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Gonzaguinha É: Vigor Cênico e Ideologia Marcam Musical da Cia. Barca dos Corações Partidos

O musical “Gonzaguinha É”, em cartaz no Rio de Janeiro e abrindo a 18ª edição da Festa Internacional de Teatro de Angra (Fita), é uma produção da Cia. Barca dos Corações Partidos que se destaca por sua abordagem inovadora. O espetáculo foge do formato biográfico tradicional para mergulhar na profunda ideologia do compositor Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior (1945 – 1991), o Gonzaguinha, priorizando seu vasto cancioneiro e o engajamento de suas letras.
Uma Visão Não-Convencional da Trajetória do Artista
Com dramaturgia assinada por Braulio Tavares e Ana Carbatti, e direção artística de Inez Viana, “Gonzaguinha É” opta por uma narrativa que expõe o pensamento do artista em vez de refazer seu percurso cronologicamente. Essa escolha refresca o gênero musical, que vinha mostrando sinais de repetição, injetando uma nova vitalidade ao abordar a obra de Gonzaguinha através de suas falas e posicionamentos, conforme reproduzido no texto.
Força Coletiva e Destaques Individuais no Palco
O elenco, composto por quatro atores da Barca dos Corações Partidos (Adrén Alves, Alfredo Del-Penho, Beto Lemos e Ricca Barros) e quatro atrizes convidadas (Ana MaGa, Luiza Loroza, Nívea Magno e Thati Dias), sustenta o espetáculo pela potência do coletivo. O canto conjunto de composições como o samba “O que é o que é” (1982) e o bolero “Começaria tudo outra vez” (1976) se impõe, reafirmando que a companhia busca fazer teatro, e não um mero coro da plateia.
Entretanto, brilhos individuais também emergem. Thati Dias interpreta com expressividade o samba-enredo “O homem falou” (1985), enquanto Ricca Barros emociona com “Pequena memória para um tempo sem memória” (1980), um réquiem para as vítimas da ditadura. O dueto de Ana MaGa e Luiza Loroza ressignifica “Espere por mim, morena” (1976), conferindo um sentido homoafetivo à canção.
Sonoridade e Expressividade Cênica
Musicalmente, sob a direção de Alfredo Del-Penho e Beto Lemos, o espetáculo transita entre a cadência do samba carioca e a intensidade da música nordestina, refletindo as raízes de Gonzaguinha. Há espaço para a liberdade, como no funk de “Recado” (1978) na voz de Luiza Loroza, e a abertura com “Galope” (1974) cantada por Del-Penho.
O vigor cênico é uma marca distintiva da Barca dos Corações Partidos, evidenciado pelo movimento corporal dos atores e pela ausência de uma banda externa – os próprios artistas tocam os instrumentos. Essa interação do elenco com a música e entre si, somada à direção de movimento de Denise Stutz, cria uma expressividade que transcende a canção, mostrando que o corpo também comunica em “Gonzaguinha É”.
A Ideologia que Impulsiona o Espetáculo
Acima de tudo, o que impulsiona e legitima “Gonzaguinha É” é a ideologia incutida nas letras e no pensamento do compositor. Gonzaguinha, que jamais se esquivou da luta, enfrentou o sistema em sambas como “Comportamento geral” (1972) – cantado por Adren Alves e Ricca Barros – e “Geraldinos e arquibaldos” (1975), interpretado por Nívea Magno, exemplificando a relevância duradoura de sua obra engajada. As músicas, em sua essência, falam por si.
Fonte: https://g1.globo.com
