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Juçara Marçal e Thais Nicodemo: A Invenção Sonora que Redefine ‘Dessemelhantes’

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A cantora Juçara Marçal, figura proeminente da cena musical paulistana e reconhecida pelo impactante álbum “Encarnado” (2014), une forças com a pianista Thais Nicodemo para lançar “Dessemelhantes”. Este trabalho, já disponível no mercado fonográfico digital pela YB Music, reafirma a vocação de ambas as artistas para a experimentação sonora, mergulhando em uma atmosfera de vanguarda que (des)norteia o ouvinte desde a primeira audição.

A Poética do Ruído e do Inesperado

A identidade sonora de “Dessemelhantes” é moldada pela inventividade instrumental. Thais Nicodemo utiliza um piano preparado, onde objetos como latinhas, papéis e placas de metal inseridos entre as cordas transformam a sonoridade tradicional do instrumento. Juçara Marçal, além dos vocais expressivos, opera sampler e synth bass, contribuindo para uma tapeçaria de texturas eletrônicas e percussivas.

O repertório do álbum, composto por nove faixas, é uma curadoria de composições que se alinham à estética vanguardista das artistas. Desde “Isso é o que se diz, irmão” (Guilherme Held e Eduardo Climachauska, 2020), a obra se propõe a desmantelar e remodelar estruturas, subvertendo expectativas e explorando paisagens sonoras incomuns.

Conexões Artísticas e Legados

O álbum transita por compositores afinados com essa proposta inventiva. A faixa “Maria” de Maria Beraldo, por exemplo, mixa elementos eruditos e de vanguarda, enquanto Juçara narra uma saga autobiográfica e feminina. A inclusão de “Eu lacrei”, de Negro Leo, ressalta a filiação artística do duo a uma linhagem de criadores que questionam as convenções.

Ecos da Vanguarda Paulista

A presença de Maria Beraldo e Negro Leo no álbum, que também aborda a faixa-título co-assinada por Juçara com Thiago França, é um indicativo das raízes do projeto. Ambos os artistas compartilham o mesmo espaço de invenção habitado por figuras como Arrigo Barnabé na efervescente Pauliceia dos anos 1980, estabelecendo um diálogo contemporâneo com esse legado de ruptura.

Um Convite ao Desnorteio Sonoro

“Dessemelhantes” pode ser percebido como um disco desafiador, por vezes indigesto para ouvidos habituados a sonoridades mais convencionais. No entanto, oferece momentos de delicadeza, como em “Cavaquinho” (Rodrigo Campos, 2009), onde o piano evoca a leveza de uma caixinha de música. Predominam, contudo, tensões, ruídos percussivos, efeitos eletrônicos e dissonâncias que pautam a abordagem das músicas.

Canções como “É mesmo assim” (Kiko Dinucci, Rodrigo Campos e Romulo Fróes, 2011) e “A gente se fode bem pra caramba” (Kiko Dinucci, 2017) revelam uma ironia mordaz e resignada, provocando o ouvinte e sublinhando o destino de uma obra que desafia as normas de um mercado frequentemente avesso a tudo que não seja fácil ou repetitivo. “Dessemelhantes” é, em essência, um álbum concebido para desorientar e abrir novos caminhos na percepção musical.

Fonte: https://g1.globo.com

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