Ideias
Como a guerra no Irã vai afetar o agronegócio brasileiro

A agricultura moderna é, em última análise, uma operação de conversão termodinâmica: transforma energia fóssil em nitrogênio fixado, nitrogênio fixado em proteína vegetal e proteína vegetal em calorias para 8 bilhões de pessoas. Essa cadeia não é apenas produtiva, mas civilizacional: trata-se de um dos raros sistemas em que energia, química e geopolítica convergem para sustentar a estabilidade social global. Sua ruptura não produz apenas escassez, mas também desordem.
Parte significativa da cadeia produtiva depende de um punhado de insumos químicos cuja produção está concentrada em menos de dez países, e cujo transporte, no caso do abastecimento de fertilizantes para o mercado brasileiro, depende, em considerável medida, de um gargalo marítimo de 33 quilômetros de largura situado entre o Irã e Omã.
Em 28 de fevereiro, quando os Estados Unidos e Israel iniciaram operações militares contra o Irã, esse gargalo se fechou. O tráfego comercial pelo Estreito de Ormuz caiu mais de 90%. O barril Brent saltou de US$ 72 para US$ 112 em menos de um mês. O mundo leu primariamente petróleo e derivados. O Brasil deveria ter lido fertilizantes. O Estreito de Ormuz, nesse contexto, deixou de ser apenas um ponto de estrangulamento logístico e assumiu a função de ativo geoeconômico, um instrumento de poder capaz de modular preços, fluxos e decisões produtivas em escala global.
. No caso da ureia, principal fertilizante nitrogenado, o Brasil importa mais de 90% do que consome; 33% provêm do Oriente Médio (Omã, Catar, Irã) e 41% do volume total transitavam pelo Estreito de Ormuz.
Os números são conhecidos, mas sua implicação estratégica permanece subavaliada pelo debate público. O Brasil importa aproximadamente 85% dos fertilizantes que consome. Em 2025, o volume atingiu 45,5 milhões de toneladas, recorde histórico, ao custo de US$ 16,73 bilhões. A Rússia responde por cerca de 24% do total importado (US$ 3,5 bilhões), seguida pela China (14%, US$ 2,1 bilhões) e por Marrocos (11%, US$ 1,59 bilhão).
Todavia, a desagregação por produto revela o grau real da exposição. No caso da ureia, principal fertilizante nitrogenado, o Brasil importa mais de 90% do que consome; 33% provêm do Oriente Médio (Omã, Catar, Irã) e 41% do volume total transitavam pelo Estreito de Ormuz. O cloreto de potássio, crítico para a soja, depende da Rússia (45%) e do Canadá (38%). O MAP (fosfato monoamônico) vem da Rússia (46%) e da Arábia Saudita (25%). O superfosfato, do Egito (42%), da China (36%) e de Israel (10%). As duas principais origens dos fertilizantes brasileiros são, portanto, um país em guerra desde 2022 e uma região em guerra desde fevereiro de 2026. Essa configuração desfavorável não é resultado de fatalidade geográfica, mas de decisões estratégicas não tomadas.
A vulnerabilidade brasileira não é apenas elevada, mas também é sistêmica e não-linear: pequenas disrupções logísticas podem produzir efeitos desproporcionais sobre preços, oferta e decisões de plantio. Em mercados de commodities críticas, volatilidade não é ruído, mas mecanismo de seleção. Países expostos tendem a perder capacidade produtiva relativa ao longo do tempo.
O impacto da guerra sobre as cadeias de fertilizantes é direto e mensurável. Desde o fechamento de Ormuz, a ureia acumula alta de 50%, embora permaneça 25% a 35% abaixo do pico de março de 2022. O enxofre, insumo essencial para fertilizantes fosfatados, praticamente desapareceu do comércio internacional com a retirada dos volumes do Golfo; o Canadá tornou-se a última fonte alternativa em escala relevante. A amônia segue trajetória análoga.
Em paralelo, a Rússia suspendeu exportações de nitrato de amônio até o final de abril para proteger seu mercado interno, e a China restringiu vendas externas de ureia para priorizar a agricultura doméstica. As três grandes fontes globais de fertilizantes nitrogenados estão, simultaneamente, fora do mercado ou sob restrições severas. Não se trata de um choque transitório de preços. Trata-se de uma ruptura estrutural de oferta que coincide com a temporada de plantio do Hemisfério Norte e que antecede, por poucos meses, o início do plantio da safra brasileira 2026/27.
O precário cessar-fogo de duas semanas acordado entre Estados Unidos, Israel e Irã em 7 e 8 de abril ofereceu alívio aos mercados financeiros: o petróleo recuou, as bolsas reagiram positivamente. Cessações de hostilidades, contudo, não revertem ciclos agrícolas. A safra 2025/26 brasileira está em fase de colheita e a safrinha em fase de plantio, em muitos casos com aplicação deficiente de nitrogênio, seja por indisponibilidade física do insumo, seja por preços proibitivos. O tempo da política é discricionário; o da agricultura é biológico. Quando o primeiro falha, o segundo não espera.
O diesel, parcialmente dependente do petróleo do Golfo, já apresenta escassez localizada em regiões produtoras, pressionando o frete rodoviário. Os custos de produção sobem por dois vetores simultâneos (insumos e logística), enquanto o produtor rural, tomador de preços em mercados de commodities, não dispõe de mecanismo proporcional de repasse. Analistas do setor estimam que, mesmo com a reabertura do estreito, a produção de petróleo do Golfo não retornará a níveis pré-conflito antes do final de 2026.
O Irã foi, em 2025, o maior comprador individual de milho brasileiro.
Para fertilizantes, a perspectiva de normalização é ainda mais distante, dado o tempo necessário para reparar instalações bombardeadas, recompor estoques, reativar rotas logísticas e renegociar contratos de fornecimento. O caso do complexo gasífero de Ras Laffan, no Catar, é emblemático: responsável pelo fornecimento de 17% de todo o gás natural liquefeito (GNL) global, a instalação foi bombardeada pelo Irã em 2 de março e desde então suas operações estão suspensas. O governo catari estima que Ras Laffan retomará os níveis de operação pré-conflito entre 2029 e 2031, circunstância que, ademais de afetar no médio prazo a disponibilidade de GNL, impacta também o fornecimento de enxofre, ureia e fertilizantes nitrogenados.
Exportações de milho também podem ser prejudicadas
Há uma segunda dimensão do problema que a cobertura corrente tem subestimado, para não dizer negligenciado completamente. O Irã foi, em 2025, o maior comprador individual de milho brasileiro: cerca de 9 milhões de toneladas, equivalentes a 20% das exportações totais do grão. O Oriente Médio absorveu 30% das exportações brasileiras de frango e 32% das de milho. A Liga Árabe foi responsável por US$ 10,3 bilhões em importações de alimentos do Brasil, segundo maior bloco comprador, atrás apenas da Ásia.
A guerra interrompeu, portanto, os dois sentidos do fluxo comercial: fertilizantes na direção do Brasil, proteínas e grãos na direção do Golfo. Exportadores de carne já redirecionam cargas pelo Cabo da Boa Esperança, acrescentando duas semanas ao trânsito e elevando custos de combustível em até 40%. A empresa de transporte marítimo alemã Hapag-Lloyd cobra US$ 3.500 por contêiner refrigerado com destino ao Golfo. A exposição brasileira ao Oriente Médio não é apenas de insumos. É sistêmica.
A Rússia é a principal beneficiária colateral da disrupção. O primeiro-ministro Mishustin afirmou que o conflito no Oriente Médio cria “novas oportunidades comerciais” para Moscou, segundo maior exportador de petróleo, maior exportador de trigo e um dos maiores fornecedores globais de fertilizantes.
Os dados confirmam a tendência: as exportações russas de fertilizantes para o BRICS cresceram mais de 60% nos últimos três anos, e o Brasil absorve quase um quarto desse volume. A dependência brasileira de fertilizantes russos não resulta de uma decisão estratégica deliberada. Resulta da ausência sistemática de qualquer decisão alternativa, o que produz o mesmo efeito prático: concentração de fornecimento em um ator cujos interesses geopolíticos não coincidem com os brasileiros e cuja viabilidade como parceiro comercial ora indispensável está condicionada a variáveis que o Brasil não controla.
A premissa implícita dessa estratégia, a de que o mercado internacional permaneceria permanentemente líquido, previsível e despolitizado, primária em sua estultice, revelou-se evidentemente equivocada. Cadeias críticas não operam sob lógica de mercado puro em cenários de conflito.
A esquerda brasileira, que governa o país, não dispõe de um projeto estratégico para o agronegócio.
O Plano Nacional de Fertilizantes, lançado em 2022 após o choque provocado pela guerra na Ucrânia, estabeleceu como meta reduzir a dependência externa para 45% até 2050. A meta é demasiadamente modesta: o país se propôs a levar quase três décadas para atingir pouco mais da metade da autossuficiência em um insumo do qual depende integralmente sua segurança alimentar e parcela decisiva de sua balança comercial. Os investimentos programados (US$ 5,75 bilhões entre 2022 e 2026 em mineração de fósforo e potássio) são insuficientes para a escala do desafio, e seu virtual abandono, sem qualquer proposta alternativa, nos últimos três anos, só agrava o problema.
Governo não tem projeto estratégico
O diagnóstico, contudo, vai além da implementação. A esquerda brasileira, que governa o país, não dispõe de um projeto estratégico para o agronegócio porque não dispõe, a rigor, de um projeto estratégico para o Brasil. Sua política externa se esgota em gesticulação multilateral no âmbito do “Sul Global”, confundindo presença em fóruns com capacidade de influência. Ao privilegiar fóruns multilaterais inoperantes em detrimento de instrumentos concretos de poder econômico e produtivo, incorre no que a literatura denomina diplomacia de baixa materialidade: presença retórica sem lastro estrutural.
Sua política econômica oscila entre distributivismo de curto prazo e captura do Estado por interesses setoriais desconectados de qualquer visão de desenvolvimento. O agronegócio, que responde por quase 25% do PIB (2025) e pela maior parcela do superávit comercial, é tratado como adversário ideológico, não como ativo estratégico.
O caso dos fertilizantes nitrogenados é exemplar. A Petrobras desativou as Fábricas de Fertilizantes Nitrogenados (FAFENS), que produziam ureia e amônia a partir de gás natural, alegando ineficiência financeira. A Araucária Nitrogenados, subsidiária retomada em 2024, opera abaixo de sua capacidade. Enquanto isso, o Marrocos expande sua capacidade produtiva por meio da OCP (que já fornece 20% das importações indianas de rocha fosfática e domina o mercado de DAP daquele país), e a Arábia Saudita investe em novas plantas de ureia. A dependência brasileira de fertilizantes nitrogenados, que era de 75% em 2015, quando as FAFENS operavam, subiu para cerca de 95% em 2025. Não se corrigiu a ineficiência; eliminou-se a capacidade.
A resposta exige duas frentes simultâneas, sem a ilusão de que qualquer delas produza resultados no curto prazo. Na frente da diversificação de importações, o objetivo é reduzir a concentração em fornecedores expostos a riscos geopolíticos elevados. Isso implica ampliar compras de potássio canadense (que já responde por 38% e poderia absorver parte da fatia russa), aprofundar a parceria com Marrocos para fosfatados (cujas exportações ao Brasil cresceram 30% em 2025), expandir aquisições de ureia nigeriana (23% do fornecimento) e argelina (9%), e negociar contratos de longo prazo com Trinidad e Tobago e Malásia para amônia e ureia. Diversificação geográfica não elimina vulnerabilidades, mas distribui riscos. Um portfólio de fornecedores distribuído por quatro continentes é estruturalmente mais resiliente do que a concentração vigente no eixo Rússia-Golfo Pérsico.
Na frente doméstica, o Brasil dispõe de recursos minerais significativos, porém subexplorados. A oitava maior reserva de potássio do mundo está na Amazônia, onde o projeto da empresa Brazil Potash enfrenta décadas de resistência ambiental e burocrática. Fósforo existe em Minas Gerais, Goiás e Tocantins, com capacidade produtiva que pode ser ampliada. Nitrogênio é o caso mais difícil: sua produção depende de gás natural, e o Brasil, embora disponha de reservas no pré-sal, não construiu a infraestrutura necessária para converter gás em fertilizante em escala competitiva. A cooperação com a Bolívia, que dispõe de gás e de reservas minerais, é alternativa lógica que a Embrapa já explora, mas em ritmo incompatível com a urgência do problema.
O desenvolvimento das reservas amazônicas de potássio será, provavelmente, uma das decisões mais importantes e politicamente custosas desta década. A exploração mineral na Amazônia enfrenta resistência legítima, mas enfrenta também a instrumentalização do debate ambiental por atores que, deliberadamente ou não, contribuem para perpetuar a dependência externa. O Canadá extrai potássio em escala industrial em Saskatchewan com impacto ambiental controlado. A alternativa real à exploração responsável não é a preservação intocada, mas a manutenção de uma dependência que transfere a fornecedores estrangeiros o poder de condicionar a capacidade produtiva da agricultura brasileira.
A guerra de 2026 no Oriente Médio representa, para o agronegócio brasileiro, o equivalente funcional da crise do petróleo de 1973 para a política energética dos países industrializados: um choque que expõe uma vulnerabilidade estrutural pré-existente, obscurecida pela rotina da abundância.
Diferentemente daquele episódio, porém, o choque atual incide sobre um insumo intermediário invisível ao público, o que reduz a percepção de urgência política e amplia o risco de inação. Em economias complexas, segurança alimentar não é uma variável agrícola, mas um componente central da segurança nacional, com implicações diretas sobre inflação, estabilidade política e coesão social.
Em 1973, os países afetados reagiram com investimentos de longo prazo: os Estados Unidos criaram a Reserva Estratégica de Petróleo; a França acelerou seu programa nuclear; o Japão diversificou fontes de energia com disciplina metódica. O Brasil de 2026 não dispõe de reserva estratégica de fertilizantes, não possui plano crível de substituição de importações desses insumos e não demonstra, no nível decisório, consciência proporcional à gravidade do problema.
O Brasil não está fora dessa guerra, mas exposto a ela sem sequer reconhecê-la. Enquanto o mundo reorganiza cadeias produtivas sob a lógica da segurança e do poder, seguimos tratando fertilizantes como uma questão comercial, e não estratégica. Se as disrupções no fornecimento de fertilizantes persistirem até setembro, quando se inicia o plantio da safra 2026/27, as consequências excederão as margens dos produtores e alcançarão a inflação de alimentos de toda a economia. A conta dessa miopia não virá em relatórios técnicos, mas no preço dos alimentos, na renda do produtor e na estabilidade do país.
Não existe reserva estratégica de ureia e não existe protocolo que substitua nitrogênio no solo fora da janela de plantio. O relógio dos mercados de energia e o relógio da agricultura operam em velocidades distintas, e o segundo não se subordina a acordos de cessar-fogo. O Brasil dispõe de terra, água, insolação e minerais. O que lhe falta é a decisão política de converter recursos em soberania, que não é um conceito abstrato, mas a capacidade de garantir o essencial quando o sistema falha. Sem ela, permaneceremos o que somos: um país que exporta commodities e importa vulnerabilidades.
Marcos Degaut, ex-secretário especial adjunto de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, ex-secretário de Produtos de Defesa do Ministério da Defesa e ex-secretário-executivo da Câmara de Comércio Exterior do Brasil (CAMEX), é doutor em Segurança Internacional.
Lindolpho Cademartori é diplomata de carreira desde 2006 e Mestre em Diplomacia pelo Instituto Rio Branco, do Ministério das Relações Exteriores. Suas opiniões são estritamente pessoais e não necessariamente refletem as do MRE.
