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Milly Alcock brilha em um ‘Supergirl’ que tenta esterilizar a rebelde heroína

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Ao ser brevemente apresentada em Superman, longa de estreia do novo Universo Cinematográfico da DC (DCU), a Supergirl pegou muitos fãs de surpresa por ser um tanto diferente de representações anteriores: ela não era nada asseada, como a versão de Melissa Benoist na série exibida entre 2015 e 2021, e muito menos heróica, como foi interpretada por Sasha Calle em The Flash (2023).

Descabelada, vinda de uma balada em outro planeta ainda bêbada e sem nenhuma preocupação aparente, ao contrário de seu primo, que havia acabado de salvar o mundo de um plano de destruição de Lex Luthor, a personagem apresentava um ineditismo interessante e muito bem-vindo nessa nova fase da franquia cinematográfica.

No entanto, infelizmente, isso não durou muito. Em Supergirl, que chega aos cinemas brasileiros a partir desta quinta-feira (25), tudo parece caminhar para criar uma versão família da heroína, pronta para se juntar à patota do Superman e, juntos, proteger Metrópolis e o mundo, perdendo o que havia de mais atraente na personagem — a rebeldia, a independência e, principalmente, a sua força, literal e figurativamente — no processo.

Milly Alcock brilha em um Supergirl que tenta esterilizar a rebelde heroína; leia a crítica (Divulgação/DC Studios)

Na novidade, Kara acaba de completar 23 anos e, sem ideia do que quer para a própria vida e totalmente despreocupada em ser heróica como o primo famoso, vive de planeta em planeta procurando novas formas de se divertir. Porém, quando o seu cãozinho de estimação, Krypto, é colocado em risco, ela acaba se envolvendo em um plano de vingança de uma inesperada companheira e precisa fazer a Supergirl ressurgir para salvar a última lembrança de sua antiga vida.

Introduzida ao mundo em A Casa do Dragão, série derivada de Game of Thrones, antes de conquistar o cobiçado papel no DCU, Milly Alcock é, certamente, o destaque de Supergirl. A atriz parece ter assimilado bem a personagem e aparece confortável na tela, fazendo com que o espectador se apaixone rapidamente por ela. Porém, o roteiro não a trata com a dignidade que merecia.

O filme até começa bem, resgatando a Supergirl introduzida em Superman, que não busca ser um modelo de heroismo como o seu primo. Ele se torna ainda melhor quando flerta com temas como luto, trauma e a busca por pertencimento da protagonista, tirada da única vida que conhecia para ser a última esperança do seu povo, o que rende um drama familiar emocionante, perfeitamente conduzido por Alcock.

Porém, a resolução desses questionamentos é tão fraca que diminui o seu impacto. Ao final, Kara parece se conformar, mesmo desconfortável com a decisão, baseada em uma promessa que nunca a vemos selar na tela, e isso acaba agindo contra a personagem, porque passa a sensação de que a ideia é transformá-la em um modelo maniqueísta de super-herói, jogando todas as complexidades que a tornariam únicas para debaixo do tapete.

Milly Alcock brilha em um Supergirl que tenta esterilizar a rebelde heroína; leia a crítica (Divulgação/DC Studios)

Também não ajuda o fato de que a personagem, que tem poderes similares aos do Superman, parece absurdamente fraca no filme. É inacreditável que uma briga contra um inimigo tão comum, com zero habilidades especiais, perdure por tanto tempo, quando a Supergirl é, praticamente, uma deusa. Essa enrolação acaba resultando em uma série de subtramas que, apesar de divertirem às vezes, como a sequência no ônibus espacial, parecem estar ali apenas para preencher as duas horas de tela.

Além disso, a personagem parece nunca atingir o pico de seus poderes e, em certos momentos, Ruthye Marye Knoll (Eve Ridley, O Problema dos 3 Corpos), a sua inesperada companheira de viagem em busca de vingança, e o egocêntrico Lobo, na pele de um Jason Momoa interpretando a si mesmo pela enésima vez, parecem mais habilidosos do que a super-heroína, roubando o seu protagonismo

Supergirl é um bom passatempo — e nada mais do que isso. Com escolhas duvidosas, a produção desperdiça a oportunidade de fazer a protagonista brilhar e, ao se acovardar, esteriliza a heroína para adequá-la aos padrões familiares que essa nova fase da DC nos cinemas parece buscar. Uma pena, porque a Supergirl poderia ser muito mais do que apenas a prima do Superman. Mas isso não vai acontecer. Ao menos, não agora.

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