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Desvendando a Voz de Dolores O’Riordan: Especialistas Analisam a Complexidade Vocal do The Cranberries

A voz singular de Dolores O'Riordan, vocalista da icônica banda The Cranberries, continua a intrigar e desafiar artistas que buscam reinterpretar suas canções. Mesmo após o falecimento da cantora em 2018, e com o grupo se aproximando de seu 35º aniversário em 2026, a presença constante de covers nas plataformas digitais e shows evidencia a dificuldade técnica de emular seu estilo. O g1 consultou os técnicos vocais Rafael Dantas e Janaína Pimenta para desvendar as particularidades que tornam a performance vocal de Dolores tão distintiva e por que algumas homenagens ressoam, enquanto outras falham.
O Segredo do 'Soluço' Vocal: A Técnica de Yodel
Embora Dolores O'Riordan (1971-2018) não tivesse formação vocal formal, sua vivência em corais de igreja e a rica herança cultural irlandesa moldaram um estilo inconfundível. A marca registrada de sua técnica é o uso frequente do yodel, caracterizado pela alternância rápida e saudável entre registros vocais, passando do agudo para o grave. Rafael Dantas explica que essa 'troca ou quebra de registros' é feita com uma voz mista e de maneira orgânica. Ao contrário de seu uso mais ornamental na música country, Dolores transformou o yodel em um pilar central de sua expressão artística, aplicando-o em quase todas as frases. Essa onipresença da técnica é o que, muitas vezes, causa estranhamento em covers que se desviam drasticamente do original.
Dicotomia Emocional: Suavidade e 'Sofrência'
Janaína Pimenta, fonoaudióloga e técnica vocal, aponta outra camada crucial na interpretação de Dolores: a alternância entre uma voz suave e um 'ar de sofrência', que cria uma dualidade cativante. Tecnicamente, isso se traduz no uso hábil dos registros de peito e cabeça, com transições fluidas que imprimem essa sensação. A fonoaudióloga enfatiza que sustentar essas mudanças de registro exige técnica apurada. Muitos covers falham, segundo Pimenta, por não conseguirem capturar essa entrega emocional genuína, onde 'a emoção estava à flor da pele' na performance original de Dolores.
Avaliação de Covers: Sucesso e Desafios na Reinterpretação
O g1, com o auxílio dos especialistas, analisou diversas versões de clássicos do The Cranberries, classificando-as em categorias de êxito e dificuldade.
✅ Funcionou
Chappell Roan – 'Dreams': A artista soube adaptar a tonalidade para o brilho de sua própria voz, mantendo a originalidade com uma interpretação respeitosa e alinhada ao seu estilo. Hayley Williams – 'Dreams': A vocalista do Paramore ofereceu uma versão acústica e intimista, preservando a essência da canção sem imitar os maneirismos de Dolores, resultando em uma homenagem honesta e bem executada.
➕➖ Mais ou Menos
Japanese Breakfast – 'Dreams': Embora haja divergências técnicas, a 'vibe' e a entrega emocional da banda indie americana compensam eventuais problemas de afinação, garantindo um saldo positivo. Royel Otis – 'Linger': O duo australiano, fenômeno do TikTok, cativa com seu timbre, mas a performance vocal pode soar arriscada e um tanto desconfortável para o ouvinte atento. Rosé (Blackpink) – 'Linger': A estrela do K-pop entregou uma versão competente com sua assinatura vocal, mas perdeu parte da 'sujeira' emocional e orgânica que tornava a original tão impactante.
❌ Não Funcionou
Jão – 'Linger': Ao baixar o tom, o cantor diminuiu o impacto e a visceralidade da canção. Sua versão mais calma, apesar de uma homenagem válida, soou morna. Angélica – 'Linger': A versão brasileira 'Se a gente se entender' é um clássico televisivo, mas a interpretação da apresentadora é descrita como apenas inusitada. Jack Antonoff (Bleachers) – 'Dreams': O produtor, conhecido por trabalhos com Taylor Swift e Lana Del Rey, teve sua voz avaliada como muito fora de sua região natural, resultando em falta de 'punch' vocal, apesar da boa construção instrumental.
Fonte: https://g1.globo.com
