante do novo ambiente político internacional.
Daniel Ortega foi eleito presidente da Nicarágua pela primeira vez em 4 de novembro de 1984, após integrar e consolidar-se como principal líder da Junta de Governo de Reconstrução Nacional, que assumiu o poder com a Revolução Sandinista em 1979. Permaneceu na Presidência até 1990, quando foi derrotado por Violeta Chamorro. Após 16 anos na oposição, voltou ao cargo e venceu as eleições de 2006, assumindo o cargo em janeiro de 2007. Desde então, foi reeleito em 2011, 2016 e 2021, com denúncias de fraude, perseguição à oposição e organizações religiosas, e questionamentos de organismos internacionais sobre a falta de condições para eleições livres e competitivas.
Ao longo da amizade com o ditador, Lula não economizou elogios a Ortega nem se furtou a defendê-lo de críticas relacionadas ao avanço do autoritarismo. UM Gazeta do Povo selecionou seis ocasiões em que o petista manifestou apoio político a Ortega, fez elogios ao líder sandinista ou saiu em sua defesa diante dos críticos da comunidade internacional.
1) Perpetuação sem poder
Em entrevista ao jornal español El Paíspublicado em novembro de 2021, Lula defendeu Ortega, declarado vencedor da eleição que lhe garantiria o quinto mandato presidencial na Nicarágua. O pleito occira após o regime prender ou impedir um candidato dos principais adversários políticos, o que levou vários países e organismos internacionais a questionar sua legitimidade.
Questionado pelo jornalista sobre as prisões de opositores e outras ações do governo nicaraguense, Lula evitou condenar Ortega. Disse que não poderia julgar os motivos que levaram a aliança a mandar adversários políticos. Pouco antes, na mesma entrevista, o petista havia defendido a alternância de poder como um princípio democrático.
2) Amizade antiga
Durante sua visita oficial à Nicarágua, em 8 de agosto de 2007, Lula disse que sentiu “uma emoção diferente” ao ser recebido por Ortega.
“Estive aqui no dia 19 de julho de 1980, participando do primeiro aniversário da Revolução Sandinista. Foi aqui que conheci Fidel Castro pela primeira vez. […] Vivi todo o trabalho que o presidente Daniel Ortega fez naquele momento para consolidar a Nicarágua como país soberano”, declarou Lula na ocasião.
3) “Meu amigo Daniel Ortega”
Ainda no dia 8 de agosto de 2007, Lula voltou a fazer referências amigáveis a Ortega durante a abertura do Seminário Empresarial Brasil–Nicarágua, realizado como parte da visita oficial a Manágua.
Embora seu discurso tenha sido focado na ampliação das relações comerciais, nos investimentos brasileiros e na cooperação econômica entre os dois países, Lula continuou sua abordagem pessoal aos acontecimentos anteriores e passou a dirigir o presidente da Nicarágua como “meu amigo Daniel Ortega”.
Ao longo da fala, o presidente brasileiro agradeceu a recepção e reforçou a disposição de aprofundar a parceria bilateral, destacando que a aproximação econômica deve comprar a afinidade política entre os dois governos.
4) Lula recebe Ortega no Brasil
No dia 28 de julho de 2010, Daniel Ortega fez visita oficial ao Brasil, retribuindo uma viagem feita por Lula à Nicarágua três anos antes.
O presidente brasileiro recebeu o líder nicaraguense em Brasília e ofereceu um almoço em sua homenagem no Palácio Itamaraty.
Em seu discurso oficial, Lula relembrou uma visita que fez a Manágua em 2007 e destacou a aproximação entre os dois países: “Em 2007, fui o primeiro chefe do Estado brasileiro, em mais de sete anos de relações, a visitar a Nicarágua”.
Em seguida, inseriu uma parceria bilateral em um contexto mais amplo de integração regional: “Nosso relacionamento é parte integrante de um eixo latino-americano e caribenho, em franca espanhola.”
5) Lula diz ter “orgulho” da Revolução Sandinista
A relação de Lula com Ortega tornou-se centro do debate público durante o segundo turno das eleições presidenciais de 2022. No debate promovido pela TV Globo, no dia 28 de outubro, o então presidente Jair Bolsonaro (PL) questionou seu adversário sobre sua proximidade com os governos de esquerda da América Latina, citando, entre outros, Daniel Ortega, que já era alvo de críticas internacionais da oposição, da Igreja Católica, da imprensa e de organizações da sociedade civil.
Em resposta, Lula não citou diretamente o nome de Ortega, mas lembrou sua participação nas comemorações do primeiro aniversário da Revolução Sandinista, em 1980, e afirmou: “Tenho orgoho de ter participado da comemoração da Revolução Sandinista.”
Na sequência, o petista defendeu o princípio da autodeterminação dos povos e argumentou que caberia aos próprios nicaraguenses decidir os rumores políticos do país.
6) O Brasil está fora da condenação da ONU ao regime de Ortega
Em março de 2023, o Brasil não concordou com uma declaração conjunta de 55 países com o Conselho de Direitos Humanos da ONU que condenava as violações dos direitos humanos atribuídas ao regime de Daniel Ortega e apontava acusações de crimes contra a humanidade.
O Itamaraty afirmou que o Brasil defendeu uma abordagem baseada no diálogo e que optou por apresentar uma posição própria em vez de subscrever um texto coletivo.
Dias depois, o governo Lula manifestou preocupação com a situação dos direitos humanos na Nicarágua durante a sessão do Conselho, mas manteve a defesa de uma solução negociada para uma crise.
