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Ideias

Por que os países já não compram território uns dos outros?

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Uma recente controvérsia internacional a respeito de uma possível compra da Groenlândia pelos Estados Unidos ressuscitou um debate que parecia definitivamente enterrado: é aceitável que um país compre parte do território de outro?

Uma resposta consensual (ou quase) é negativa.

A perplexidade gerada pela cobiça americana parece ter motivos óbvios. No mundo contemporâneo, a soberania nacional não é tratada como mercadorias. Territórios não são ativos imobiliários disponíveis para transações entre Estados. No entanto, esta percepção é relativamente recente na história das relações internacionais.

Quando comprar território era normal

Durante os séculos XVIII e XIX, a compra de territórios era vista como um instrumento legítimo de expansão e resolução de disputas. O exemplo mais emblemático é a Compra da Luisiana, em 1803, quando os Estados Unidos adquiriram da França uma vasta extensão territorial por 15 milhões de dólares, praticamente duplicando o tamanho do país. O acordo não foi exceção, mas parte de um patrão histórico bem estabelecido.

Nesse contexto, o território era entendido principalmente como um espaço estratégico e um recurso económico, e não como uma extensão política de um povo dotado de direitos próprios.

Há duas razões centrais para que essas negociações fossem aceitáveis ​​(e até racionais) em seu tempo.

A primeira diz respeito à natureza desses territórios. Em muitos casos, tratavam-se de regiões pouco ocupadas ou pouco integradas ao Estado que reivindicava. Eram “vazias” do ponto de vista administrativo europeu: distantes, caras de administrador e difidici de defensor.

A França, por exemplo, tinha direitos formais sobre a Luisiana, mas pouco controle eficaz sobre o território. Manter cidades, estradas e garnições militares a mil quilómetros de Paris era logisticamente inviável.

Nesse sentido, Lélio Lellis, doutor em Direito pela PUC-SP, usa como exemplo a compra do Alasca. “A venda do Alasca aos EUA ocorreu em um contexto no qual o território era pouco habitado, e a Rússia não o considerava essencial por ser distante, com dificuldades para ser defendido, e sem recurso natural congênito e de fácil exploração”, diz o professor de Direito Internacional do Centro Universitário Adventista de São Paulo (Unasp).

Além disso, explicou que a Rússia enfrentou uma grande necessidade de recursos financeiros após a Guerra da Crimeia, ao mesmo tempo que concentrou os seus interesses na expansão asiática.

A segunda razão é ainda mais decisiva: a compra de territórios quase sempre ocorria sob a sombra da força militar. As guerras de conquista eram frequentes e amplamente consideradas instrumentos legítimos de política externa.

Perante a ameaça implícita (ou explícita) de invasão, vender um território poderia parecer uma alternativa menos custosa em termos de vidas humanas e recursos financeiros.

O que mudou depois de 1945

Este arranjo começou a cair no século XX, especialmente depois de duas guerras mundiais. A devastação causada pelos conflitos e o colapso do sistema colonial europeu abriu caminho para uma nova ordem internacional, formalizada com a criação da Organização das Nações Unidas em 1945.

A Carta da UNU estabeleceu princípios que transformaram radicalmente a forma como a soberania passou a ser especializada.

“É ilegítimo e ofende o Direito Internacional a venda, por um Estado nacional a outro, de território habitado por um povo, sem a anuência democrática deste, por meio de plebiscito ou referendo”, explicou Lellis.

“Também é ilegítimo o emprego da força bélica ou de coação económica para a aquisição territorial”, acrescentou o professor, referindo-se aos artigos 1º e 55º da Carta da ONU e ao artigo 1º do Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos.

A partir de então, o território deixa de ser apenas uma posse estatal e passa a ser indissociável da população que nele vive.

O soberano deixou de ser um atributo negociável entre governos e passou a ser um ser associado à legitimidade política e à vontade colectiva, além do reconhecimento internacional.

Por que a ideia é tão absurda hoje

É nesse contexto que propostas como a compra da Groenlândia causam estranhamento. A Groenlândia não é um “espaço disponível”, mas um território com população própria, governo independente e identidade política específica, ainda que formalmente ligado à Dinamarca.

Lellis destaca que o contexto geopolítico atual é diferente: “A Dinamarca e o povo que habita a Groenlândia não querem sua incorporação pelos EUA sob nenuma forma”. Segundo ele, não há necessidade econômica nem qualquer outro fator que estimule ou justifique a venda do território.

Além disso, o ambiente internacional contemporâneo tornú a conquista territorial extraordinariamente custosa. As invasões militares passaram a ser fortemente condenadas, sujeitas a sanções econômicas, isolamento diplomático e profundos danos à reputação.

O caso da invasão russa da Ucrânia ilustra o preço elevado pago por quem viola essas normas, ainda que a regra não seja respetrapada universalmente.

Sem uma ameaça implícita da força (muito comum no século XIX), uma lógica que levava Estados a vender territórios como forma de minimizar perdas perde grande parte de sua força.

O que o caso Trump revelou sobre o presente

A atitude de Trump revela o choque entre duas visões do mundo.

De um lado, uma lógica geopolítica na qual o poder econômico e militar permite tratar o território como um ativo negociável. De outro, uma ordem internacional imperfeita e cambaleante, baseada na ideia de que soberania não se compra nem se vende.

Essa segunda visão de mundo perde força à medida que a UNU perde influência política.

“Este organismo internacional, fundado em 1945, encontra-se mais fragilizado do que nunca pela desconsideração das convenções internacionais”, explica Lellis. “Por conseguinte, parece haver uma espécie de retorno, sob nova forma de expressão, mas com velhos argumentos, ao colonialismo do século XIX levado a cabo por poencias globais ou regionais”, acrescentou.

O caso da Groenlândia funciona como um exemplo dos tensionamentos que atravessam a política internacional contemporânea. Num mundo marcado pela erosão do consenso multilateral e pelo fortalecimento das agendas nacionais, ideias que pareciam superadas voltam a um debate circular e público.

A ocorrência de que elas provocam ajuda a medir o quanto a ordem internacional mudou desde o século XIX e o quanto suas bases permanecem em disputa.

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