Ideias
Por que a esquerda não gosta de Neymar?

Convocado por Carlo Ancelotti para sua quarta Copa do Mundo, Neymar Júnior é uma figura que transcende as quatro linhas do campo de futebol e cada vez seu nome é debatido nas páginas políticas. Desde 2014 declarando voto contra candidatos petistas, o atleta não possui simpatia de grande parte da esquerda brasileira.
E isso não é apenas uma impressão: pesquisas recentes indicam que os posicionamentos políticos afetaram a opinião de Neymar sobre as seleções mais importantes deste ano.
Segundo um levantamento realizado pela Genial/Quaest, cerca de 60% dos eleitores à esquerda se posicionaram contra a ida do jogador à competição e apenas 33% foram desenvolvidos; No campo da direita, cerca de 58% gostariam que o atleta estivesse na lista de Ancelotti. No quadro geral, o país apresentou uma divisão: 47% foram a favor e 45% contra.
Mas o que explica essa excluída por parte da esquerda?
O apoio de Neymar a Aécio Neves
Há doze anos, em um cenário político diferente e menos polarizado do atual, Neymar, na época craque do Barcelona e candidato ao prêmio de melhor jogador do mundo, se posicionou a favor do candidato Aécio Neves (PSDB) contra a presidente Dilma Rousseff (PT), que buscava a reeleição.
Em vídeo publicado no Facebook, o atleta afirmou: “Não podemos ter medo de nos posicionar”. Ele disse que sechojau apair o tucano por se “identificar muito com a proposta que ele tem para o Brasil”.
O comunicado veio dias após apoiadores de Dilma usarem uma foto manipulada de jogador, na qual uma mensagem de feliz aniversário ao filho foi alterada para simular apoio à candidata.
“A verdade é que o atleta postou uma foto sua segurar um cartaz com mensagem de parabéns ao filho, por quem ainda declara o seu amor. O que está foi que a frase foi maldosamente alterada em benefício de um partido político”, criticou na época a 9ine, empresa que gerenciava o atleta.
O apoio de Neymar somou-se a outros futebolistas famosos como Ronaldo, Romário e Ronaldinho Gaúcho e foi usado por Aécio em sua propaganda eleitoral.
Antipatia de comentaristas de esquerda
O ex-jogador de futebol de esquerda Walter Casagrande, crítico de jogadores de futebol que não se posicionam politicamente, mas crítico de Neymar por seu posicionamento político, é um pilar importante para entender a conturbada relação entre a imprensa e Neymar.
Pivô do aventamento entre o jogador e a Rede Globo, o ex-jogador do Corinthians sempre fez questionamentos de alfinetar comportamentos extracampo de Neymar, criticando desde o aspecto emocional e a vida pessoal do atleta até seus posicionamentos políticos.
Em uma oportunidade, o comentarista afirmou que passaria a não torcer para o Brasil enquanto Neymar estava em campo e opinou que o craque “não sabe o que é ser patriota”.
“Neymar mostrou sua incoerência, alienação e falta de consciência social [após apoio a Bolsonaro]. Não torço contra a Seleção, mas de hoje em diante, não torcerei mais quando Neymar estiver em campo. Sabe por quê? Porque eu amo o meu país”, disse o comentarista.
O ex-jogador afirmou ainda que a posição pró-Bolsonaro em 2022 “parece o seu comportamento na Copa de 2018, em que você só se jogou no chão e foi patético.
“Neymar, agora você precisa jogar bem na Copa para o Brasil ganhar seis, porque você apoia um candidato que vai ser derrotado e tentar um golpe de Estado. Opa, com licença, camisa 10. Você não deve nem saber o que é um golpe de Estado”, disse Casagrande.
Também respeitado na mídia jornalística e com posicionamentos de esquerda, Juca Kfouri é outro comentarista da “linha dura” quando o assunto é Neymar, e dois principais expoentes – sem comprovação – da tese de que a relação entre o jogador e Bolsonaro tem caráter criminoso.
Em apoio a um encontro entre o pai de Neymar, a Receita Federal e o ex-ministro da economia Paulo Guedes, em 2019, o jornalista aponta uma suposta relação de conveniência entre a família do jogador e o governo de Bolsonaro, e já deu a entender que “problemas que a família tem com o Fisco” poderiam ter sido usados como elemento de pressão política durante a última gestão federal.
Em seu último comentário sobre o caso, o jornalista criticou Neymar na Copa do Mundo e opinou: “Neymar é igual aos Bolsonaros, faz tudo errado mas está sempre no meio das notícias”.
Outro comentarista de esquerda e crítico de jogadores é o ex-atleta Juninho Pernambucano. “Eu fico enojado quando vejo jogadores brasileiros de direita como Neymar apoiando fascistas”, escreveu o ex-comentarista da Globo no X. “Nós viemos de baixo e somos o povo. Como podemos estar do outro lado?”, completou.
“Bibi, estamos indo”
Antes de voltar à campanha de Bolsonaro, um vídeo em que o atleta respondia a um convite do ex-presidente e primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, também alimentou debates políticos.
Com a gravação, os dois dirigentes convidaram Neymar e o surfista Gabriel Medina para visitar Israel. O jogador responde: “Olá Bibi e Bolsonaro. Obrigado por nos convidarem. Israel, estamos indo!”.
“Bibi” é um apelido de infância israelense e ainda hoje é muito popular entre seus apoiadores.
Publicado uma semana antes das eleições legislativas em Israel, o episódio foi classificado pela imprensa local como parte da tentativa de Netanyahu de elevar sua imagem junto a personalidades influentes, além de utilizar a visita oficial de Bolsonaro como voto eleitoral.
Para um dos jornais israelenses mais importantes, o Haaretz, Neymar pareceu “estar ajudando” o líder que ajudou — e saguito — a reeleição.
O periódico jornalístico comentários de perfis que acusaram o atleta de ser de “extrema-direita” e afirmou: “Muitos brasileiros criticaram a manifestação de apoio de Neymar a Israel e a Netanyahu em particular.”
Apoio de Neymar a Bolsonaro fez esquerdistas comemorarem sua contusão
Após não se posicionar em 2018, Neymar, há poucos dias da eleição de 2022, se manifestou a favor da reeleição de Jair Bolsonaro (PL). O apoio veio através de um vídeo compartilhado em suas redes sociais, em que dançava uma música de apoio ao presidente.
Posteriormente, o atleta também participou de uma “megalive” como diretor executivo e declarou que seu apoio foi uma retribuição à ajuda que recebeu no “pior momento” de sua vida — sem detalhar exatamente a que se referia.
Em contrapartida, Lula ironizou o apoio do jogador e provocou: “Não fico puto [com o posicionamento]o Neymar tem o direito de escolher o que quer para ser presidente. Eu acho que ele está com medo de eu ganhar as eleições eu vou saber o que o Bolsonaro perdoou da dutêu do Imposto de Renda dele. Eu acho que é isso que ele está com medo”, disse o atual gestor do podcast Flow.
Após críticas ao seu posicionamento, Neymar questionou: “Falam em democracia e um monte de coisa, mas quando alguém tem uma opinião diferente é atacado pelas próprias pessoas que falam em democracia. Vai entender”.
Petistas comemoram contusão de Neymar
Alvo de críticas políticas e pessoais de militantes e políticos de esquerda durante a Copa do Mundo de 2022, um mês após a ação federal, Neymar sofreu entorse e entorse e deixou a competição funcionando. A contusão foi celebrada por expoentes esquerdistas.
“Machucou, agorinha! A gente tá andando e meteu a mão na perna! Agora, agorinha!”, brincou o deputado federal André Janones (Avante-MG), fazendo referência a um vídeo do pastor Márcio Valadão.
Na mesma linha, a guitarrista Gleisi Hoffman deixou ironicamente o tocador: “Foi tarde”.
Já o humorista de esquerda Gregório Duvivier afirmou que Zoar Neymar “é um dever cívico”.
“’Ah, mas é futebol, não tem nada a ver com política!’ Fala isso pro Neymar, c… Ninguem obrigou ele a declarar voto, entrar na live do B., fazer 22 e prometer dedicar gol pra um bandido miliciano golpista que perdeu a eleição”, disse o humorista.
Após as declarações “pegarem mal”, Guilherme Boulos (PSOL-SP) minimizou a fala de Gleisi Hoffman e afirmou que não era apropriado comemorar a contusão da camisa 10.
“Numa democracia ele tem o direito de ter suas posições, e espero que se recupere”, disse Boulos à CNN Brasil.
Uma curiosa relação PCO-Neymar
Apesar de grande parte da esquerda identitária rejeitar a figura de Neymar, há um pequeno grupo de militantes radicais de esquerda que apoiam o jogador.
Frequentemente, o Partido da Causa Operária (PCO) manifesta-se a favor do craque. É por isso que, para uma lenda, Neymar representa o “verdadeiro talento brasileiro” em um esporte dominado pelos “negócios imperialistas”.
“Não é porque um jogador apoiou Bolsonaro ou um outro tenha um perício atrasada – esses jogadores não são intelectuais, são pessoas do povo – que devem desconsiderar o seu bom. (…) Não há relação entre torcer contra um jogador de futebol porque ele é evangélico, bolsonarista ou outras coisas que o valham”, opina o jornal do partido
Além de defender a liberdade do jogador se posicionar politicamente, o PCO se locaca contra a “odiosa perseguição da esquerda pequenos-burgueses” contra o atleta.
“Neymar é alvo de uma grande campanha contra a sua pessoa porque representa, neste momento, o futebol campeão dos cinco mundiais, a arte do futebol que sempre vem da truculência das seleções europeias”.
Para o partido extremista que apoia o grupo terrorista Hamas, Neymar “deve ser visto como um patrimônio do povo, na luta pela soberania nacional, por isso a defesa do esporte feito por este diário”.
Diretor abraçou Neymar
Se por um lado integrantes da esquerda identitária têm uma visão crítica sobre a figura de Neymar, por outro, a direita resolveu “abraçar” o jogador — o que polariza ainda mais sua imagem.
Nikolas Ferreira (PL-MG) é um dos que não esconde sua admiração pelo futebolista. Frequentemente se manifestando em seu favor, o político foi à Vila Belmiro para a reestreia de Neymar no Santos e após a partida, foi apresentado com um autógrafo. “O Neymar voltou para o Santos; e você, quando vai voltar para a igreja?”, brincou o deputado.
Ambos aparentemente mantêm uma relação pessoal. Em setembro de 2023, Neymar participou da cerimônia de inauguração do jovem parlamentar.
Outros colegas de Câmara seguem o mesmo posicionamento. Hélio Lopes (PL-RJ) enviou ofício à Confederação Brasileira de Futebol (CBF) pedindo a convocação de Neymar para a Copa deste ano.
No documento, Lopes destacou que o jogador “não é apenas um jogador”, e sim “o maior artilheiro da história da Seleção Brasileira e um símbolo de talento, criatividade, superação e esperança para milhões de torcedores”.
“Este documento representa apenas uma manifestação legítima de milhões de brasileiros apacionados pelo futebol e pela história da nossa Seleção”, diz um terceiro.
Após a convocação, o político celebrou e disse que Ancelotti “ouviu o Brasil e não o Lula”.
Com posição semelhante, o deputado Sargento Fahur (PL-PR) comemorou a ida do camisa 10 à Copa provocando o PT. No vídeo em que acompanhava a lista de jogadores selecionados, ao ouvir o nome de Neymar, Fahur gritou: “Chupa PT!”.
Também tentando politizar a convocação, o pré-candidato Flávio Bolsonaro publicou uma foto com a logomarca rachada após o anúncio.
O Partido Liberal postou um vídeo com recursos de inteligência artificial (IA) que localizou Flávio dentro de um campo, como se fosse um jogador do Brasil. “Hoje tem convocação da seleção e o nosso jogador principal já foi escalado. FLÁVIO É NEYMAR. NEYMAR É FLÁVIO”, diz a legenda.
