Música
Sarah Roston fala à Rolling Stone Brasil sobre álbum de estreia, edital do PROAC, influências e futuro

Com 12 anos de carreira, Sarah Roston já tinha feito de tudo — menos aquilo que realmente queria. Compôs para Xênia França, IZA e Léo Santana; assinou trilhas para Netflix e Prime Video; foi vocalista em orquestras e blocos. Mas um álbum próprio, uma obra inteiramente dela, ainda não tinha chegado. Até agora.
Sensível ao Toque (2026) saiu em abril, fechando um terceiro ato, e, com ele, veio a transformação que Sarah esperava havia mais de uma década. Em apenas dois meses, o disco já somou 100 mil plays. Não é um número que impressiona por ser gigante, e sim por ser honesto: gente ouvindo, descobrindo, compartilhando. É vida.
“É lindo lançar porque, assim, o processo de compor e produzir tem sua magia — principalmente quando a gente mete muito a mão. Mas o processo de entregar a carta, de se entregar para o mundo, é tão diferente… é um olhar, de sentir a música viva de outro jeito”, conta ela nos estúdios da Rolling Stone Brasil.

“Estou super feliz porque, querendo ou não, estou trabalhando com o autoral com mais intensidade a partir desse álbum. E a gente já está com 100 mil plays no total. Estou super feliz com esses dois meses. Está sendo incrível para mim, assim, chegar a mais público e conectar de outras maneiras”. Sarah não apenas lançou um disco, lançou-se a si mesma. E, para quem passou 12 anos invisível como autora, isso é tudo.
O timing não é acaso. 2026 tem sido um ano fértil para mulheres na música brasileira, a internet pede ousadia e Sarah enxergou isso e reconheceu seu lugar nesse mosaico.
“Quando você observa, a maioria dos artistas atuais que eu admiro é uma galera que tem coragem de propor o que está querendo ouvir também, sabe? Tipo: não é só o que está querendo cantar, mas é o que ouve”. E o que Sarah ouve é música brasileira em diálogo com afrobeat, R&B e ritmos do mundo. Vivacidade. Corpo. Verdade.
“Eu acho que a música brasileira é a melhor do mundo. Claro, tem muitas coisas incríveis que eu admiro, mas o Brasil… é um povo para quem o brincar é natural. Quando eu digo brincar, é isso: os antigos falavam muito em brincar Carnaval, brincar as coisas. É o jeito como a cultura, os ritmos, as cenas nascem, né?”
O álbum se divide em três atos porque Sarah quis narrar uma jornada — e isso pediu tempo. Ela morou em oito cidades do Brasil, e essas passagens atravessaram a escrita.
“Tem um pouco de tudo. Morei em oito cidades no Brasil. Então, a musicalidade que eu vivi, que foi me atravessando, é muito brasileira nesse sentido. Tem desde um sertanejo psicodélico, que vira uma parada meio Frank Ocean no final. Tem afrobeat, tem bachata, reggaeton, grooves brasileiros”.
Cada ato é uma curva da mesma história: da mulher que quer se sentir uma “grande gostosa”, passa por relacionamentos quase e chega à maturidade de escolher amar de verdade. O primeiro ato captura o tesão e a experimentação. “Abstinência de Baile” encerra com a percepção de que ela vivia um relacionamento que já nem existia mais. O segundo ato traz a mulher amadurecida: enquadra caras, zoa, mas também se permite vulnerável — com força. “Pinóquio”, com Amabbi, brinca com os “vacilões”. O terceiro ato é quando ela se abre de novo para o amor — e “Pé na Beira” é o passo de quem mergulha fundo, mas agora com calma.
A importância do edital
Mas nada disso seria possível sem PROAC 24/2024. O Programa de Ação Cultural é um edital do governo estadual de São Paulo que financia projetos culturais por meio de patrocínio. O mecanismo é simples, mas significativo: o artista escreve um projeto com os detalhes do que quer criar, submete para análise e, se aprovado, recebe recursos para realizar exatamente aquilo que foi proposto. Para a cena musical independente, é um respiro, viabiliza produções que normalmente dependeriam de investimento próprio ou parcerias comerciais.
Sarah escreveu o projeto sozinha e resumiu o sentimento: “É o patrocínio dos sonhos. Porque, basicamente, o que você escreveu — o que você propôs — é o que você tem que entregar”. O resultado saiu enquanto ela estava na rua, pegando um Uber para um ensaio de musical. A mensagem apareceu na tela: “Parabéns, proponente. Você foi contemplado”. Sarah ajoelhou e começou a chorar. “Foi uma realização. Até hoje eu sou muito grata; é uma emoção sem fim. Eu chorei naquele dia como uma criança”.
A estrutura do PROAC permitiu o que Sarah sempre quis: uma banda de verdade. Mais de 60 profissionais envolvidos, entre estúdio, músicos, produção, quatro videoclipes e dois curtas-metragens. E central para toda essa realização estava seu irmão, Saulo Roston — produtor, compositor e músico que ganhou um reality show de música aos 15 anos e acumula mais de uma década de experiência na indústria.
“A gente tem uma conexão. Às vezes, as pessoas acham que a gente é até gêmeo, pela forma como a gente compõe junto. Ele é um gênio, assim, de pensar sonoridade”. Saulo escreveu algumas faixas, orquestrou a sonoridade geral, mas deixou Sarah com as rédeas. “Ele vai parindo uma parte da gente como artista também. Então foi decisivo e, também, um lugar crucial”.
Foi a primeira vez que os dois fizeram um álbum para si, e não para filmes ou trilhas. Para Sarah, trabalhar com alguém que a conhece tão profundamente foi essencial: poder dizer “pô, velho, tá viajando nisso” ou ouvir “não, isso aqui você tem que arriscar” sem medos.
“Sensível ao Toque” e futuro
Sensível ao Toque é um álbum de 10 faixas que atravessa afrobeat, R&B, sertanejo psicodélico, bachata, reggaeton e grooves brasileiros — cada um servindo a um momento da narrativa. “Ficando com Tesão” abre com coragem. “Abstinência de Baile“, “Pinóquio” (com Amabbi), “Flor que Tu Fuma” e “Se Eu Falasse Que Te Amo?” marcam os pontos de virada. O terceiro ato traz “Pé na Beira“, “Suquinho da Garota” (com videoclipe mostrando um casal de idosos dançando e se namorando) e “Iluminar“, que fecha com a certeza de quem amou de verdade e agora caminha com o sol no peito. A sonoridade é íntima mas robusta, dialogando com texturas de R&B e timbres de trompete e teclado que conversam com a pesquisa de Sarah sobre brasilidades diaspóricas.
O futuro já está em movimento. Sarah está em um projeto da Copa do Mundo homenageando lendas do futebol — Marta, Zagalo — e tem uma faixa com Nina do Porto, a parceira que ela admira. “Vocês vão ter que me engolir mesmo. Vocês vão ter que aceitar que a gente vai ter que falar de futebol ou trazer a nossa trajetória, né?”. Remixes de Sensível ao Toque estão vindo, e parcerias com grandes artistas já estão fechadas, nomes que ela admira, que a admiram.
A internet pediu ousadia, e Sarah Roston entregou uma. Agora é questão de tempo até que todos reconheçam que ela sempre esteve ali.
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