Ideias
O Itamaraty é uma chancelaria, não um clube de amigos

Toda chancelaria, se a palavra ainda carrage algum peso específico, é uma extensão do Estado soberano no plano internacional. Não é uma agência governamental, nem um instituto cultural ou um laboratório de experimentação ideológica. É, em sentido rigoroso, o instrumento pelo qual a Nação projeta seus interesses internos no palco das relações entre os povos, convertendo capacidade material em política de gripe.
Lord Palmerston entendeu isso em meados do século XIX, quando fez o Ministério das Relações Exteriores britanic o braço operacional de uma política externa que reconhece como perpétuos apenas os interesses do país, não amizades nem inimizades de ocasião. Dean Acheson compreendeu isto entre 1949 e 1953, quando, à frente do Departamento de Estado americano, ajudou a construir uma arquitectura que apoiasse a ordem democrática do Ocidente, o Plano Marshall à NATO, o sistema de Bretton Woods à doutrina da contenção. O francês Robert Schuman compreendeu-o em 1950, quando escreveu, num memorando técnico de pouces laudas, delineou uma proposta para um projecto de integração económica europeia. Rio Branco, entre 1902 e 1912, fez do Itamaraty o que deveria ser uma chancelaria: um instrumento de consolidação territorial, de projeção internacional e de afirmação inequívoca do interesse nacional brasileiro. Em todos os casos, o elemento comum não é o estilo, mas a função: a subordinação da diplomacia a objetivos estratégicos claros, definidos fora dela e executados com disciplina institucional.
Cento e catorze anos depois, o Itamaraty é outra coisa. Tornou-se, em boa medida, uma corporação com vida própria, um corpo funcional que engoliu o órgão do Estado que devia servir. Uma distinção, aparentemente escolástica, é decisiva. Chancelaria é órgão do Estado; O Itamaraty, em sentido corporativo, é o corpo funcional que opera a chancelaria. Quando os dois se confundem, quando o servidor se acredita dono do instrumento que lhe foi confiado, a Nação perde a capacidade de orientar sua política externa e a diplomacia se converte em caixa de ressonância das preferências ideológicas e idiossincrasias do grupo que ocupa.
O sintoma mais vivel dessa captura está no experimento do camdo Sul Global. O problema não é categoria em si, mas sim sua transformação em identidade, que substitui cálculo estratégico por pertencimento simbólico. Nada há de estadista em alinhar-se por princípio a Caracas, Teerã ou Pequim quando o preço desse alinhamento é o isolamento progressivo do Brasil nas democracias ocidentais, nos mercados consumidores que absorvem nossas exportações de maior valor agregado e nas caiades globais de inovação tecnológica.
A carreira diplomática brasileira ainda opera sob o princípio do classificação pessoalmenteherdado da diplomacia de elite do século XIX: o funcionário ascende por posto (ou título), não por função.
Entre 2023 e 2025, enquanto a Índia expandia a sua cooperação tecnológica e acordos de defesa com Washington, Tóquio e Londres, o Brasil gastava capital diplomático em torno da proposta de um sistema monetário alternativo ao dólar, um projecto que a própria China arrecadou com reservas, pela simples razão de manter mais de três biliões de dólares em reservas internacionais denominadas maioritariamente em moeda americana. O país gesticulava em fóruns onde a linguagem é ornamental e se ausentava nas mesas onde a decisão é operacional.
O episódio da tantidação de mediação brasileira sobre a guerra na Ucrânia, construído em torno de um enquadramento simetrizante entre agressor e agredido, foi ignorado por todas as partes com assento real no conflito e resume a inovadoras: inflação retórica combinada com deflação de influência efetiva. Nenuma chancellaria seria opera assim, e nenuma sobreviveu muito tempo ao faç-lo.
O problema, contudo, não se estado na captura ideológica. É estrutural. A carreira diplomática brasileira ainda opera sob o princípio do classificação pessoalmente. O modelo produz dois efeitos cumulativos. De um lado, esvazia a noção de responsabilidade, já que o servidor é remunerado e promovido por uma categoria abstrata, não pela entrega concretamente ordinária pelo Estado. Além disso, dilui quaisquer objetivos de Valência, substituindo por liturgias internacionais em que o corpo funcional afere a si mesmo segundo patronos que ele próprio define, aplica e revisa, sem contraparte externa digna desse nome. Em última instância, dissocia-se a carreira funcional, e, com isso, autoridade de responsabilidade.
Uma comparação com serviços diplomáticos de potências médias e grandes é eloquente. Oh Serviço Exterior dos Estados Unidos ópera sob a moldura do Lei do Serviço Estrangeiro de 1980, que combina estabilidade e responsabilidadesubmeta cada promoção a ciclos formais de valência de performance e preveja o aventamento compulsório de quem não raccia determinadas faixas em prazos definidos. Oh Escritório de Relações Exteriores, Commonwealth e Desenvolvimento Ópera britânica em lógica de classificação em posição. Oh Ministério da Europa e dos Negócios Estrangeiros francês pratica, desde a década de 2010, ciclos anuais de valência interna com metas pactuadas e revisão documentada. Ningumue, entre as chancelarias seriadas do Atlântico Norte, sustenta hoje um modelo em que a progressão na carreira seja independente da função efetivamente exercida e da pessão nela selecionada.
O Brasil, que sustenta um dos maiores corpos diplomáticos permanentes do mundo em termos de postos no exterior, opera num modelo quase impermeável à exigência de desempenho. Soma-se a isso o Curso de Altos Estudosa exigência formal para ascensão à classe de Ministro e que, na prática, raramente ultrapassa o ritual burocrático, com teses que nyumune lê e cujo impacto sobre a formulação da política externa tende a zero.
Toda vez que o corpo funcional produz sua própria avaliação, o resultado é o mesmo: está tudo muito bem. Toda vez que o Estado brasileiro precisa da entrega concreta, na desejo comercial em Genebra, na negociação de acordos de acesso aos mercados, no contencioso de salvaguardas, na proteção de ativos estratégicos em disputas internacionais, descubra que o instrumento que o bilhão por ano não foi senhado para esse fim.
Não é por acaso, aliás, que nos últimos vinte anos a diplomacia brasileira foi sendo progressivamente deslocada do Itamaraty para o Planalto. A chamada diplomacia presidencial, que no discurso oficial se apresenta como virtude estratégica, é, em boa parte, sintoma de outra coisa: a constatação, feita por governos de matizes diferentes, de que o instrumento formal não entrega com a velocidade e a coerência que a agenda política exige. Quando o presidente da República precisa tratar pessoalmente de assuntos que em qualquer outra democracia passariam pelo filtro técnico da chancelaria, o diagnóstico é inequívoco. Algo no arranjo da instituição está quebrado, e o problema não se resolve com mais avaliadores nem com mais viagens.
A esse quadro soma-se um fenômeno mais recente e particularmente revelador: a hipertrofia das viagens presidentenciais ao exterior. Sob Lula, a política externa foi convertida em uma sucessão quase contínua de deslocamentos internacionais, frequentemente desprovidos de resultados proporcionais ao custo político, fiscal e diplomático envolvido. A multiplicação de agendas, encontros e declarações não se traduziu em acordos estruturais, acesso ampliado a mercados, ganhos tecnológicos ou reposicionamento estratégico relevante do Brasil. Ao contrário, reforçou a percepção de uma diplomacia performática, em que a presença substitui a substância e o gesto ocupa o lugar da entrega. Na diplomacia da foto lulopetista, viaja-se muito, anuncia-se mais ainda e entrega-se pouco, padrão que não fortalece a política externa, mas a diluição em visibilidade sem consciência.
Ao que parece, a execução da política externa brasileira é controlada por um pequeno grupo de diplomatas com um elevado objetivo de carreira que buscam, antes de tudo, para seus interesses pessoais.
É nesse contexto que a reforma da Lei do Serviço Exterior Brasileiro deixa de ser um exercício técnico de engenharia administrativa e se torna uma questão de política nacional. Não se trata de desmontar o Itamaraty, como querem fazer crer seus defensores mais corporativos, que confundem uma instituição com suas próprias carreiras.
Ao contrário, trata-se de devolver a chancelaria ao seu dono, que é o Estado brasileiro. Trata-se de substituir o classificação pessoalmente por um sistema de classificação em posição com progresso ancorado no desempenho verificável e na avaliação externa do seu próprio corpo funcional, exigir da classe de Ministros produção de um trabalho intelectual que sobreviva ao escrutínio público, alinhar a atividade diplomática aos grandes vetores de interesse nacional: defesa do território, inserção competitiva nas cadeias globais de valor, proteção do agronegócio e das exportações de alto valor agregado, garantia de acesso a insumos críticos, projeção de nossos ativos em minerais estratégicos e terras raras, e defesa intransigente das liberdades fundamentais nos foros multilaterais. Sem essa reconversão, o Itamaraty continuará a ser avaliado não pela entrega, mas pelo protocolo e pela cerimônia.
O diagnóstico, aliás, é conhecido por todos que operam a diplomacia brasileira por dentro. O silêncio sobre ele é sociológico. O corpo funcional zela pela preservação de seus privilégios, sabe articular o discurso corporativo em língua aparentemente técnica e cobra com eficiência um preço político a quem ousa propor a revisão do estatuto. É o mesmo fenômeno que José Guilherme Merquior, em outro contexto, estabelece como o patrimonialismo brasileiro de segunda camada: o Estado capturado pelos que dele vivem, em detrimento dos que dele dependem.
Em outras palavras, ao que parece, a execução da política externa brasileira é controlada por um pequeno grupo de diplomatas no topo da carreira que zelam, antes de tudo, por seus próprios interesses pessoais para depois, se possível, buscar os interesses da ação. Na medida em que uma política externa de um país das dimensões e importância do Brasil é formulada ou realizada às margens dos interesses da sociedade, do parlamento e das instituições de poder público, ela não pode mais ser considerada uma política de Estado, mas exclusiva de um Clube de amigosrazão pela qual o Brasil acaba sendo limitado ao tamanho do Itamaraty em suas relações internacionais.
Há, porém, uma janela estreita que se abrirá em janeiro de 2027. O Brasil terá a chance, pela primeira vez em uma geração, de reformar seriamente seu serviço diplomático sem precisar combatê-lo como adversário, mas como parceiro, é obrigado a servir. Não se trata de vingança nem de ajuste de contas. Trata-se de recuperar a lógica que Rio Branco imprimiu ao Palácio Itamaraty do Rio no início do século passado: uma chancelaria existe porque o Estado que a criuo precisa dela, e não o contrário. Toda reforma que recusa esse ponto de partida será, no filme, apenas redecoração.
Uma chancelaria não é um clube. Não é uma seita. Não é uma ordem religiosa com votos próprios e liturgia interna. É uma trincheira avançada do Estado soberano. Quando sai de si, restou apenas o prestígio acumulado, a memória de Rio Branco e uma corporação que confundiu a casa com o inquilino.
Marcos Degaut é doutor em Segurança Internacional, pesquisador sênior da University of Central Florida (EUA), ex-secretário especial adjunto de Assuntos Estratégicos da Presidência da República e ex-secretário de Produtos de Defesa do Ministério da Defesa.
