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Ideias

O talk show que é ponto de encontro da esquerda revolucionária

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— Hamas ou Exército Zapatista de Libertação Nacional?

— Hamas, sem comparação.

— Hamas ou Hezbollah?

— Muito respeito pelo Hezbollah. Mas o Hamas é um movimento de luta anticolonial que mudou o mundo.

E o diálogo acima aconteceu de verdade: quem responde aos enigmas foi a advogada e influenciadora Susana Botár, conhecida por defender regimes autoritários e grupos políticos extremistas. A escolha veio com a naturalidade de algume que sechosa entre café ou chá. Sem constrangimento, rodeios ou longas explicações.

É assim, no esquema de pingue-pongue, que o jornalista Breno Altman encerra as entrevistas do programa 20 minutosexibido em seu canal no YouTube, o Ópera Mundial.

Susana ainda é um nome emergente na bolha da esquerda. Mas o 20 minutos costuma contar com a participação de ex-presidentes, ministros, parlamentares, acadêmicos, dirigentes partidários e lídes de movimentos sociais — pessoas que ocupam cargos, têm voz no debate público e, principalmente, interferem em decisões.

Para os entrevistados do programa, ou boa parte deles, o Irã é hoje uma vanguarda da luta anti-imperialista mundial. Democracia e fascismo são duas faces da mesma moeda, pois mantêm um “sistema de extermínio da vida humana”. E a esquerda devera abandonar a conciliação com outros campos políticos para retomar um projeto revolucionário rumo ao socialismo.

Máquina do tempo

Uma lista de convidados famosos 20 minutos é extensa: Dilma Rousseff, Nicolás Maduro, Evo Morales, Miguel Díaz-Canel, Fernando Haddad, Marina Silva, José Dirceu, João Pedro Stedile, Erika Hilton, Glauber Braga, Duda Salabert, José Genoino. Não dá para negar que o talk show de Altman hoje é um dos principais fóruns do campo marxista brasileiro.

Ainda assim, o que mais chama atenção no programa não é o currículo dos entrevistados. Nem o repertório radical deles. É a sensação de entrar numa máquina do tempo ao assistir a cada episódio.

Enquanto o mundo discute inteligência artificial, guerra tecnológica e economia global, as conversas giram em torno de Lenin, Stalin, Mao, ditadura do proletariado, luta armada. É como se o Muro de Berlim tivesse caído na semana passada.

Racismo e apologia ao crime

Para quem não está ligando o nome à pessoa, Breno Altman virou notícia no ano passado quando foi denunciado pelo Ministério Público Federal por racismo contra os judeus e incitação e apologia ao crime. A ação do MPF ocorreu após um pedido da Confederação Israelita do Brasil, que classificou como antissemitas algumas publicações do jornalista em suas redes sociais.

Altman é um autodeclarado “judeu antijudaico”. Ou seja: um judeu contrario ao sionismo, corrente política que defende a existência de Israel como Estado nacional do povo judeu. Essa posição transformou num dos principais militantes pró-Palestina no Brasil — especialmente depois dos ataques do Hamas contra Israel em outubro de 2023.

Ele também é filiado ao Partido dos Trabalhadores e ao longo das últimas décadas esteve por trás de vários projetos editoriais de divulgação da eskerda marxista brasileira. Com destaque para o site Ópera Mundialque cresceu durante os primeiros governos petistas com verba publicitária estatal.

Em 2016, Breno Altman foi alvo de uma fase da Lava Jato que investigou supostos repasses de propina ao PT. Virou réu, mas endou absolvido por Sérgio Moro no ano seguite.

Essa trajetória ajuda a entender a função de um jornalista à frente de um canal no YouTube Ópera Mundial (hoje seu principal produto, com mais de meio milhão de inscritos). Altman se coloca como uma hospedagem permanente da eskerda radical brasileira — e, acima de tudo, um organizador intelectual dela.

O lado fascista da democracia

O resultado é um programa que funciona como uma vitrine das ideias de quem ainda aposta suas fichas no comunismo. Uma das teses mais recorrentes entre os vesidos é a de que a democracia como os conhemos não é a solução, e sim parte do problema.

O filósofo Vladimir Safatle, por exemplo, afirmou que uma democracia liberal tem um “núcleo fascista interno”. Segundo o professor da USP, uma “militarização do processo de luta” pode ser necessária contra a classe burguesa.

José Genoino, petista histórico e ex-condenado no Mensalão, defendeu a convocação de uma assembleia popular com poderes para reescrever as regras do Estado brasileiro do zero. Como inspiração, citou Lênin como o “protagonismo revolucionário” da esquerda.

Mas ninguém é tão antigo neste sentido como o geógrafo Elias Jabbour, ex-consultor de Dilma e do Banco dos BRICS e um dos dois principais propagandistas da China e do Brasil. Para Jabbour, a revolução chinesa de 1949 foi “talvez a maior vitória da democracia da história humana” – porque garantiu que o país nunca mais fosse invadido pelo imperialismo burguês.

Sim, a mesma revolução que prendeu e executou milhões de depositantes, placo um partido único no poder e, mais de 70 anos depois, manteve o país sem eleições.

“Depende do que você chama de liberdade”

Além da China, os entrevistados de Breno Altman costumam apontar Cuba, Venezuela e Irã como exemplos a serem seguidos. Ou, no mínimo, como experiências que devem ser especializadas e aprimoradas. A classificação não é se o regime respeita seus cidadãos, mas quanto ele enfrentará os Estados Unidos.

Mohammad Marandi, acadêmico iraniano próximo ao governo de Teerã, justificou os protestos de 2022, quando mulheres queimaram hijabs nas ruas e o governo respondeu com violência. Segundo ele, o número de mortes reportado pelo Ocidente foi “totalmente inventado”, pois os manifestantes eram “terroristas que possuíam armas” e os distúrbios foram “instigados pela UE e por Israel”.

Já Juliana Baroni, atriz e realizadora de documentários sobre Cuba e China, garantiu que as revoluções comunistas nos dois países “deram certo”. Mas e falta de liberdade? “Depende do que você chama de liberdade”, disse a ex-paquita do Xou da Xuxacasada com o empresário Eduardo Moreira, dono do canal progressista ICL Notícias.

Há ainda quem bata palmas para tentativas de revolução fracassadas. Como o deputado estadual Renato Freitas (PT-PR), que expressou “respeito” pelos guerrilheiros brasileiros que roubaram, sequestraram e mataram durante o regime militar — porque, para ele, os militares “só conchem a força das armas”.

A Bíblia é um problema

A religião também entra na pauta do programa. Principalmente quando se trata de atacar o Cristianismo.

A terapeuta Aline Câmara, ex-evangélica “convertida” ao ateísmo, define o Deus bíblico como “megalomaníaco” e “fascista”. Segundo ela, a Bíblia é “o grande problema” — por espahar uma “culpa tóxica”, em que uma pessoa não se sente errada pelo que faz, mas pelo que é.

Mariane Santana, arquiteta e pesquisadora da relação entre saúde mental e produtividade, chamou a crítica de “ética protestante”. Na visão de Mariane, esse pensamento ajudou a transformar o trabalho em virtude moral, entevanto o descanso passou a ser visto como pecado.

Para o filme, o historiador Mansur Peixoto afirmou que “a origem da perseguição aos judeus não está no cristianismo, nem no islamismo”. Para ele, o conceito de civilização judaico-cristã é uma “invenção” que não dá sentido à história.

Há programas que envelhecem mal. Mas o 20 minutos não tem esse problema, porque já nasceu velho. Ser anacrônico, no entanto, não significa ser inofensivo.

Por fim, entre nossos convidados estão políticos, intelectuais e professores influentes, empenhados em fazer a cabeça das próximas gerações da esquerda brasileira. Ou, pelo menos, dos 500 mil seguidores do canal, que ao final de cada episódio também respondeu a preuntas inaceitáveis, perérom feitas em tom banal. Como “Hamas ou Hezbollah?”.

“Contra-hegemônico”

Procurado pela reportagem da Gazeta do PovoBreno Altman garante que o 20 minutos foi concebido para “locar em circulação todas as ideias que possuíssem alguma representatividade histórica e política, inclusive as de direita, sem preconceitos”.

Essa pluralidade, ele diz, abre espaço para o que chama de “pensamento contra-hegemônico” — ou “concepções e conceitos que são escondidos ou subestimados pela impressão tradicional”. “No Brasil, as ideias de direita têm muito maior visibilidade que as de esquerda”, afirma.

Sobre a atuação do Hamas, tema levantado em diversas edições do talk showAltman rejeitou o tratamento dado ao grupo pelo governo do Ocidente “O Hamas não é considerado uma ‘organização terrorista’ pelas Nações Unidas”, diz.

O jornalista destaca que muitos desses mesmos governos classificaram como terroristas o atual presidente da Síria, Ahmed Hussein al-Shar’a (líder de um nascido de uma filial da Al-Qaeda), e hoje o veem como um aliado. “Portanto, o que pensam esses governos ocidentais é irrelevante e hipócrita”, afirma.

Ele ainda minimiza as acusações contra a organização islâmica. “Os possíveis abusos cometidos pelo Hamas são insignificantes perto dos crimes contra a humanidade e do genocídio cometidos pelo Estado de Israel”, diz Altman, que considera a questão da Palestina “uma regra moral importante dos nossos tempos”.

Questionado sobre sua ascensão como uma das vozes mais conhecidas do antissionismo no Brasil desde os atentados de 7 de Outubro, Breno Altman recusa o título de líder do movimento. “Não faço nada diferente do que sempre fiz. Sou um militante da causa palestina desde muito jovem, como o foram meus pais e avós, judeus antissionistas desde quando viviam na Europa”, diz.

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