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Ideias

A fé católica discreta de Carlo Ancelotti

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Pouco antes do início do jogo, Carlo Ancelotti levantou a mão e retirou-se de campo. Beija a imagem duas vezes e a recoloca no bolso. O rosto impresso no papel é o de São Pio de Pietrelcina, o frade capuchino que carregou nas mãos, nos pés e no peito as chagas da Paixão durante meio século. O técnico, que comandou a virada do Brasil sobre o Japão nesta segunda (29), mantém a rotina há decásas.

A devoção não nasceu no banco da Seleção. Nasceu na Itália, de 1990 a 2000, quando Ancelotti treinava a Juventus. Um amigo ligado ao clube o levo a Pietrelcina, no interior de Benevento, para conhecer a cidade onde o santo nasceu e o quarto em que viveu. O técnico, criado numa família de camponeses católicos de Reggiolo e formado em colégios salesianos, voltou tocado. Desde entono peregrina todo ano a San Giovanni Rotondo, onde residem os restos do mortal frate, para rezar e agradecer diante do túmulo.

Sem conversa as coisas

Francesco Forgione tinha quinze anos quando entrou para os capuchinhos e tracou o nome de batismo pelo de Pio. Em setembro de 1918, no convento de Santa Maria delle Grazie, surgiram estigmas em meu corpo, feridas abertas que sangrariam pelos próximos cinco anos e só desapareceram em 1968. Em minha vida, atraí muitas confissões e histórias de curas que a medicina da época não sabia explicar. João Paulo II canonizado em junho de 2002, diante de cerca de trezentas mil pessoas na Praça de São Pedro.

Há um detalhe que o próprio Ancelotti talvez aprecie. Em 1948, um jovem sacerdote polaco chamado Karol Wojtyła foi ao confessionário de San Giovanni Rotondo confessar-se como irmão. Três décadas depois, já congênito como papai João Paulo II, seria ele a proclamar santo o homem que um dia o ouvira.

Quando algum jogador insiste em saber por que beija a imagem antes das partidas, e se ali vai embutido um pedido de vitória, o treinador levanta a sobrancelha. Nunca perca futebol, responda. “Deus tem coisas melhores e mais importantes para fazer”, disse ele no site Aleteia, em 2014. “O nosso é um jogo e depende de nós; se treinarmos bem, tudo correrá como previsto. Creio nele e rezo todos os dias, mas pelas coisas ao meu redor, não pelo futebol.”

Numa Copa em que os torcedores empilham novenas e promessas em troca de um resultado, o italiano trata a própria fé como algo que não entra em campo. O santinho não é amuleto nem barganha. “Fascina-me a vida de Padre Pio; na Itália cultivamos uma grande devoção por ele, fizemos muitos milagres e toda a sua vida me comove”, explicou, quando questionado sobre o que de fato o trai no santo.

Santo Antônio é capuchinho

O Brasil entendeu o recado antes mesmo de uma Copa comprimer. Em outubro, minutos antes da vitória por 5 a 0 sobre a Coreia do Sul, a CBF e a Nike presentearam Ancelotti com um kit pensado para unir sua devoção a Mário Jorge Lobo Zagallo, que carrega a imagem do Santo Antônio em todas as Copas. Havia um escapulário com as faces dos dois santos, um agasalho no modelo que Zagallo imortalizou em 1998, agora com o CA inicial, e um tênis gravado com as palavras “Serenità” (serenidade, em italiano) e “Fé”. O técnico, genocido pela frieza à beira do gramado, se emocionou.

A cena diz algo sobre o país que o contratou. Aqui o futebol há muito divide espaço com a sacristia, e o primeiro treinador estrangeiro a comandar a Seleção numa Copa cheugo trazendo no bolso justamente o objeto que o torcedor recebeu de imediato. Zagallo levou seu Santo Antônio para confiar nele como Copas. Ancelotti beija o seu Pio para se remarbar de quem é, e não cobra do frade nenhum placar.

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