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O futuro mais promissor de James Bond pode estar nos videogames; entenda

Desde sua criação, há quase 75 anos, o agente secreto britânico James Bond provou ser impossível de matar. Não literalmente, é claro, já que a morte do herói fictício foi mostrada nas telas na despedida de Daniel Craig do papel, em 007: Sem Tempo para Morrer (2021). Mas, como conceito, o homem de codinome 007 é imortal, destinado a sempre ressurgir para servir ao rei e ao país.
Ainda assim, a maior ameaça a Bond nunca foi exatamente a mortalidade, mas sim a máquina de Hollywood, que o manteve preso a uma fórmula. Após 25 filmes principais — sem contar paródias licenciadas ou refilmagens —, a franquia provou ser interminável. Bond sempre volta, mas a grande dúvida passou a ser quando e de que forma isso aconteceria.
Em 2021, a Amazon adquiriu a MGM, detentora dos direitos de distribuição dos filmes, alimentando a esperança dos fãs de que o intervalo entre os lançamentos diminuísse. Ao mesmo tempo, cresceu o receio de que a gigante do streaming transformasse a marca em uma fábrica de conteúdo. Nos cinco anos seguintes, porém, o progresso foi lento, já que a produtora de longa data Barbara Broccoli entrou em conflito criativo com os novos donos do estúdio. No ano passado, Broccoli deixou o comando da franquia — função que havia herdado de seu pai, Albert R. Broccoli, nos anos 1990 —, chegando a chamar os executivos da Amazon de “idiotas do c******” durante o processo.
Embora um novo filme esteja em desenvolvimento, com Denis Villeneuve, diretor de Duna, na direção, a próxima aventura de Bond ainda deve demorar alguns anos para chegar. A busca oficial pelo novo intérprete do personagem começou apenas recentemente. Felizmente, Bond nunca dependeu de uma única solução: sempre existe outro caminho. Em meio ao que deve se tornar o maior hiato da história da franquia nos cinemas, um novo jogo de 007 pode ser exatamente o alívio de que os fãs precisam.
Desenvolvido pelo estúdio dinamarquês IO Interactive, 007 First Light marca o retorno de Bond aos videogames 14 anos após seu último grande lançamento, 007 Legends, de 2012. Mas, ao contrário daquele título — e de muitos anteriores —, esta versão não é baseada em nenhum filme ou na aparência de um ator específico. Em vez disso, busca contar uma história totalmente inédita e imersiva, capaz de se sustentar por conta própria, com um nível de produção moderno que finalmente corresponde às ambições cinematográficas da série.
Pelo tempo que passamos com o jogo, 007 First Light parece ser mais do que apenas um passatempo para preencher o intervalo entre os filmes. Ele pode representar o modelo ideal de como viver a experiência James Bond para os fãs mais dedicados.
Um novo começo
Embora a franquia seja conhecida por sua capacidade de se reinventar constantemente, James Bond só passou por um verdadeiro reboot em poucas ocasiões. Após 20 filmes, 007 Cassino Royale (2006) apresentou uma história de origem completa para o espião, rompendo com a continuidade — bastante frouxa — das produções anteriores. Duas décadas depois, 007 First Light faz algo semelhante, mas vai ainda mais longe: em vez de mostrar apenas a primeira grande missão do agente, apresenta um Bond que sequer concluiu o treinamento básico de espionagem.
O jogo começa com uma missão de resgate que dá errado. Um jovem piloto da Força Aérea Britânica chamado James Bond sobrevive à queda de sua aeronave em território inimigo. Cercado por destroços e chamas, ele precisa encontrar outros sobreviventes enquanto recebe instruções, por meio de um ponto eletrônico, de um controlador cuja identidade desconhece. Bond não sabe quem está falando com ele — nem sequer entende qual é exatamente sua missão —, mas está determinado a sair vivo dali. Naturalmente, isso significa ignorar as ordens que recebe.
Uma das características mais marcantes de Bond sempre foi sua disposição — e até seu prazer — em quebrar as regras. Ao criar sua própria versão do personagem, os desenvolvedores da IO Interactive decidiram enfatizar essa insubordinação como parte da jogabilidade, relacionando-a à juventude desta encarnação do espião.
“Quando pensamos em Bond, já existem duas versões dele”, explica o produtor Theuns Smit à Rolling Stone. “Existe Bond, o homem, e existe o 007, o agente secreto. Ao longo dos livros e filmes, essas duas facetas às vezes entram em conflito. Ele tem motivações pessoais, mas o trabalho exige mais dele, e ele precisa deixá-las de lado para cumprir sua missão. Essa tensão torna o personagem extremamente interessante e complexo.”
Voltar ao início da carreira do personagem permitiu aos desenvolvedores retratá-lo de forma mais vulnerável do que o habitual. Ele é competente, mas também comete erros.
“Com o nosso Bond“, acrescenta Smit, “queríamos criar uma história de origem reinventada que nos permitisse adicionar um terceiro pilar à dinâmica do personagem: a juventude. Seu entusiasmo, sua energia, sua atitude de quem faz acontecer. Ele ainda não foi marcado por tantas experiências; existe certa ingenuidade e um frescor típicos da idade.”
A impulsividade é uma característica essencial de Bond, mas ela não teria o mesmo impacto sem o carisma que sempre definiu o personagem.
“Ele é um cara descolado, sabe dizer a coisa certa na hora certa para qualquer pessoa”, afirma o diretor de jogabilidade Andreas Krogh. “É competente do seu próprio jeito e não tem medo de ser quem é. Ele sempre diz ‘Bond, James Bond‘, mesmo quando deveria estar disfarçado.”
Como parte da visão dos desenvolvedores, esta nova versão de 007 precisava ter uma personalidade própria. Um protagonista silencioso ou uma simples recriação digital de intérpretes anteriores não seria suficiente; o personagem precisava ser construído do zero para existir lado a lado com suas versões cinematográficas. Isso significou escalar o primeiro novo ator para viver James Bond desde Daniel Craig.
Você não pode simplesmente imitar Bond
Fora personagens clássicos dos quadrinhos, como Batman, poucos conseguiram permanecer tão relevantes na cultura popular a ponto de transcender os atores que os interpretaram quanto James Bond. Cada geração tem o seu próprio 007, e sempre se espera que um novo nome assuma o papel.
“Bond é uma dessas figuras com as quais todo mundo cresceu. Não importa a sua idade, você sempre cresceu com algum Bond“, afirma Andreas Krogh.
Para boa parte da equipe criativa de 007 First Light, incluindo Krogh e o produtor Theuns Smit, o Bond definitivo é Pierce Brosnan. Eles apenas pertencem a essa geração. Mas passar o bastão faz parte da responsabilidade de quem trabalha com a franquia, e isso é levado muito a sério. “Lembro que era bem novo quando descobri que existiam outros Bonds”, acrescenta Smit.
Seja pelo sentimento de posse dos fãs ou pela maneira particularmente cruel como a imprensa britânica costuma tratar o assunto, escalar um novo James Bond sempre foi um processo delicado. Atores apontados pelos fãs para o papel passam anos respondendo, em entrevistas, sobre um trabalho que muitas vezes nunca lhes foi oferecido. Até escolhas oficiais, como Daniel Craig — que mais tarde se tornaria um dos intérpretes mais queridos da franquia —, enfrentaram zombarias da imprensa muito antes de aparecerem nas telas.
Embora a IO Interactive esteja sob um nível menor de escrutínio por trabalhar em um videogame, a escolha do protagonista era igualmente decisiva. Afinal, os jogadores precisam gostar daquele Bond o suficiente para passar mais de 20 horas ao seu lado, e não apenas o tempo de duração de um blockbuster.
A equipe encontrou seu protagonista no ator irlandês Patrick Gibson, conhecido por interpretar a versão jovem do serial killer Dexter Morgan na série Dexter: Original Sin. Tecnicamente, Gibson está na faixa etária tradicional do personagem. Aos 31 anos, ele fica entre George Lazenby (29 em seu único filme como Bond) e Sean Connery (32 em sua estreia, 007 Contra o Satânico Dr. No). Mas, no jogo, interpreta um Bond ainda mais jovem.
Em 007 First Light, Bond tem 26 anos — exatamente a idade do personagem em sua primeira aparição, no romance Cassino Royale, de Ian Fleming, publicado em 1953. Essa energia juvenil foi um dos fatores que garantiram o papel a Gibson.
“Quando encontramos Patrick Gibson — ou Paddy, como o chamamos — percebemos que ele era um cara incrível. Ele traz muito carisma, energia e paixão para o trabalho e conseguiu dar vida às palavras do roteiro”, diz Smit. “Durante o processo de testes, alguns atores pareciam estar apenas fantasiados de James Bond. Quando Paddy entrou em cena, foi como se ele realmente tivesse se transformado em James Bond.”
Para interpretar o personagem, Gibson revisitou extensivamente o material original antes de, segundo ele, “jogar tudo fora”. Embora sua versão favorita de Bond seja a de Daniel Craig, o ator preferiu se concentrar nos pilares filosóficos do personagem, em vez de simplesmente reproduzir interpretações anteriores.
“É muito difícil definir exatamente qual é o DNA de Bond, o que faz dele diferente do herói de ação típico que vemos em tantos filmes”, afirma Gibson. “É algo quase intangível. Bond vive em um mundo cheio de contradições. Existe uma escuridão muito real na missão de salvar o mundo. Uma coisa que me marcou foi a ideia do sacrifício. Por causa de sua origem e da forma como foi criado, ele é alguém que sente que não tem nada a perder. Isso faz dele um herói muito poderoso.”
Construindo um jogo de James Bond melhor
Embora 007 já tenha estrelado diversos videogames, apenas alguns realmente se destacaram ao longo das décadas. Depois de uma série de títulos medianos para consoles de 8 bits no fim dos anos 1980 e início dos anos 1990, o grande divisor de águas veio com GoldenEye 007, lançado para Nintendo 64 em 1997.
Baseado no filme estrelado por Pierce Brosnan em 1995, GoldenEye 007 tornou-se um marco dos jogos de tiro em primeira pessoa. Seu sucesso, porém, estava mais ligado à excelente jogabilidade do que à fidelidade ao universo de Bond.
A partir dali, o padrão ficou elevado, mas mesmo os melhores jogos do agente exploraram apenas superficialmente a fantasia de viver como um espião. Para a IO Interactive, conhecida pela série Hitman, cuja jogabilidade privilegia infiltração, manipulação e quebra-cabeças psicológicos em vez de tiroteios, era essencial seguir outro caminho.
“Acho que muitos jogos anteriores de Bond focavam principalmente na ação, o que obviamente é importante”, diz Krogh. “Existem enormes tiroteios e cenas exageradas, mas nós também tivemos a oportunidade de explorar o lado social da fantasia, como Bond entrando em um cassino em um filme. Toda aquela experiência de conversar diretamente com a Bond Girl ou com o vilão, trocar algumas palavras e depois partir para uma sequência de ação que inevitavelmente leva a um novo encontro. Sabíamos que conseguiríamos criar esses momentos usando as ferramentas e a experiência que adquirimos com Hitman.”
Na série Hitman, a estrutura da jogabilidade normalmente coloca o jogador em um local exótico com a missão de encontrar e eliminar um alvo. É preciso observar o ambiente, identificar padrões de comportamento e aproveitar oportunidades contextuais para agir sem ser notado, criando uma elaborada sequência de acontecimentos que culmina na eliminação do alvo.
Em 007 First Light, uma versão mais acessível dessa fórmula de interação social permite ao jogador fazer muito mais do que apenas lutar.
Em uma das primeiras missões, Bond sai para aproveitar a noite com seus colegas de treinamento quando surge uma missão inesperada. O jogador precisa atravessar uma boate lotada para coletar informações, primeiro identificando corretamente seu contato e depois invadindo remotamente um celular para se passar por um traficante de armas.
Embora o objetivo seja claro, existem diversos caminhos para alcançá-lo. Bond pode escutar conversas privadas em busca de informações ou conversar com as pessoas mais ingênuas do ambiente. Os diálogos são dinâmicos e oferecem diferentes respostas, mas as decisões precisam ser tomadas antes que um cronômetro visual termine. Essa liberdade para interpretar o personagem é um dos elementos que diferenciam 007 First Light dos jogos anteriores da franquia.
“Bond é o tipo de sujeito que você coloca em qualquer situação impossível e, ainda assim, ele consegue sair por cima”, explica Smit. “Isso significa que ele pensa rápido, enxerga soluções fora do óbvio e improvisa o tempo todo. Ele usa tudo ao seu redor, e isso se traduz diretamente na jogabilidade. É um mestre da manipulação, capaz de sair de qualquer situação complicada apenas conversando.”
Smit destaca um recurso chamado “blefe”, que diferencia 007 First Light dos jogos anteriores de Bond. Se o jogador for pego em uma área restrita, existe uma pequena janela de tempo para iniciar um diálogo e tentar convencer o segurança de que tudo está sob controle. Nem sempre funciona. Mas, se der errado, também é possível pegar um telefone e acertá-lo na cabeça do adversário ou usar um pulso eletrônico para cegá-lo temporariamente. O nível de detalhes presente em cada encontro surpreendeu até o próprio Patrick Gibson.
“Já tivemos vários jogos de James Bond, claro, mas estar no banco da frente, vivendo tudo ao lado dele, era algo extremamente empolgante só de ler no roteiro”, afirma o ator. “Como jogador, existe uma enorme sensação de realização de fantasia. Toda vez que eu perguntava aos diretores: ‘Eu vou poder fazer isso? Posso entrar naquele caminhão de lixo, dirigir e atravessar os portões?’, a resposta era sempre: sim.”
Um futuro mais promissor para os fãs
Embora a franquia de filmes tenha ganhado novo impulso recentemente, a era moderna de James Bond foi, em grande parte, marcada por uma longa espera para os fãs. Saciar essa expectativa é um dos maiores trunfos de 007 First Light, e o jogo faz isso de maneiras que apenas os videogames conseguem oferecer. Assim como os romances originais de Ian Fleming, que frequentemente se demoravam em descrições quase turísticas de lugares exóticos e em reflexões sobre o que tornava um relógio ou um carro de luxo realmente especial, o mundo do jogo foi feito para ser apreciado sem pressa.
Ter controle do personagem significa poder vasculhar o apartamento de Bond em Londres para conhecer seus pertences pessoais, provocar seus colegas de apartamento por causa de um romance que está começando e dirigir carros luxuosos — não apenas em perseguições em alta velocidade, mas também preso no trânsito enquanto leva um colega até um pub. Tradicionalmente, momentos cotidianos como esses seriam vistos como pouco empolgantes, mas aqui eles ajudam a construir uma fantasia muito mais completa. Ser James Bond é divertido até mesmo fora das cenas típicas de um filme de ação.
Mas o que 007 First Light realmente oferece é uma alternativa à incerteza em torno do futuro da franquia. Ao combinar o espetáculo visual e a adrenalina dos filmes com uma visão mais íntima e detalhada da rotina de Bond — algo antes explorado principalmente nos livros —, esta nova versão do agente entrega mais de tudo e talvez não dependa apenas de lançamentos espaçados para satisfazer os fãs.
“Uma coisa que começou a nos empolgar durante o desenvolvimento foi justamente essa ideia de que, quando você está no cinema, passa cerca de duas horas com um personagem e, de certa forma, se coloca no lugar dele. Poder fazer isso durante 15 ou 20 horas é algo realmente emocionante”, afirma Patrick Gibson. “Os videogames têm a oportunidade de proporcionar uma experiência narrativa incrivelmente imersiva.”
Em muitos aspectos, o desenvolvimento de jogos AAA já se parece com Hollywood, com ciclos de produção cada vez mais longos e orçamentos gigantescos (alô, GTA VI). Mas, embora um projeto ambicioso como 007 First Light possa exigir investimentos comparáveis aos de um grande blockbuster, a experiência oferecida vai muito além de uma única sessão. Com cerca de 20 horas apenas na campanha principal, o jogo coloca o jogador na pele de Bond por um período igual ou até superior ao tempo total que muitos atores passaram interpretando o personagem no cinema. E isso antes mesmo da chegada de modos extras ou futuras expansões em conteúdo para download.
A equipe da IO Interactive evita confirmar que uma sequência já esteja em desenvolvimento, mas deixa no ar a possibilidade de novas aventuras.
“O lado bom do desenvolvimento de jogos é que a primeira versão costuma ser a mais demorada, por causa de todo o investimento inicial e da fase de experimentação. Depois disso, tudo tende a fluir de maneira mais rápida e eficiente”, explica Theuns Smit ao comentar um possível futuro da franquia.
Em vez de pensar apenas em uma continuação completa daqui a alguns anos, o estúdio pretende aproveitar uma vantagem exclusiva dos videogames: o suporte contínuo por meio de novos conteúdos.
“Somos uma mídia diferente do cinema. Podemos fazer muito mais do que lançar apenas um grande projeto de cada vez”, diz Andreas Krogh. “Em Hitman, continuamos oferecendo suporte após o lançamento, criando missões inéditas em cenários já existentes, com novas situações e desafios. Queremos fazer a mesma coisa com Bond. A experiência não termina no lançamento. Continuaremos adicionando conteúdo, então os jogadores não precisarão esperar pelo próximo jogo de James Bond.”
No mínimo, o retorno de 007 aos videogames demonstra que a franquia ainda pode continuar se reinventando para além das telas do cinema. “Existem tantas camadas diferentes nessa fantasia de poder que é ser Bond”, conclui Smit.
007 First Light já está disponível para PlayStation 5, PC e Xbox Series X|S.
