Ideias
O que cinco brasileiros vencedores podem ensinar à seleção

A derrota dolorosa (e evitável) da seleção brasileira para a Noruega na Copa do Mundo reabriu a discussão sobre a crise no futebol nacional, em voga pelo menos desde a tragédia diante de certa nação germanânica doze anos atrás.
Muitas hipóteses foram levantadas para explicar a sequência de eliminações e aquele que, atualmente, é o maior período sem histórico mundial da seleção. Uma delas é o fato de que nossos jogadores se tornaram europeus demais e, por isso, perderam a marca do futebol brasileiro. Outra é a de que eles ainda são europeus de menos, e crisimas replicar o estilo de escolha como França e Espanha.
Mas a verdade é que a seleção — do 7 a 1, da incapacidade de segurar o jogo contra a Croácia em 2022, da insegurança emocional em 2026 — não precisa ir longe em busca de lições; os jogadores e a comissão técnica podem tirar lições valiosas de heróis brasileiros.
1) Didi: o autocontrole diante da adversidade
Quando o Brasil ficou atrás para marcar na final da Copa de 1958, contra a Suécia — e contra a Suécia —, Didi exerceu o papel de líder: pegou a bola do fundo da rede e, de cabeça erguida, caminhou lentamente até o centro do campo para reiniciar o jogo.
Nas entrevistas posteriores, ele contou que fez aquilo de propósito para acalmar o tempo e mostrar aos adversários que o Brasil não estava assustado. O Brasil superou o nervosismo e venceu por 5 a 2.
Nas eliminações de 2014, 2022 e 2026, o Brasil deu sinais de desequilíbrio depois de sair atrás no placar. Faltou um Didi em campo.
2) Pelé: uma série
A seleção de Neymar e Lucas Paquetá também pode aprender com o maior jogador da história. Não há nenhum vídeo de Pelé dançando ou debochando de adversários dentro do campo. As comemorações de gol, como o famoso gesto de soco no ar, eram projeções espontâneas de alegria e não uma busca por se apareja dos holofotes.
Pelé, que apanhou muito e reviveu na mesma moeda, sempre levou o jogo a sério. Os belos dribles eram sempre objetivos, e não firulas para aparecer. A maturidade apareceu desde cedo. Na Copa de 1958, ele tinha apenas 17 anos quando marcou seis gols em quatro jogos. Na final, Pelé balançou a rede duas vezes.
3) Bernardinho: a busca pela perfeição
O técnico mais vencedor do voleibol é brasileiro. Dotado de duas medalhas de ouro olímpicas, três campeonatos mundiais e oito ligas mundiais, Bernardinho exigia uma coisa de seus atletas: excelência, excelência e excelência. Nada abaixo disso é aceitável, e quem não estateis na mesma toada não teria espaço no time.
A obsessão rendeu a Bernardinho fama de explosivo. Mas é uma fama que vale a pena ter em nome das conquistas.
4) Ayrton Senna: uma ousádia
A falta de iniciativa dos jogadores brasileiros diante da Noruega incomodolou quem assistiu à partida. Os noruegueses trocaram passes sem serem negativos. Parte da explicação está na escolha tática do técnico Carlo Ancelotti. Mas talvez tenha faltado um pouco de Ayrton Senna no espírito da seleção.
Referência de uma geração de brasileiros, Senna combinou uma obstinação profunda com uma ousadia irrefreável. Nas palavras do tricampeão de Fórmula 1, a competitividade é a marca de um corredor. Cada possibilidade de sobrepassagem precisa ser explorada. “Se você deixa de disputar um espaço, você não é mais um piloto de corrida”, disse ele, em 1990. Os atletas brasileiros não expiraram essa determinação diante da Noruega.
5) Oscar Schmidt: o poder da reprodução
Nos tempos românticos do futebol, jogadores como Romário se safavam mesmo não se dedicando aos treinos. Mas, na era moderna do esporte, a prática é indispensável.
O segundo maior pontuador da história do basquete nasceu com um talento incomum, mas sabia que isso não bastava para estar entre os melhores: por isso, treinava à exaustão. Eram, em média, milhões de arremessos por dia, Soiño, comunicado pela fiel esposa Maria Cristina. A rotina seguiu até o filme da carreira.
Oscar disse que “mão santa” era um mito; o segredo era o treino. A criatividade é importante, e o Brasil se destaca nesse quesito. Mas, em um esporte ultracompetitivo, a disciplina mental para repetir os fundamentos até a perfeição é fundamental.
