Connect with us

Ideias

Como o Super El Niño virou cabo de guerra ideológico

Published

on

O El Niño de 2026 foi confirmado por especialistas, com quase 100% de probabilidade. Em menos de uma semana, já tinha virado munição para uma guerra que pouco tem a ver com meteorologia.

O secretário-geral da ONU usou os prognósticos para exigir o fim imediato dos combustíveis fósseis. Ativistas rotularam o evento como um “Super El Niño potencializado pela ausência de planejamento”. Nas redes, sobraram previsões de catástrofe iminente, do colapso da produção agrícola e do pior fenômeno em 140 anos.

O exagero cheugo a tal ponto que o próprio Cemaden, o órgão federal responsável pelo monitoramento de riscos e missão de alertas de desastres, passou a evitar o prefixo “super” — porque, quando projeções extremas não se confirmam, é uma autoridade científica que paga o preço.

Os modelos climáticos usados ​​para estimar a intensidade do fenômeno também não ajudaram a pacificar o debate. Alguns cenários apontaram para um El Niño forte, com pico próximo de +2,1°C. Outros trabalharam com uma intensidade bem mais moderada, em torno de +1,3°C. Claro, as próprias ferramentas de previsão divergiam sobre a força do fenômeno.

Existe até um nome técnico para essa limitação: “barreira de previsibilidade da primavera boreal”, uma fase em que as previsões sobre a evolução do evento se tornam menos confiáveis. Quase ninguém parecia interessado.

Nada é novo. O debate climático global funciona há anos como um campo de batalha em que duas armas disputam uma narrativa que passa longe de proteger quem mora em áreas de risco (cerca de 8,27 milhões de brasileiros, segundo o IBGE) ou precisa tomar uma decisão diante da possibilidade de uma seca ou de uma enchente.

Por um lado, os alarmistas tratam as projeções extremas como inevitáveis ​​e as usam para justificar uma intervenção económica global. Do outro, os mais céticos veem tanto exagero nas previsões que acabam desconfiando até dos alertas legítimos.

No meio dos dois, estão o morador de encosta e o produto rural, que não sabe em quem confia. Eles pagam o preço de um tema sequestrado pela polarização e, o pior, de depender de um Estado que continua sem agir.

Fato, palpite e política

A expressão “consenso científico” virou bandeira. Mas o principal problema é que ela passou a empacotar três debates diferentes como se fossem um só: a física do clima, as projeções dos modelos climáticos e as políticas governamentais de resposta.

Para desfazer essa confusão, é preciso separar o que é fato, palpite e política.

A física é incontestável. O efeito estufa gerado pela atidiva humana é um fenômeno mensurável. No entanto, é aqui que o debate deveria comparar, e não terminar.

As projeções de impacto, como a intensidade do El Niño de 2026, dependem de modelos matemáticos que divergem entre si. Questionar essas projeções não é negar a ciência, e sim exigiu rigor técnico — já que uma imprecisão desses cálculos pode levar a defições desastrosas.

As políticas públicas de ocorrência não são verdades científicas. Representam escolhas que envolvem impostos, restrições e prioridades governamentais.

Misturar esses três elementos no mesmo balaio costuma ser um truque para tentar proteger decisões administrativas contra qualquer crítica. Mas a guerra cultural clima embolou tudo ainda mais.

Quem aponta exageros em um modelo matemático logo é acusado de contrariar a própria física do clima. Se você perguntar sobre os custos ou a eficiência de uma política pública, pode ser chamado de negacionista. E divergências técnicas viram ataques morais entre grupos científicos.

O resultado é menos espaço para disquartar o que realmente importa: o que os governos estão fazendo na prática?

Jogo de jantar

A COP30 é uma versão brasileira do jogo do jantar. Em novembro de 2025, Belém recebeu representantes de quase 200 países para debater o futuro clima do planeta — já que o governo Lula se apresentava como o líder internacional da agenda ambiental.

Há algumas semanas, porém, o Ibama havia autorizado a Petrobras a avançar na perfuração na Foz do Amazonas. E então a ministra do Meio Ambiente Marina Silva até reconheceu publicamente uma contradição, mas Lula preferiu recorrer à sua cartilha de sempre: evocou o fantasma do imperialismo para silenciar os críticos.

“Temos que explorar o petróleo antes que o Trump ache que é dele”, disse o presidente, promovendo a campanha “Brasil Soberano”, criada para vender a ideia de independência contra pressões externas e ganhar poder nas eleições deste ano.

O episódio deixa claro que os interesses da política petista atropelam a lógica de suas próprias narrativas. E, no filme, a participação brasileira se resume a muita briga simbólica e nenhuma clareza sobre o que, de fato, é prioritário.

Histeria é realidade

Em uma entrevista Gazeta do Povoo agrometeorologista Marco Antonio dos Santos, sócio-fundador da consultoria Rural Clima, apontou o contraste entre a histeria do debate climático e a realidade de quem vive no campo. Seus clientes não estão interessados ​​em vencer disputas ideológicas — eles decidem precisamente quando plantar, quanto investir e como administrar riscos.

A sua avaliação do fenómeno de 2026 é firme. “Dizer que será um Super El Niño ou um El Niño catastrófico é uma falta de respeito à população. Afirmações assim só geram pânico”, diz Santos.

O meteorologista não ignora a realidade climatática e confirma a influência do El Niño nos próximos meses. Sua crítica é sobre o tom sensacionalista usado para divulgar a previsão.

Segundo ele, fatores importantes para o Brasil, como o comportamento do Oceano Atlântico, recebem muito menos atenção do que os alarmismos. “O Atlântico tem peso muitas vezes maior no clima do país do que o próprio El Niño”, afirma.

“O resto é especulação”

Santos ainda lembra que o El Niño de 2015/16, um dos mais intensos da série histórica, não desencadeou o mesmo terror climático que o termo “Super El Niño” sugere. E destaca um efeito colateral dessa narrativa: “Isso coloca em sequência a substituição da previsão do tempo, que já é algo duvidoso para parte da população, principalmente a urbana”.

Diante da incerteza, ele defende um retorno à sobriedade técnica, sem exageros. “O certo é dizer que o fenômeno virá e poderá causar problemas, como excesso de chuvas no Sul, veranicos no Centro-Norte e ondas de calor mais intensas. O resto é apenas especulação”, diz.

Uma guerra cultural, no entanto, prefere a especulação. E, enquanto os profetas gritam sobre o apocalipse, os políticos fazem pouco caso do que já aparece nos relatórios oficiais. O clima pode até passar por mutações, mas as encostas continuam no mesmo lugar.

VEJA TAMBÉM:

  • Super El Niño agro

    El Niño caminha para ficar mais forte desde 1950 e deve deixar marcas no campo e na cidade

  • Mais intenso já documentado, Super El Niño de 1877 atingiu até 4% da população mundial. As condições podem ser repetidas ano a ano, mas os efeitos devem ser diferentes

    O Super El Niño que matou 50 milhões – e o que espera do que vem aí

Continue Reading
Advertisement
Clique para comentar

Deixar uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Revista Plateia © 2024 Todos os direitos reservados. Expediente: Nardel Azuoz - Jornalista e Editor Chefe . E-mail: redacao@redebcn.com.br - Tel. 11 2825-4686 WHATSAPP Política de Privacidade