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Belchior 80 Anos: O Culto a ‘Alucinação’ e a Obra Além do Álbum Ícone

Antonio Carlos Belchior (1946 – 2017), cujo aniversário de 80 anos seria celebrado nesta segunda-feira, emergiu de um período de esquecimento para se tornar um ícone cada vez mais cultuado na música brasileira. Sua redescoberta, potencializada após seu exílio voluntário e subsequente morte, impulsionou um fervoroso interesse por sua obra, manifestado em livros, séries, documentários, musicais e shows-tributo. Contudo, essa devoção concentra-se majoritariamente em seu álbum de 1976, "Alucinação", muitas vezes negligenciando a vastidão de sua produção artística.
A Obra-Prima: "Alucinação"
Considerado a joia da discografia de Belchior, "Alucinação" transcende pela profundidade de suas dez faixas. Nele, o artista cearense oferece uma reflexão visceral sobre o Brasil e o esfacelamento do sonho hippie, sob a perspectiva angustiada e desiludida do migrante nordestino em busca de espaço nas metrópoles. Este álbum seminal capturou as urgências e desesperos de uma juventude oprimida pela ditadura e pelas contradições do sistema capitalista.
Embora "Alucinação" seja o epicentro do reconhecimento, a década de 1970 foi prolífica para Belchior, revelando outras canções de alcance transcendental. Composições como "Na Hora do Almoço" (que o revelou em 1971), "Mucuripe" (1972, com Fagner), "Todo Sujo de Batom" (1974), "Galos, Noites e Quintais" (1976), "Coração Selvagem" (1977), "Divina Comédia Humana" (1978) e "Comentário a Respeito de John" (1979) também formam um cancioneiro lapidar que merece igual atenção.
Além dos Clássicos: A Fase Pós-Anos 80
A partir da década de 1980, Belchior enfrentou críticas sobre uma aparente perda de inspiração melódica, resultando em álbuns considerados irregulares como "Objeto Direto" (1980), "Paraíso" (1982), "Cenas do Próximo Capítulo – 1984" (1984), "Melodrama" (1987) e "Elogio da Loucura" (1988). No entanto, esses discos ainda guardam lampejos de genialidade e oferecem um panorama expandido da criatividade do artista, justificando uma escuta mais atenta para além do óbvio.
A Relevância de "Baihuno" (1993)
Para os que desejam uma imersão profunda no universo belchioriano, "Baihuno", lançado em 1993, emerge como um ponto de partida coerente. Este álbum representou um dos últimos grandes esforços de Belchior para reacender o vigor lírico e musical de sua fase áurea dos anos 70. Suas letras, como os versos "Trogloditas, traficantes, neonazistas, farsantes, barbárie, devastação / O rinoceronte é mais decente do que esta gente demente do Ocidente cristão" da faixa-título, revelam um olhar visionário e tristemente atual sobre as questões sociais e políticas.
Embora o auge criativo de Belchior esteja concentrado entre 1973 e 1979, culminando no hit "Medo de Avião", a completa dimensão de seu legado exige uma exploração mais abrangente. A restrição do culto ao icônico "Alucinação" pode, a longo prazo, saturar a apreciação de sua obra. É imperativo que novos ouvintes e admiradores vasculhem a integralidade de seu baú artístico, redescobrindo a riqueza e a complexidade que permeiam toda a sua discografia.
Fonte: https://g1.globo.com
