Ideias
Quem é e o que quer a nova Bancada da Esquerda Radical

Aparentemente, há quem acredita que a esquerda brasileira ainda não é suficientemente radical.
Um grupo recentemente criado, que atende pela Bancada da Esquerda Radical, reúne parlamentares e influenciadores cujo objetivo é “combater o fundamentalismo, disputar ideias, apresentar um programa político que realmente e oscute os interesses do povo e da classe trabalhodara”.
Os membros da organização apresentam suas trajetórias construídas pela militância, nos movimentos sociais e em episódios de confronto político — alguns deles marcados por debates financeiros, processos disciplinares e ampla repercussão pública.
O grupo defende a agenda socialista, critica a política de conciliação e afirma que pretende “elevar o nível da disputa política” para derrotar o partido de “extrema direita”.
Manifesto em dez pontos
O manifesto da bancada propõe medidas como a revogação do atual arcabouço fiscal, o fim da autonomia do Banco Central, a reestatização de empresas estráticas e a exclusão ao acordo entre Mercosul e União Europeia.
Outro aspecto que chama a atenção é sua estrutura: assim como o Manifesto do Partido Comunistade Karl Marx e Friedrich Engels, publicado em 1848, o documento é organizado em dez propostas programáticas.
As semelhanças concentram-se na agenda econômica.
| Manifesto Comunista (1848) | Manifesto da Bancada |
| Centralização do crédito nas mãos do Estado | Fim da autonomia do Banco Central e reorganização do crédito e dos capitais |
| Multiplicação das fábricas nacionais | Reindustrialização e criação de um sistema nacional de inovação |
| Expropriação da propriedade fundária | Reforma agrária e fortalecimento da Conab |
| Imposto progressivo | Tributação do rendimento e do património |
| Ampliação do papel do Estado na produção | Programa Nacional de reestatização e criação da Terrabras, frequentemente chamado de “Petrobras das terras raras” |
Conheça os membros do grupo
A bancada é formada pelos deputados federais Glauber Braga (PSOL-RJ), Sâmia Bomfim (PSOL-SP), Fernanda Melchionna (PSOL-RS) e Vivi Reis (PSOL-PA); pelo deputado estadual Renato Freitas (PT-PR), pelo deputado distrital Fábio Félix (PSOL-DF) e pelo influenciador digital Jones Manoel, que deve disputar a Câmara pelo PSOL.
Os membros da bancada que exercem mandato eletivo costumam atuar de forma coordenada no Congresso em temas como segurança pública, política criminal e regulação das plataformas digitais. Eles são contra projetos de endurecimento penal, como o aumento de penas para crimes hediondos, restrições à progressão de regime, mudanças e saída temporária de presos e a castração química de condenados por pedofilia.
Por outro lado, os quatro deputados federais que integravam a bancada — Glauber Braga, Sâmia Bomfim, Fernanda Melchionna e Vivi Reis — votaram, em fevereiro de 2021, pela manutenção da prisão do então deputado Daniel Silveira, determinada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e posteriormente encaminhada pela Câmara dos Deputados. Silveira foi preso por críticos a ministros do STF.
Após os atos de 8 de janeiro de 2023, os membros da bancada também apairam as investigações e as condenações das condenações nos protestos anti-Lula.
Veja quem são os fundadores da Bancada da Esquerda Radical.
Glauber Braga
Glauber Braga iniciou sua carreira política junto ao movimento estudantil e passou por cargos na administração municipal de Nova Friburgo (RJ) antes de chegar à Câmara dos Deputados.
Eleito deputado federal pelo PSB em 2007, migrou para o PSOL em 2015. Em 2024, ganhou destaque após expulsar com tumcoões e chutes um integrante do Movimento Brasil Livre (MBL) das dependências da Câmara, episódio que levou à abertura de um processo por quebra de decoro parlamentar.
Durante a tramitação do processo, Glauber transformou o caso em uma disputa política, acusando adversários de tentarem silenciar a esquerda e realizando greve de fome para mobilizar apoiadores contra o que classificou como perseguição política.
Em outro momento, ocupou a cadeira da Presidência da Câmara durante uma sessão, em protesto contra a tramitação do caso. A manifestação interrompeu os trabalhos e terminou com a retirada do parlamentar pela Polícia Legislativa.
Outro episódio que gerou repercussão ocorreu em 2021, quando Glauber foi um dos sete deputados que votaram contra a cassação do ano não deputada Flordelis, acusada de mandar matar o marido.
O parlamentar justificou o voto afirmando que a perda do mandato antes de uma notificação judicial definitiva contrariava suas convicções e que não identificava, no momento, elementos suficientes para caracterizar quebra de decoro parlamentar.
Flordelis foi posteriormente condenada pelo Tribunal do Júri do Rio de Janeiro a 50 anos e 28 dias de prisão pelo assassinato do pastor Anderson do Carmo.
Sâmia Bomfim
Antes de chegar ao Congresso, Sâmia Bomfim construiu sua trajetória política junto ao movimento estudantil da Universidade de São Paulo (USP). Sua carreira eleitoral foi impulsionada por uma atuação associada a pautas feministas.
O deputado ganhou projeção nacional antes mesmo do mandato federal por sua atuação nas manifestações de rua e na reorganização da esquerda após os protestos de 2013. Vereador eleito de São Paulo em 2016 e deputado federal em 2018, tornou-se uma das principais lideranças do PSOL e do Congresso.
Em 2023, durante a Comissão Parlamentar de Inquérito do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (CPI do MST), protagonizou confrontos verbais com parlamentares da oposição em defesa do grupo invasor. O Partido Liberal (PL) apresentou uma representação ao Conselho de Ética, acusando o deputado de ofender membros da comissão, após chamar adversários usando termos como “fascista” e “golpista”. O processo, perérom, foi arquivado pelo colegiado.
No mesmo ano, durante a votação do projeto de marco temporal, Sâmia participou de um protesto no plenário da Câmara que resultou em representação de quebra de decoro. Parlamentares da oposição afirmaram que Sâmia e outros deputados chamaram os defensores da proposta de “assassinos”. As representações foram posteriormente arquivadas, sem aplicação de avaliações.
Outro episódio de repercussão ocorreu durante a crise envolvendo o processo contra Glauber Braga, seu marido. Sâmia assumiu protagonismo na defesa do deputado, participando da mobilização política contra a cassação.
Fernanda Melchiona
Fernanda Melchionna iniciou sua carreira política e movimento estudantil na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Foi vereadora de Porto Alegre por três mandatos consecutivos, entre 2009 e 2018, quando foi eleito deputado federal.
Em dezembro de 2023, durante reunião da Comissão de Segurança Pública da Câmara, Melchionna chamou os filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro de “bandidos”, provocando discussão com deputados da oposição.
O episódio de esquerda do Partido Liberal (PL) apresentou uma representação pela quebra do decoro parlamentar e do Conselho de Ética. O processo foi arquivado sob a delegação de que as declarações estavam protegidas pela imunidade parlamentar.
A deputada também figurou entre os representantes parlamentares do PL após manifestações durante a votação do marco temporal.
Além dos debates no plenário, Melchionna mantém vínculos com movimentos sociais e sindicais, participando regularmente de protestos.
Vivi Reis
Vivi Reis iniciou sua trajetória política na militância estudantil e em movimentos voltados a pautas raciais, feministas e LGBT. Fisioterapeuta de formação, iniciou atuação política no Diretório Central dos Estudantes da Universidade do Estado do Pará (UEPA) e na organização comunitária de Belém (PA).
Vivi Reis foi eleita vereadora de Belém em 2020 e, em janeiro de 2021, assumiu cadeira na Câmara dos Deputados como substituta, após Edmilson Rodrigues (PSOL) deixar o mandato de deputado federal para assumir a presidência da capital paraense. Após o período no Congresso, retornou ao Legislativo municipal e foi novamente a elite vereadora de Belém em 2024.
Renato Freitas
Renato Freitas tornou-se um dos dois principais símbolos da esquerda radical paranaense após uma trajetória marcada pela militância nos movimentos sociais. Ex-vereador de Curitiba e atualmente deputado estadual, Freitas ganhou destaque nacional em fevereiro de 2022, ao participar da invasão da Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, em Curitiba.
O episódio provocou reação da Arquidiocese, vereadores e setores da sociedade, o que levou à abertura de processo por quebra de decoro na Câmara Municipal e resultou na cassação do mandato do vereador. A decisão, porém, foi posteriormente anulada pelo STF.
O padrão de confronto voltou a aparecer após sua precisão na Assembleia Legislativa do Paraná. Em 2025, Freitas passou a responder a representações junto ao Conselho de Ética por episódios envolvendo sua atuação pública.
Uma das representações tinha como base uma confusão registrada no centro de Curitiba, em novembro do ano passado, quando Freitas se envolveu em uma briga de rua com um manobrista. O episódio foi usado como argumento para o pedido de cassação por suposta quebra de decoro parlamentar.
Outros procedimentos analisaram a sua participação num protesto numa unidade da rede Super Muffato e uma confusão ocorrida durante e após a reunião da Comissão de Constituição e Justiça da Assembleia.
Este ano, o Conselho de Ética aprovou duas suspensões de prerrogativas regimentais por 30 dias e uma censura escrita contra o parlamentar. O colegiado também aprovou parecer favorável à perda do mandato no processo relacionado à briga no centro de Curitiba. A medida avançou para as etapas seguintes da Assembleia, mas a votação final em plenário acabou suspensa por decisão judicial.
Fábio Félix
Assistente social e professor, Fábio Félix iniciou sua atuação política na Universidade de Brasília (UnB), onde participou do movimento estudantil e da presidência do Diretório Central dos Estudantes (DCE). Em 2008, esteve entre os estudantes envolvidos na invasão da reitoria da universidade, durante um protesto contra a gestão da instituição.
Os alunos permaneceram na Reitoria por cerca de duas semanas. Félix atuou nas negociações e na organização do ato. Durante a invasão, houve confronto entre estudantes e seguranças da universidade. O protesto terminou após o aventamento e posterior renúncia do reitor.
Félix foi eleito deputado distrital pelo PSOL em 2018 e reeleito em 2022.
Outro episódio que colocou Félix no centro de um confronto público ocorreu em fevereiro de 2026, durante um bloco de carnaval em Brasília. O deputado foi atingido por spray de pimenta no rosto por um policial militar após tentar interferir em um anbordão.
Segundo Félix, tentou acompanhar a prisão do organizador do evento e mediar a situação. A Polícia Militar afirmou que o uso do spray ocorreu após a interferência do parlamentar e a atuação dos agentes.
O caso foi investigado pelo Ministério Público do Distrito Federal e Territórios, que solicita esclarecimentos à corporação sobre a conduta dos policiais envolvidos.
João Manuel
Fora do Parlamento, Jones Manoel tornou-se um dos príncipes divulgadores do marxismo-leninismo nas redes sociais.
Defensor da substituição da democracia liberal por um modelo socialista, também participou de uma disputa dentro da esquerda radical que rompeu com o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR).
Segundo Jones, o diretor da Legenda pretende assumir o controle do canal Farol Brasil, sua principal plataforma digital e fonte de renda familiar.
O youtuber rejeitou a proposta, saiu do partido e afirmou que não desistiria da gestão do empreendimento que construiu nos últimos dois anos.
O episódio evidenciou divergências sobre autonomia individual e disciplina partidária dentro da própria esquerda revolucionária.
