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Música

O que seria do Coachella sem as garotas do pop?

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No meio de sua apresentação no Coachella, Slayyyter soltou um rugido gutural durante “YES GODDD“, e o som reverberou pela multidão de milhares de pessoas que se reuniram para vê-la. O mesmo aconteceu com alguns suspiros de espanto quando uma tomada de drone revelou o quão longe da tenda Mojave se estendia a multidão de corpos balançando a cabeça. Slayyyter não tinha um horário nobre nem um orçamento extenso para uma produção extravagante. Ela subiu ao palco sob o calor escaldante às 15h, com uma roupa que ela mesma fez. Isso não importava para ela nem para ninguém ali. Ela entregou um dos shows mais marcantes de todo o primeiro fim de semana, juntando-se à lista de artistas femininas que dominaram as conversas sobre o festival deste ano.
Do outro lado do espectro pop, bem longe dos gritos do metal e da energia elétrica de “CRANK”, brilharam as luzes do sonho hollywoodiano de Sabrina Carpenter. O show da estrela pop como atração principal foi a concretização de um sonho de dois anos atrás. No Coachella de 2024, ela prometeu que, na próxima vez que viesse ao deserto, ocuparia a posição mais cobiçada do line-up. Carpenter recheou a apresentação deste ano com referências a filmes, de Dirty Dancing e Cabaret a Psicose e The Rocky Horror Picture Show. Podemos chamar de Sabrinawood: alguns dizem que é o lugar onde seus sonhos se tornam realidade — o que é especialmente verdadeiro para os fãs de pop que amam espetáculo tanto quanto as mulheres no line-up deste ano.
FKA Twigs nunca foi conhecida por se conter no palco, mas o que o Coachella testemunhou na última noite do primeiro fim de semana foi revelador. Durante “Cellophane“, a emoção que transbordou dela enquanto ela engasgava com as palavras em meio às lágrimas criou um momento tão impactante quanto a entrada de um grupo de dançarinos de salão no palco. Foi o ápice da performance. Até mesmo as trocas de figurino de Twigs foram tão rápidas e perfeitas que quase passaram despercebidas. Esse nível de presença de palco é frequentemente esperado de mulheres no pop. Mas assistindo a todas as outras mulheres que fizeram apresentações incríveis no Coachella este ano, até agora, nunca há a sensação de que elas se sintam pressionadas pela obrigação de atender a essas expectativas. Elas sobem ao palco e, naquele momento, fica imediatamente claro para todos que assistem que elas pertencem àquele lugar.

Historicamente, os maiores momentos do Coachella giraram em torno de mulheres que definem, revolucionam e dominam o pop. Foi o caso de Beyoncé, que imortalizou sua apresentação de 2018 como a primeira mulher negra a ser atração principal do Coachella no documentário da Netflix, Homecoming. (Essa apresentação também popularizou a junção do nome de uma artista com o nome do festival, à la Beychella.) O mesmo aconteceu com o Blackpink, que se tornou o primeiro grupo feminino de K-pop a se apresentar no Coachella, em 2019, e o primeiro grupo de K-pop, no geral, a ser atração principal, em 2023. Katseye citou ambas como grandes influências para sua primeira apresentação no festival.

Este ano, o manto histórico foi passado para Karol G, a primeira latina a ser atração principal do Coachella. A estrela pop colombiana fez a maior apresentação de sua carreira, carregando o peso da história sobre seus ombros. Ela narrou a introdução do show em espanhol e projetou traduções em inglês nos telões, criando o clima com a história de uma jovem que encontra sua voz ao escapar das barreiras que a cercavam. “Não fazemos isso porque queremos excluir todo mundo. Fazemos isso porque queremos que todos se sintam acolhidos em nossa cultura, em nossa música”, disse ela mais tarde no show. “Quero que todos se orgulhem de suas origens. Por favor, não tenham medo, orgulhem-se. Ergam suas bandeiras.”

BINI seguiu o exemplo, tornando-se o primeiro grupo filipino a se apresentar no festival. O grupo de oito mulheres apresentou o P-pop ao público do deserto, com uma performance que misturava filipino, tagalo e inglês. Esses momentos históricos costumam ser muito aguardados, o que, inadvertidamente, evidencia o quão atrasado o festival estava em determinado momento e, em certa medida, continua estando. Este ano marcou a 25ª edição do Coachella desde sua criação, em 1999. Antes de 2017, quando Lady Gaga foi a atração principal, nenhuma mulher havia sido a atração principal em uma década, desde que Björk se tornou a primeira, em 2007.

O timing é um fator frequentemente subestimado quando se considera o que torna um line-up do Coachella excelente. Veja, por exemplo, a apresentação de Justin Bieber como headliner deste ano. As críticas à sua performance se concentraram principalmente na sua setlist repleta do álbum Swag e no design de palco minimalista, que incluía basicamente o laptop que ele usava para navegar no YouTube (uma referência ao início de sua carreira). Mas ninguém que o acompanha de verdade nos últimos anos esperava algo diferente. A última vez que Bieber teria se apresentado naquele palco com coreografias elaboradas e a setlist abrangendo toda a sua carreira, como as pessoas pareciam esperar este ano, teria sido em 2017, após o lançamento de Purpose e durante o auge de “Despacito“. O mundo pop se move rapidamente. Nem sempre é fácil acompanhar, embora se espere implacavelmente que as mulheres o façam sem falhas.

Em 2022, quando Kanye West desistiu de participar do festival, a decisão mais lógica teria sido colocar Doja Cat como atração principal. Ela estava escalada logo abaixo dele, no mesmo palco, e já tinha praticamente planejado uma apresentação à altura do protagonismo. Os organizadores do festival acabaram recrutando Swedish House Mafia e The Weeknd para substituir West, mas reservaram Doja para ser a atração principal em 2024. Sua ascensão ao topo da programação marcou um feito inédito para as mulheres no rap. Foi apropriado para Scarlet, o álbum que ela lançou como sucessor de Planet Her — um dos álbuns mais marcantes de 2021, que consolidou sua chegada como estrela no cenário pop — e que compôs a maior parte do repertório. Mas era difícil ignorar a sensação de que, de alguma forma, o show não captou a essência do momento.

Carpenter também usou seu show como um momento crucial entre eras de álbuns. Desde que estreou “Espresso” no festival em 2024, ela completou duas etapas de uma turnê em arenas para promover o álbum homônimo, Short n’ Sweet. Coachella, então, foi uma oportunidade para mudar de rumo. Mais da metade do seu repertório veio de seu álbum mais recente, Man’s Best Friend, lançado no ano passado. O restante foi uma mistura de seus lançamentos anteriores, mas apenas aqueles que fizeram uma transição perfeita entre o passado e o presente, como “Sugar Talking” emendando com “Don’t Smile“. O Coachella se tornou um lugar onde artistas condensam anos de sucessos em shows de pouco menos de duas horas, quando muito. Mas é fácil ficar preso ao passado dessa forma. Com tantos olhos assistindo, por que não fazer um show que mostre por que eles deveriam segui-la rumo ao futuro?
Uma das razões pelas quais as mulheres dominaram as conversas sobre o Coachella este ano é que são elas que definem o momento atual. Poucas pessoas no pop estão tão antenadas quanto PinkPantheress. Seu álbum de remixes Fancy Some More? expandiu sua mixtape Fancy That com colaborações de Kaytranada, Ravyn Lenae, Jade e outras. O destaque fica por conta da parceria entre PinkPantheress e Zara Larsson em “Stateside“, atualmente em nono lugar na Hot 100, faixa que abriu seu show no sábado à noite. A apresentação de quase uma hora, a mais elaborada e com a maior produção da carreira de PinkPantheress, contou com participações de Thundercat, Tyriq Withers, The Dare e muitos outros.
Larsson se apresentou no Texas durante o primeiro fim de semana do festival, mas é possível que o segundo fim de semana tenha mais sorte. Se os organizadores realmente querem que o Coachella seja um sucesso no ano que vem, eles precisam garantir que “Midnight Sun” tenha seu momento no deserto. Ter uma estética concisa e definida — como os looks praianos e com strass que Larsson adotou, ou os visuais xadrez e ultra-britânicos que PinkPantheress construiu em torno dos álbuns Fancy — cria uma expectativa inegável não só em relação às músicas que estarão no repertório, mas também à aparência do próprio palco. Essa tem sido uma das principais maneiras pelas quais as mulheres no pop se destacaram nos anos 2020. Sua influência era evidente até mesmo nas roupas que o público usava.

Desde que retornou após um hiato de dois anos devido à pandemia, o Coachella apenas arranhou a superfície quando se trata de agendar shows da nova geração do pop — embora a presença de Addison Rae na programação deste ano mostre que os organizadores podem estar apostando cada vez mais cedo. Dua Lipa e Olivia Rodrigo fizeram participações especiais em shows de outros artistas no festival, mas nunca se apresentaram em palcos próprios. (Aliás, Rihanna também não, mas isso é assunto para outra conversa.) Já se passaram quase dez anos desde a última apresentação de SZA no Coachella, quando ela foi a atração principal, logo abaixo de The Weeknd.
Nas semanas que antecederam o festival deste ano, circularam rumores não confirmados especulando que os organizadores a estariam mantendo sob contrato para substituir Bieber, caso ele decidisse cancelar sua participação. “Kkkk quem inventou isso?”, escreveu SZA em um comentário no Instagram no início desta semana. “Já vi isso quatro vezes. Estou em Nova York e ninguém me pagou um centavo. Desejo tudo de bom a todos.”
Até mesmo as mulheres que não estão no festival estão virando notícia. Foi o caso de Manon Bannerman, um sexto do Katseye, que está atualmente em hiato do grupo feminino. O show aconteceu e o grupo fez sua estreia no Coachella como um quinteto, mas as circunstâncias vagas em torno da ausência de Bannerman foram um dos maiores assuntos do pop este ano. Não havia como essa conversa não se estender a este momento decisivo para elas.
Se o lançamento do videoclipe de “PINKY UP” na véspera da apresentação do primeiro fim de semana do festival tinha a intenção de mudar o foco, acabou alimentando as especulações sobre o futuro da programação do Katseye. No segundo fim de semana, o Katseye anunciou seu terceiro EP, Wild. O projeto de cinco músicas só deve ser lançado daqui a quatro meses. Muita coisa pode acontecer até agosto. Durante a apresentação no último fim de semana, o Katseye prometeu: “Haverá muitos outros Coachellas depois de hoje”.

É seguro presumir que as mulheres no mundo pop também serão o foco dessas discussões.



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