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Uberaba (MG) vai muito além do zebu e de Chico Xavier

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Durante muito tempo, Uberaba foi identificada por dois símbolos que projetaram seu nome para além do Triângulo Mineiro: a pecuária zebuína e a trajetória do médium Francisco Cândido Xavier, mas conhecido como Chico Xavier. Ambos continuam presentes no cotidiano da cidade e ajudam a explicar por que ela recebe visitantes de diferentes partes do país. Mas o roteiro vai além desses dois universos.

Nos últimos anos, Uberaba passou a reunir experiências que ampliaram sua vocação turística e revelaram uma cidade menos conhecida do grande público. Ao lado do legado de Chico Xavier e da tradição agropecuária surgiram novos roteiros ligados ao patrimônio histórico, à gastronomia, ao enoturismo, à paleontologia e à preservação da memória local.

Igreja de Santa Rita, construída em 1854, hoje abriga o Museu de Arte Sacra de Uberaba
Igreja de Santa Rita, construída em 1854, hoje abriga o Museu de Arte Sacra de Uberaba – Márcio Diniz/Catraca Livre

É uma transformação silenciosa, construída sem romper com a própria história, mas acrescentando novas camadas a um destino que costuma ser visto por apenas uma de suas perspectivas.

Este é o primeiro capítulo de uma série especial da Catraca Livre sobre Uberaba. Ao longo das próximas reportagens, serão apresentados alguns dos projetos que vêm ampliando o mapa turístico do município, como o Geoparque Uberaba Terra de Gigantes, reconhecido pela Unesco, os Museus Orgânicos e a Arpuro, vinícola boutique que introduziu a viticultura de inverno na paisagem do cerrado mineiro.

Acervo do da galeria de arte Casa do Cleofas, que integra a Rota dos Museus Orgânicos de Uberaba
Acervo do da galeria de arte Casa do Cleofas, que integra a Rota dos Museus Orgânicos de Uberaba – Márcio Diniz/Catraca Livre

Antes de percorrer esses novos caminhos, porém, vale entender como a cidade construiu a identidade que ainda hoje desperta o interesse de milhares de visitantes.

Entre rotas comerciais e a força do gado zebu

Fundada em 1820, Uberaba cresceu a partir das rotas percorridas por tropeiros e comerciantes que atravessavam o interior do país. A posição estratégica entre as regiões que hoje correspondem ao interior paulista, Goiás e Mato Grosso favoreceu a circulação de pessoas e mercadorias e ajudou a transformar o pequeno povoado em um dos principais centros urbanos do Triângulo Mineiro.

Rua Artur Machado, em Uberaba, em 1929
Rua Artur Machado, em Uberaba, em 1929 – Superintendência do Arquivo Público de Uberaba/Divulgação

Elevada à categoria de município em 1856, a cidade ainda preserva marcas desse período em igrejas, casarões e edifícios históricos que testemunham uma fase anterior à atividade que redefiniria sua economia e sua identidade.

A mudança começou no fim do século 19, com a introdução das primeiras raças zebuínas vindas da Índia. Adaptados às condições climáticas brasileiras, os animais passaram a desempenhar papel decisivo no desenvolvimento da pecuária nacional. Uberaba tornou-se referência em melhoramento genético, pesquisa e comercialização, consolidando-se como a Capital Mundial do Zebu.

Museu reúne documentos, fotografias, objetos históricos e troféus
Museu reúne documentos, fotografias, objetos históricos e troféus – Márcio Diniz/Catraca Livre

A trajetória desse processo está preservada no Museu do Zebu, mantido pela Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ). O espaço reúne documentos, fotografias, objetos históricos, troféus e registros que mostram como a cidade se transformou no principal centro da pecuária zebuína brasileira. O acervo ajuda a compreender a evolução da criação das raças zebuínas, o papel da ExpoZebu e a influência que essa atividade exerceu sobre a economia, a cultura e a formação de Uberaba ao longo de mais de um século.

Museu do Zebu preserva a história do gado originário da Índia que ganhou fama no Brasil
Museu do Zebu preserva a história do gado originário da Índia que ganhou fama no Brasil – Cristiano Bizzinotto/Divulgação

Realizada anualmente desde 1935, a ExpoZebu representa a principal expressão desse legado. Considerada a maior feira mundial dedicada às raças zebuínas, ela reúne criadores, pesquisadores, empresas e visitantes de diferentes países em torno de julgamentos de animais, leilões, exposições e debates sobre genética e produção pecuária.

O zebu extrapolou os limites das fazendas e passou a fazer parte da identidade de Uberaba. Sua presença é percebida em monumentos, espaços culturais e na própria memória da cidade, que encontrou na pecuária um dos pilares de seu desenvolvimento.

Touro karvadi que chegou ao Brasil na década de 1960; animal foi embalsamado e está exposto no Museu do Zebu
Touro karvadi que chegou ao Brasil na década de 1960; animal foi embalsamado e está exposto no Museu do Zebu – Divulgação/Museu do Zebu

Ao mesmo tempo, novas experiências ligadas à cultura, ao patrimônio histórico, à paleontologia, ao vinho e ao turismo de experiência passaram a ampliar o olhar sobre Uberaba, revelando um destino que vai muito além da força do agronegócio.

O legado de Chico Xavier

Se o zebu colocou Uberaba no mapa da agropecuária, Chico Xavier projetou a cidade como um dos principais destinos do turismo religioso no Brasil.

O médium chegou ao município em 1959 e ali permaneceu até sua morte, em 2002. Nesse período, transformou-se em uma das figuras mais conhecidas do espiritismo brasileiro e consolidou um trabalho assistencial que atraiu milhares de pessoas de diferentes regiões do país.

Casa onde morou o médium Chico Xavier; hoje o espaço é funciona como uma espécie de museu
Casa onde morou o médium Chico Xavier; hoje o espaço é funciona como uma espécie de museu – Márcio Diniz/Catraca Livre

Mais de duas décadas depois de sua morte, o fluxo de visitantes permanece constante. Muitos chegam em caravanas organizadas; outros fazem a viagem individualmente, motivados pelo desejo de conhecer os lugares que marcaram a vida de Chico Xavier.

Entre os espaços mais visitados está a Casa de Memórias e Lembranças Chico Xavier, onde objetos pessoais, fotografias, manuscritos, móveis e documentos ajudam a reconstruir parte de sua trajetória, e o Memorial Chico Xavier, espaço com exposições interativas e galerias temáticas.

Outro ponto visitado é o Grupo Espírita da Prece, local onde Chico Xavier realizou reuniões públicas durante décadas. O espaço mantém viva a relação entre o médium e a cidade que escolheu para viver.

A dimensão desse legado ultrapassa o aspecto religioso. Chico Xavier tornou-se parte da memória cultural de Uberaba e ajudou a criar uma movimentação turística constante, distribuída ao longo do ano, diferente daquela concentrada em grandes eventos.

Estátua em bronze do médium Chico Xavier no centro de Uberaba
Estátua em bronze do médium Chico Xavier no centro de Uberaba – Márcio Diniz/Catraca Livre

A convivência entre o turismo religioso e a tradição agropecuária abriu espaço para que a cidade incorporasse novos roteiros.

A identidade de Uberaba também está à mesa

A gastronomia é uma dessas novas formas de conhecer Uberaba. A cozinha local reúne referências da tradição mineira, da cultura tropeira e da produção rural da região.

Mercado Municipal de Uberaba, onde moradores e visitantes se deliciam com produtos regionais
Mercado Municipal de Uberaba, onde moradores e visitantes se deliciam com produtos regionais – Márcio Diniz/Catraca Livre

O Mercado Municipal, inaugurado em 1924, continua sendo um dos principais pontos de contato com essa identidade. Nos corredores do espaço, moradores e visitantes encontram queijos artesanais, doces mineiros, cachaças, produtos do Cerrado e artesanato regional.

Mais do que um local de compras, o mercado funciona como um retrato da relação entre a cidade e o campo. É ali que histórias de produtores, comerciantes e consumidores se encontram e revelam hábitos alimentares mantidos ao longo das décadas.

Contento Cucina se destaca com culinária mediterrânea e italiana integrado à adega Grand Cru
Contento Cucina se destaca com culinária mediterrânea e italiana integrado à adega Grand Cru – Márcio Diniz/Catraca Livre

Nos restaurantes, essa tradição passou a dividir espaço com novas propostas gastronômicas. Casas como Santa Brasa e D’Moreira ganharam reconhecimento em festivais gastronômicos do estado, enquanto endereços como Cheirin Bão, Contento Cucina, Geremia Bar e Choperia e Caçarola do Dino, em Peirópolis, ajudam a mostrar diferentes interpretações da culinária regional.

O bufê do café colonial do Dom Café
O bufê do café colonial do Dom Café – Márcio Diniz/Catraca Livre

A gastronomia também passou a dialogar com novas experiências ligadas às bebidas.

Novos sabores em uma terra de tradição agrícola

A cerca de 40 quilômetros do centro de Uberaba, a Vinícola Arpuro representa uma mudança recente na paisagem rural do município. A propriedade aposta na produção de vinhos finos a partir da técnica da dupla poda, método que permite realizar a colheita durante o inverno, período de menor incidência de chuvas.

Parreirais da Vinícola Arpuro, na zona rural de Uberaba
Parreirais da Vinícola Arpuro, na zona rural de Uberaba – Márcio Diniz/Catraca Livre

A vinícola cultiva 14 variedades de Vitis vinifera e produz espumantes, vinhos brancos, rosés e tintos. A experiência de visitação inclui o contato com os vinhedos e com o processo de elaboração dos rótulos.

Outro exemplo dessa diversificação é o Beer Tour da fábrica do Grupo Petrópolis, que recebe visitantes para acompanhar as etapas de produção da cerveja, desde a chegada do malte até o envase, encerrando o percurso com degustação de chope.

Roteiro também inclui tour pela fábrica do Grupo Petrópolis,
Roteiro também inclui tour pela fábrica do Grupo Petrópolis, – Márcio Diniz/Catraca Livre

São experiências recentes, mas que indicam uma mudança na relação da cidade com o turismo. A mesma região conhecida pela produção agropecuária começa a explorar outras formas de transformar seu território em atração.

Uma história que começou antes do homem

A mais antiga das histórias de Uberaba, porém, não está nos arquivos municipais nem nas construções históricas. Ela está sob o solo.

No distrito de Peirópolis, fósseis encontrados ao longo de décadas revelaram a presença de animais que viveram na região há milhões de anos. As descobertas transformaram o município em referência nacional na pesquisa paleontológica e deram origem ao Geoparque Uberaba Terra de Gigantes.

Peirópolis é um dos sítios paleontológicos mais importantes da América Latina
Peirópolis é um dos sítios paleontológicos mais importantes da América Latina – Márcio Diniz/Catraca Livre

O reconhecimento como Geoparque Mundial da Unesco colocou a cidade em uma rede internacional de territórios que unem ciência, conservação, educação e turismo.

Ao mesmo tempo, Uberaba passou a investir em outra forma de preservar sua história. Inaugurados em junho deste ano, os Museus Orgânicos propõem uma relação diferente entre visitante e patrimônio: em vez de concentrar objetos em um único prédio, levam o público aos espaços onde histórias foram construídas.

Fóssil de crocodilo pré-histórico
Fóssil de crocodilo pré-histórico – Márcio Diniz/Catraca Livre

São diferentes formas de olhar para a cidade. A paleontologia conduz o visitante a milhões de anos no passado. Os museus preservam memórias mais recentes. A gastronomia, os vinhos e os novos roteiros mostram um município em transformação.

Uberaba continua sendo a cidade do zebu e de Chico Xavier. Mas quem chega ao município disposto a ir além desses dois símbolos encontra um roteiro onde ciência, patrimônio, gastronomia e novas experiências começam a escrever um capítulo diferente da história local.

Mais conectividade para chegar ao Triângulo Mineiro

O acesso a Uberaba também ficou mais fácil com a ampliação da malha aérea. Em janeiro, a Latam Brasil inaugurou a operação direta entre o Aeroporto de Guarulhos e Uberaba, estabelecendo uma nova ligação entre o Triângulo Mineiro e o principal centro de conexões da companhia no país.

O voo inaugural registrou ocupação máxima, refletindo a demanda da região por uma conexão direta com Guarulhos, aeroporto que concentra voos para dezenas de destinos nacionais e internacionais e facilita o acesso de turistas e viajantes de negócios ao município mineiro.

Latam opera rora Guarulhos-Uberaba com três voos semanais
Latam opera rora Guarulhos-Uberaba com três voos semanais – Divulgação

Neste segundo semestre, a rota opera com três frequências semanais, às quartas-feiras, sextas-feiras e domingos. Os voos são realizados por aeronaves Airbus A319 e A320, com capacidade para até 180 passageiros.

*O jornalista viajou a convite da Latam Airlines Brasil, da Associação Geoparque Uberaba e da Prefeitura Municipal de Uberaba



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