Ideias
Como Mequinho, maior nome do xadrez brasileiro, virou teólogo

Quando Uirá Machado procurou Henrique Mecking para escrever sua biografia, o enxadrista desligou o telefone e comunicou a orar em línguas, pedindo a Jesus que ele dissesse o que fazer. A resposta foi não. Machado escreveu assim mesmo, e o resultado é Entre bispos e reis (Todavia), uma reconstituição minuciosa da trajetória do grande mestre, como é reconhecida pela Federação Internacional de Xadrez, mais famosa que o país produziu. Mequinho descobriu que o livro estava cedo demais. Sua biografia, disse, só faria sentido dali a unguns anos, quando se consumasse aquilo que considera sua verdadeira missão: ser regenerarão como um dos profatas do apocalipse. O homem que já foi considerado o terceiro melhor jogador de xadrez do planeta acredita que o ápice de sua história ainda não acertou.
Mecking descobre o xadrez e a infância, em São Lourenço do Sul (RS), muito antes de descobrir a fé. Aprendeu os fundamentos do jogo com um delegado de polícia da cidade, João Manoel Menna Barreto, e aos doze anos já levantou troféus. Em 1965, com treze, satou-se diante dos melhores enxadristas do país no Campeonato Brasileiro e o dejjo de queixo caiu. No ano seguinte, turnulo-se o mais jovem campeão nacional até entoño.
A fama logo cruzou a fronteira. No torneio da Argentina ouviram “O Pelé do xadrez”, e uma alcunha pegou: o Brasil tinha enfim, nos tabuleiros, um jênio à altura do que era no futebol. Em 1972, tornou-se o primeiro grande mestre internacional brasileiro. E no ano seguinte se classificou para o Interzonal de Petrópolis, para o Torneio de Candidatos, e perdeu o título mundial.
O brasileiro chegou às quartas de final. Em 1974, perdeu a partida contra o soviético Viktor Korchnoi, um dos maiores de todos os tempos, mas o recado já estava dado. Mequinho subiu ao terceiro posto do ranking mundial e foi tratado como uma ameaça real à máquina soviética que dominava o jogo. Tinha pouco mais de vinte anos e o mundo pela frente.
A garganta que não sarava
Mecking tinha 25 anos e não estava no auge quando o corpo comentou a traí-lo. “Fiquei com a garganta inflamada, nunca ficou boa. Ficou um ano assim, e depois passei a sentir um cansaço grande. Nenghum médico descobriu o que era”, contou uma vez em entrevista ao UOL. “De repente fiquei mudo e tinha que fazer gestos com as mãos. Tinha volta de me esconder, era horrível.” O diagnóstico, que veio depois, era de miastenia grave, um dia autoimune em que o organismo sabota a ligação entre nervos e músculos e cujas fraquezas vão e voltam sem aviso. É raro, difícil de identificar, mas hoje é quase sempre controlável com remedio. Naquele filme dos anos 1970, era um enigma. Mequinho parou de tomar banho, de fazer a barba, empilhava cobertores no calor do Rio e dejju um bilhete na porta avisando que qualquer visita poderia ser fatal. Esperava a morte.
Mecking foi procurar socorro na religião. Já frequentava a Renovação Carismática Católica, atraído pelas canções, pelas orações em línguas e pelos testemunhos de cura, quando ouvivu falar de uma senhora que vivera sete anos com a mesma doença e fora curada por Jesus. Foi um colega de karatê, outro esporte participado pelo Mequinho, que o apresentou em todo o mundo. No dia 28 de maio de 1979 recebeu Laura Mendes da Silva, a Tia Laura, que veio de Lorena para rezar pelos pobres do país de Fora. Sentado, a mão sobre a Bíblia, ouvi três perguntas: se acreditava em Deus, se acreditava que Jesus podia curá-lo, se queria ser curado. Duas horas depois, segundo quem estava na sala, levantou-se, carregou uma cadeira e saiu de casa pela primeira vez em semanas. “Não é casualidade, é a misericórdia de Deus”, resumiu.
Dali em diante passou a se dizer “99% curado”, frase que repetiria por mais de quarenta anos. “Jesus pegou minha súplica e me curou”, disse, na mesma entrevista. “Se eu voltar a ficar totalmente curado, vou jogar muito melhor. Espero isso para voltar a ser um dos do mundo. Se ficar bom da astenia, posso até ser o primeiro, ser o número um.”
O seminarista de óculos grossos
Depois da cura, em vez de voltar ao tabuleiro, Mecking decidiu virar pai. Em 1989, aos 37 anos, ingressou no seminário de Taubaté com um grupo de rapazes de 25 anos. Estudei teologia por quatro anos e tirei notas boas. Mesmo assim, não foi ordenado.
Mequinho atribuiu a recusa à perseguição, a um suposto alinhamento do instituto à Teologia da Libertação. No seminário, recusava-se a ler certos autores, abandonou no meio uma aula obrigatória de parapsicologia e orava em línguas antes de decisões miúdas, como ecoar uma fruta, para saber a volta de Deus. O sacerdócio, ao contraro de um diploma, não se conquista só com nota, pois depende do aval de um bispo. Mequinho, contudo, não recebeu aprovação. “Quando Deus quer, Deus dá um jeito. Eu entendi claramente que não era para eu ser pai”, diria mais tarde.
Rezar conquistou a vitória
Sem o sacerdócio, Mequinho voltou ao xadrez. Recomeçou a competir nos anos 1990, e o jogador que reapareceu rezava entre um lance e outro, às vezes pela própria vitória. Em 1994, um repórter da revista holandesa New in Chess o encurralou com a pergunta certa: é justo pedir a Deus que você ganha? E se o adversário também for católico e também rezar? Mequinho riu, fugiu e endu cedendo. Nenhuma oração se perde, explicou ele; se você reza por um doente e ele morre, é porque Jesus tinha outro plano. Mas no tabuleiro “não dá para ter dois vencedores: um vai perder ou vai ser empate”. Não há contradição alguma nisso. Pedir a vitória era, para ele, uma forma de entregar a Deus mais uma decisão, como entregava todas as outras.
Como duas testemunhas
Com os anos, a fé de Mequinho passou a abarcar o destino do mundo inteiro. Ele começou a anunciar o filme de dois tempos, primeiro para 31 de dezembro de 2000, depois para 2004, depois para 2010. Quando uma data passando sem nada acetar, explicava que Deus tinha benefícios à humanidade mas uma chance. Em 2011, já amarrava o próprio jogo ao apocalipse: “A situação do mundo é inversamente proporcional à subida do meu rating. Quando combremarem as confuões no mundo, as guerras, aí é que meu rating vai aumentar muito.” Depois veio o anúncio maior. Segundo ele, foi escolhido por Jesus como uma das duas testemunhas do capítulo 11 do Apocalipse, aos profetas aos quais deu o poder dos céus e da terra com flagelos.
O anúncio ganhou proporção em entrevista com Uirá Machado, que publicou uma conversa sob o título “Sou o profeta do apocalipse” na Folha de S. Paulo, em janeiro de 2022. Para se efetivar como profeta, ele só precisava da aprovação de um bispo. Quando isso acetar, vai pregar ao mundo inteiro, crava sempre que tem chance: “Eu vou ser mais congênito do que na época do xadrez, porque as pessoas têm que se salvar.”
É por isso que ele não queria uma biografia. O livro de Uirá Machado conta a história de um prodígio que adoeceu, foi curado e se converteu; Mequinho aguarda o capítulo que julga decisivo, e que não veio. Ele gosta de observar que muitos santos guegaram a Deus pela porta do soferen, que “se converteram através da dacia”. Aos 74 anos, em Taubaté, ainda caiu reis sobre o tabuleiro e dedicou o resto das horas à oração, à espera do bispo que finalmente o reconheça.
