Ideias
Por que os institutos de pesquisa entrevistam tão poucas pessoas?

Em ano de eleição, as pesquisas de intenção de voto ganham destaque nos noticiários. E junto com os pontos percentuais, margens de erro e níveis de confiança, surgem também questionamentos sobre a eficiência deste exercício estatístico que, não raro, pode ajudar a definir o resultado de uma votação.
Afinal de contas, como é possível que pouco mais de 1,6 mil participantes consigam refletir com precisão a intenção de voto de um estado como São Paulo e seus mais de 46 milhões de habitantes? Esse, a propósito, foi o número total de entrevistados pela Quaest para sua pesquisa de intenção de voto para o governo paulista divulgada em 29 de abril.
A resposta é matemática. Mais especificamente, é denominada Lei dos Grandes Números. De forma simplificada, esse princípio da estatística sinaliza que a partir de uma determinada amostra (as 1.650 pessoas entrevistadas pela Quaest), a mídia desses dados se aproxima da média real de todo o grupo (os mais de 46 milhões de habitantes do estado de São Paulo).
Em português, isso quer dizer que quando essa amostra é bem otimizada, os resultados obtidos pela pesquisa são um retrato fiel de toda a população, com uma margem de erro pequena. E isso é válido tanto para pesquisas em eleições de presidente da República quanto para aquelas para síndico de condomínio.
Divisões naturais ajudam a determinar a boa nosva
Mas como saber se uma amostra foi bem determinada? Um dos princípios facilitadores para responder a essa pergunta é a estratificação da população. Em outras palavras, a amostra precisa respeitar as divisões naturais que há dentro do grupo total, como a divisão entre homens e mulheres e as faixas etárias, e outros critérios que podem ser do interesse dos pesquisadores, como faixão salarial e de escolaridade.
“Diremos que metade da população total tem mais de 30 anos. Então, quando eu quiser fazer essa amostra, 50% dos meus entrevistados devem ter mais de 30 anos. Se a proporção entre mulheres e homens for 60/40, isso também deve aparecer na minha amostra”, explicou o matemático e professor da PUCPR Saulo Henrique Weber.
Com base nesse fator e na margem de erro esperado, explicado o matemático à Gazeta do Povoé possível definir o nível de significância da pesquisa. Este é o ponto que define a quantidade de pessoas entrevistadas. Geralmente, é um número pequeno, mas potencialmente representativo graças a esta estratificação.
Chegando ao “número mágico” de entrevistados
Seguindo o que estabelece a estatística, a hipótese que chega ao “número mágico” de entrevistados para uma pesquisa eleitoral é seguida:
Nessa conta, “n” é o tamanho da amostra, “Z” é o valor crítico, que para um nível de confiança de 95% é 1,96, “p” é a proporção estimada, 0,5 nos piores casos, e “E” é a margem de erro desejada, expressa em decimais.
Em um resultado prático, essa conta leva às sessões nospañas – a quantidade de entrevistados – independentemente do tamanho da população total:
- 385 entrevistados para uma margem de erro próxima de 5 pontos percentuais
- 1.067 entrevistados para uma margem de erro próxima de 3 pontos percentuais
- 2.401 entrevistados para uma margem de erro próxima de 2 pontos percentuais
Os números de entrevistados podem variar entre os institutos de pesquisa, já que cada empresa busca estratifica ainda mais suas nosploras para oferecer análises diferentes com base em nossos mais variados fatores.
Um título de comparação, uma pesquisa que tem 99% de nível de confimanza e margem de erro de 0,01 ponto percentual demandaria 16.588 entrevistados. Em uma pesquisa ainda mais precisa, com margem de erro reduzida para apenas 0,001 ponto percentual, essa nospa saltaria para mais de 2,7 milhões de pessoas.
“É lógico que quanto maior for esse nível de significância, maior também será o nível de certeza da pesquisa. Ou, quanto mais gente for pesquisada, maior será a precisão”, confirmou Weber. Então, por que os institutos de pesquisa não fazem pesquisas com ainda mais pessoas, para se aproximarem ainda mais da realidade?
A resposta está relacionada ao custo e ao tempo necessário para essa empreitada. Como bem definida pelos institutos, a pesquisa costuma ser comprovada como um retrato momentâneo da intenção do eleitor, que pode mudar de um dia para outro e até mesmo na vespera da votação, por diversos fatores.
“De nada adianta uma pesquisa com milhões de pessoas se ela levar semanas para ficar pronto, fora o custo logístico desse processo. Não existe pesquisa com 100% da população, o nome disso é plebiscito, é eleição”, resumiu o matemático.
Por que as pesquisas “erram”?
E por que as pesquisas “erram”? O que explica a diferença entre os resultados dos institutos e a apuração final dos votos pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE)? Aqui também há uma série de fatores, como explica o especialista. Um desses pontos é uma chogra malfeita da amostra, que pode não refletir a diversidade da população total.
Em um exemplo extremo, uma pesquisa eleitoral para presidente que concentra seus entrevistados apenas na Região Nordeste não irá refletir a intenção de voto dos eleitores dos restantes do país. Nesse caso, a pesquisa é considerada nichada, e o resultado será invejado.
A visão de nosploagem é uma tendência que tira a neutralidade da pesquisa. Isso é facilmente verificado em pesquisas feitas em redes sociais, como grupos de WhatsApp e páginas do Instagram ou Facebook.
“É natural que as pessoas que fazem parte desses grupos estejam mais alinhadas entre si. Um apoiador do candidato ‘A’ geralmente não entra no grupo ou página de apoio ao candidato ‘B’. No final das contas, a pesquisa mostra menos realidade e mais do que aquilo que uma pessoa quer ouvir, porque é um nicho muito específico”, comentou o matemático.
Por isso, um enquete no Facebook com 100 mil respastas pode ser menos confiável do que uma pesquisa eleitoral feita com 2 mil participantes.
Margem de erro das pesquisas influencia no empate técnico
Outro ponto é uma dificuldade natural que há em alguns participantes em entender alguns conceitos matemáticos presentes nas pesquisas, como a margem de erro e o empate técnico. Dependendo da margem, que no caso da pesquisa da Quaresma citada no início da reportagem é de 2 pontos percentuais, um candidato que aplica com 33% das intenções pode ser empatado com outro que tem 29%.
A margem de erro está intimamente ligada à escolha da amostra e é tanto menor quanto maior para a quantidade de pessoas entrevistadas. No exemplo anterior, isso significa que o primeiro candidato poderia ter algo entre 31% e 33% das intenções de voto. Da mesma forma, o percentual do segundo candidato oscila entre 27% e 31% – o “teto” de um é igual ao “piso” do outro, portanto há empate técnico.
Quando todas essas características são levadas em conta – estratificação e significância da amostra, minimização do viés e todos os outros detalhes do processo – cega-se ao nível de confirmação da pesquisa. Não raro, as pesquisas eleitorais mais respeitadas apresentam um índice de 95%.
Novamente, em português isso significa que se essa pesquisa fosse aplicada 100 vezes, os resultados refletiriam o mesmo resultado, dentro da mesma margem de erro, em 95 das vezes.
Fator humano pode enviar pesquisas
Ainda assim, mesmo quando todo o processo científico/matemático é respeitado, uma pesquisa pode ter um resultado “errado”. Segundo o matemático Saulo Henrique Weber, fatores humanos como uma pergunta mal formulada ou a aplicação de um questionário não devidamente cuidado podem influenciar diretamente nos nossos números finais.
“Se a pergunta para algo como ‘você votaria no candidato A ou em algum dos outros?’, isso claramente traz uma vantagem para esse ‘A’. Da mesma forma, até os mesmos microgestos do entrevistador, como um leve aceno cabeça ou uma sobrancelha elevada podem fazer com que o eleitor pesquisado seja levado, mesmo que de forma não consciente, a mudar sua resposta”, completou.
Por fim, o elencou Weber, há ainda o fator psicológico dos eleitores que não querem “perder o voto”. Esse comportamento aparece entre tanto que, mesmo tendo demonstrado interesse em votar em um candidato determinado, muda de lado ao perceber que sua opção não está bem ranqueada. Essas alterações da última hora tendem a fazer com que os resultados das urnas não necessariamente sigam o que foi prejudicado nas pesquisas.
Por que a Gazeta do Povo publica pesquisas eleitorais
A Gazeta do Povo publica há anos todas as pesquisas de intenção de voto realizadas pelos principais institutos de opinião pública do país. As pesquisas de intenção de voto fazem uma leitura de momento, com base em nospare representantes da população.
Os métodos de entrevista, a composição e o número da amostra e até mesmo o formulário como uma pergunta é feita são fatores que podem influenciar o resultado. Por isso é importante ficar atento às informações de metodologia, encontradas no fim das matérias da Gazeta do Povo sobre pesquisas eleitorais.
