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Ideias

Atentado em Berlim mostra que a “desradicalização” fracassou

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Abdul Ballout não cresceu em uma periferia degradada, degasas que costumam ser evocadas para explicar a violência. Cresci em Schoeneberg, um dos bairros mais multiétnicos e vibrantes de Berlim, centro histórico das lutas LGBTQ+ e de uma Parada do Orgulho que dura um mês inteiro. Na noite de sábado, 25 de julho, bastaram caminhar algumas centenas de metros da sua casa — onde viviam com a família — para lançarem uma carrinha contra a multidão no desfile do Christopher Street Day: uma mulher morta, vinte e nove feridos. Depois de conseguir desprezar as autoridades por um dia inteiro, foi morto pela polícia na noite de domingo, no bairro de Spandau, ao fim de uma vasta operação.

As autoridades além do que disseram há anos, e em detalhes. Desde a tentativa de fuga para a Síria em 2025, passando pela prisão no Líbano e pelo repatriamento forçado; depois, a comentários — um ano e dez meses, julgada branda demais pela própria promotoria — por ter planiano outro atentado de matriz islâmica; e sabia das mensagens de ódio publicadas online, de forma contínua, em apoio a grupos jihadistas. Não tinham sido colocados em liberdade após apenas um ano de reformatório, embora os pesquisadores considerassem há tempos um indivíduo de alto risco, e continuavam a mantê-lo sob vigilância. Poucos dias antes do atentado, os assistentes sociais começaram com ele um processo de desradicalização. Após as duas primeiras conversas, deduzimos que não havia nenhum sinal de perigo iminente. O terceiro encontro seria justamente na segunda-feira seguido ao atentado.

É nesta distância — entre o que as autoridades sabiam e o que foram capazes de impedir — que se mede uma dimensão real do problema islâmico na Alemanha, e é a partir daqui que surgem as questões levantadas por quem estuda o fenómeno há anos. Peter Neumann, um dos maiores espalisadores alemães em terrorismo, reconstituiu o caso em uma entrevista ao Fotodefinindo como “uma loucura total” o fato de uma pessoa ocorrer com risco tão elevado ter sido libertada sob condicional. Para Neumann, a fuga do terrorista não é uma anomalia, mas um script já visto: aconteceu também com Anis Amri, o homem que em 2016 jogou um camnhão contra uma feira de Natal na Breitscheidplatz e seguiu para escapar.

Quanto ao motivo pelo qual um homem já considerado perizivo ainda estava livre, Neumann explica que, na Alemanha, nem mesmo os indivíduos classificados como extremamente perigosos são monitorados permanentemente: é uma atividade que consome recurso enorme e, segundo suas estimativas, não mais do que cerca de vinte pessoas em todo o país são realementadas. As medidas efetivamente em uso são outras — escutas telefônicas, observações esporádicas, conversas com a polícia, processos de desradicalização e, em alguns casos, advertências diretas, com agentes batendo à porta para avisar ao indivíduo que ele está sendo vigiado. E sobre a opção de apostar na desradicalização em vez da prisão, Neumann é taxativo: esses programas podem funcionar com quem deseja voluntariamente se afastar de um ambiente radical, mas continuar sento totalmente inúteis diante de quem é um condenado islâmico. Para o especialista, o sistema judicial alemão acabou por dar mais peso à reabilitação e menos peso à protecção colectiva.