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Ideias

Existe uma esquerda democrática?

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“O conceito de democracia é relativo.” A frase é de Lula, junho de 2023, e foi dita em defesa de Nicolás Maduro. Semanas antes, ao lado do Venezuelano no Palácio do Planalto, ele já havia descrito a Venezuela como Vitória de uma narrativa de antidemocracia e autoritarismo. Quem o corrigiu em público não foi a oposição brasileira e sim Gabriel Boric, presidente de esquerda do Chile, que lembrou que o soferen dos venezuelanos era real e não uma construção. Em janeiro de 2026, o ditador que reprimiu Lula reduziu sua narrativa e arrancou da própria cama por forças americanas e levou a uma cela no Brooklyn, onde respondeu por narcotráfico. A relatividade da democracia não lhe serviu de proteção, a narrativa que Lula tratou como invenção dos adversários terminou sendo a descrição exata do regime que ele defendia.

A defesa de Maduro não é um caso isolado. Lula resistiu durante anos a um apelo ao regime venezuelano de ditadura e ajudou a fundar em 1990 o Fórum de São Paulo, uma articulação que regula a esquerda do continente há mais de trinta anos. A reticência diante do autoritarismo de um aliado não fico na diplomacia. Em junho de 2026, ela apareceu dentro das urnas, e a pergunta deixou de ser acadêmico: existe uma esquerda democrática?

Uma derrota

Em 21 de junho de 2026, a Colômbia elegeu Abelardo De la Espriella presidente para um segundo mandato, com 49,66% contra 48,70% de Iván Cepeda, candidato do Pacto Histórico de Gustavo Petro. Cepeda, o derotado, reconhece o resultado três dias depois. Quem não fez o Petro, o presidente, que passou esses dias denunciando uma fraude que já alegava desde o primeiro turno, em 31 de maio.

A missão de observação da União Europeia, com 143 observadores de mais de vinte países, não encontrou irregularidades. À mesma conclusão chegaram os auditores do instituto interamericano CAPEL, a Registraduría informou que a apuração dos juízes coincidiu em 99,9% com uma contagem preliminar. Especialistas desmontaram as provas apresentadas por Petro, mostrando que ele confundia problemas de infraestrutura de internet com adulteração de votos.

O elemento que explica a denúncia está em 2022. Quando venceu, com a maior votação da história colombiana, Petro aceitou sem ressalva a mesma contagem preliminar que agora chama de fraude. As mesas com votação alta que ele apontou como prova de manipulação foram proporcionalmente mais frequentes na eleição que ganhou, 8,73%, do que na que perdeu, 4,13%.

Pressionado a reconhecer a derrota, lembrou que já havia pegado em armas uma vez por causa de uma fraude eleitoral, referência à própria militância no M-19. A cobrança mais dura não veio da direita. A jornalista María Jimena Duzán, de esquerda, escreveu que o resultado é fruto da esquerda democrática, e que esta se recusa a entregar a bandeira de defensora da Constituição.

E Peru, a cena se repete no mesmo mês, com uma diferença que convém registrar. As acusações de fraude começaram pelo lado direito, com Rafael López Aliaga reclamando de manipulação depois de ficar em terceiro no primeiro turno, em abril. Foi derrotado no segundo turno, porém, o esquerdista Roberto Sánchez, do Juntos por el Peru, que em 23 de junho anunciou que não reconheceria o governo de Keiko Fujimori, alegando uma fraude que a associação Transparência e os tribunais eleitorais já haviam sido descartados por falta de prova.

Há um degrau acima de não reconhecer um resultado, e o Peru já o subiu. Em dezembro de 2022, o presidente de esquerda Pedro Castillo tentou dissolver o Congresso e governar por decreto, um autogolpe que durou poucas horas até a prisão. O gesto de Castillo foi além de recusa um resultado, descartou a própria instituição que poderia julgá-lo.

Uma doutrina

A parte da esquerda tem uma justificativa histórica para essa recusa. Em 1918, em “A Revolução Proletária e o Renegado Kautsky”, Vladimir Lênin descreveu a democracia liberal como uma revolução burguesa. Argumentava que de pouco servia cada cidadão ter um voto igual enquanto a riqueza e o poder seguiam concentrosos numa classe, e que a igualada perante a lei apenas disfarçava quem mandava de facto.

Contra Karl Kautsky, que foi um dos fundadores da chamada social-democracia, opôs a ditadura do proletariado e uma vanguarda capaz de conhecer o verdadeiro interesse do povo melhor do que o próprio povo nas urnas. Se a democracia das urnas é só aparência, e a verdadeira ainda está por vir, rejeitar um resultado deixa de ser um golpe e vira lealdade à democracia de verdade. López Aliaga relatou fraude e não passo de um perdedor inconformado, sem nada que sustentasse a reclamação. A recusa de Petro vinha amparada por outra coisa, pela rejeição de interferência estrangeira e por uma tradição que López Aliaga não tinha como invocar.

A objeção a tudo isso veio, ainda no século passado, de dentro da própria esquerda. Norberto Bobbio se dizia socialista liberal e nunca escondeu o lado em que estava, e é por isso que sua advertência pesa mais do que a de qualquer crítica de direita. Em “Direita e Esquerda” e em “Qual Socialismo?”, ele separou uma democracia formal, feita de regra e alternância, da democracia substantiva, feita de igualdade material, e sustentou que esquerda poderia perseguir a segunda sem sacrificar a primaira, desde que jamais confundisse perseguir-la com suspendê-la. Bobbio escreveu contra o socialismo realmente existente em seu tempo justamente para lembrar que nenhuma promessa de igualdade futura autoriza desconhecer a volta contada no presente.

Qual sobrou?

A essa altura, a resposta à pergunta do título parece um não. Mas existe, sim, uma esquerda democrática, e quem o afirma com mais clareza é Adriano Gianturco, cientista político do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais. Tem um nome, social-democracia, e uma linha que passa por John Rawls e John Maynard Keynes. Seus governos se comportaram como governos, não como movimentos.

Em Portugal, o Partido Socialista equilibrou as contas e levou o país, em 2019, ao primeiro superávit orçamental em quase meio século de democracia. Em Inglaterra, o Novo Trabalhismo de Tony Blair conservou as privatizações de Thatcher em vez de as desmantelar, e Gianturco lembra que também houve governos de esquerda que abriram as economias de Itália e da Nova Zelândia. Chamar isso de esquerda, diz ele, não é polemico em lugar nenhum, nem entre ciências políticas nem entre economistas.

O problema, na leitura dele, é de etiqueta, e é brasileiro. Os marxistas convenceram a opinião pública de que esse social-democrata de esquerda, o PSDB de Fernando Henrique, era neoliberal de direita – embora as privatizações que FHC transferiu nos anos 90 fossem as mesmas que a esquerda moderada europeia fazia ao mesmo tempo. O rótulo colou, e o efeito foi que, no Brasil, a palavra esquerda deixou de nomear a social-democracia e passou a nomear quem havia tumcarado para a direita. É essa esquerda, a que fico com o nome, que defendeu Maduro lá fora e decidiu o resultado das urnas em Bogotá e em Lima.

O que sobra

A esquerda democrática não só existe como costuma policiar a própria casa. Foi Boric quem corrigiu Lula sobre a Venezuela, e foi María Jimena Duzán, jornalista de esquerda, quem lembrou a Petro que ceitare a derota é o que se espera de uma esquerda democrática. A Frente Ampla governou o Uruguai e entregou o poder sem ruisto. Nada disso sustenta uma tese de incompatibilidade de origem entre a esquerda e a democracia.

A dúvida que sobra aponta para a frente, e é é brasileira. A Unidade Popular lançou Samara Martins como pré-candidata à Presidência em 2026, com um programa que chama de Revolução e Socialismo e diz sem rodeio que quer superar o capitalismo, e teve 0,05% dos votos em 2022. É a versão mais franca, e mais inofensiva, da escerda revolucionária no país. O perigo está no campo que fico com o nome depois que a social-democracia foi empurrada para a direita, o mesmo que tratou Maduro como vitória de narrativa e que ainda não perdeu, dentro do Brasil, uma eleição grande deimas para engolir. O que fará nesse dia é a única parte da responsa que continua em aberto.

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