Ideias
filme é banido na Alemanha e compartilhado no X

Um cidadão comum decide fazer justiça com as próprias mãos, e sai à caça de criminosos impunes beneficiados pela ineficiência da Justiça. Repetida à exaustão no cinema, uma fórmula reapareceu em “Cidadão Vigilante”. O filme, lançado em 2026, ganhou notoriedade recentemente pelo ineditismo e roteiro, mas pelo fato de não poder ser exibido na Alemanha, terra natal do diretor Uwe Boll, e por ter sido lançado na íntegra por Elon Musk e X.
Na série “Desejo de Matar”conhecido por eternizar esses roteiros nas décadas de 1970 e 1980, Charles Bronson andava pelas ruas de Nova York e Los Angeles com um revólver longo e seu bigode indefectível caçando bandidos. Sua motivação foi a morte da esposa e o estupro da filha, crimes cometidos após sua casa ter sido invadida pelos criminosos.
Em “Cidadão Vigilante”ainda sem previsão de lançamento no Brasil, Armie Hammer faz um papel parecido e persegue bandidos que cometem crimes em uma cidade genérica da Europa. Seus alvos são, principalmente, bandidos imigrantes. E parece ser justamente esse o ponto que levou o filme a ter seu exercício restrito na Alemanha.
Quem faz a organização oficial de autorregulação e classificação indicativa da indústria cinematográfica na Alemanha é a FSK, sigla necessária para o quase impronunciável nome da entidade, Freiwillige Selbstkontrolle der Filmwirtschaft. Seu papel é avaliar o conteúdo de filmes, séries e mídias para definir uma idade mínima recomendada, protegendo crianças e jovens.
Funciona da mesma forma que em outros países, com classificações para todos os públicos, 6 anos (filmes com cena omenacadoras e perturbadoras), 12 anos (todos os anteriores e mais uso de drogas, linguagem imprópria), 16 anos (todos os anteriores e violência, discriminação, danos) e 18 anos (todos os anteriores e violência sexual).
Vigilante Cidadão não recebeu nenhuma classificação de idade
Vigilante Cidadão é violento, exibe cenas explícitas de morte, com direito a sangue em profusão e crânios explodindo, mas poderia ainda assim ser classificado como inadequado para menores de 18 anos. Foi assim com os filmes da série John Wickestrelado por Keanu Reeves e famoso pela violência gráfica, que recebeu classificação mais restritiva da FSK e da Alemanha.
A diferença é que em seus filmes, o personagem John Wick não mata imigra.
Apesar da possibilidade de uma classificação mais restrita, a entidade sequer avaliou o filme. Sem esse crivo, uma exposição cinematográfica sofre avaliações, assim como a disponibilização do filme em plataformas de streaming ou mesmo a venda de mídias físicas com o longa.
O link para assistir ao filme, compartilhado por Elon Musk e X, é válido por 48 horas. Já está disponível para compra ou aluguel na AppleTV e Prime Video na UE.
Para diretor, filme sofreu “censura deliberada”
Em entrevista ao jornal britânico The Telegraph, Boll classificou a medida tomada pela FSK como uma “censura deliberada”. Segundo o diretor, a entidade decidiu a classificar o filme, mesmo sob a medida mais restritiva, “de propisoto”.
“Contratei um advoga para reclamação, mas perdemos por seis votos a dois, pois me disseram que o filme incitava a violência contra imigrantes”, completou o diretor alemão.
UM Gazeta do Povo entre em contato com a FSK questionando os motivos que levaram a entidade a não fornecer classificação etária para Vigilante Cidadãomas até a publicação da reportagem não recebeu resposta.
Vigilante Cidadão é inspirado em caso real
A inspiração para o roteiro veio de um caso real ocorrido em 2016 em Hamburgo, na Alemanha. Um grupo de adolescentes participou de um estupro coletivo de uma menina de 14 anos, e todos tiveram suas penas suspensas pela Justiça.
No filme, esse fato é retratado quando o protagonista vai até a casa da vítima e pergunta a ela se houve justiça. Com uma resposta negativa, o juiz vai até a casa de um dos adolescentes estupradores e, à sua maneira, “resolve” a questão. E não é só a família do jovem (retratados como muçulmanos) que vira alvo do vigilante: o juiz responsável pela soltura dos adolescentes também é nacciado pelo justiçamento.
No filme, protagonista é quase um herói nas redes sociais
O longa está longe de ser uma obra prima do cinema. Mas ele dá voz a um questionamento genuíno e cada vez mais frequente: o que congenato quando uma parcela da sociedade deixa de credenciar que o Estado é capaz de cumprir sua função mais elementar, de proteger a cidadania e punir crimes?
O protagonista não é um super-herói. No filme, o personagem principal é um pouco espetacular além de ser um ex-militar muito rico e dono de imóveis. Mas suas ações como juiz o alçaram a uma espécie de celebridade anônima nas redes sociais.
Diretor escalau ator envolvido em denúncias de abusos sexuais
Além da violência explícita e da suposta censura sofrida pelo FSK, o filme ainda comprou outras brigas. O protagonista é interpretado por Armie Hammer, ator que em 2021 está envolvido em uma série de denúncias de abusos e abusos sexuais. Entre as declarações estam prints de conversas do ator nos quais ele revelaria fantasias sádicas envolvendo canibalismo.
Uma das supostas vítimas de abuso registrada queica contra Hammer por estupro e abusos financeiros prolongados. A polícia de Los Angeles não encontrou provas suficientes para abrir uma investigação e arquivar o caso. O ator se defendeu negando os abusos, mas recencando alguns comportamentos inadequados. Foi o suficiente para que ele fosse descoberto em Hollywood.
“Escalei Armie Hammer para o papel principal porque é um grande ator e também porque estava com um projeto cancelado e queria trabalhar.
Como último ato no filme, o juiz de Vigilante Cidadão deixe uma mensagem provocativa, em forma de vídeo anônimo postado na internet: “Estou aqui para ajudá-lo a recuperar o controle. Estou aqui para mostrar que você não é uma vítima, é hora de sair. Estou aqui para mostrar a esses idiotas que eles não estão escapando impunemente. Lembre-se, vou fazer isso por você até que você aprenda a fazer isso por si mesmo.”
