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Máscara de 500 anos mostra Mictlantecuhtli, o deus asteca retratado pronto para agarrar e despedaçar os mortos
Olhos fundos, dentes expostos e manchas que lembram a decomposição transformam esta máscara de madeira em uma imagem inquietante. Produzida há cerca de 500 anos, ela representa Mictlantecuhtli, o senhor mexica do mundo dos mortos, mas também revela uma crença menos óbvia: para os astecas, morte e criação faziam parte do mesmo ciclo.
A máscara representava o senhor do submundo
Datada aproximadamente de 1450 a 1521, a peça mede 17,2 por 14 centímetros e pertence ao acervo do Walters Art Museum, em Baltimore. Ela foi esculpida e pintada para representar Mictlantecuhtli, divindade que governava Mictlán ao lado de Mictecacíhuatl, conhecida como a senhora dos mortos.
O rosto foi modelado como um crânio, com nariz triangular, pupilas escuras e linhas pretas separando os dentes. Análises do museu também identificaram pequenos círculos avermelhados nas bochechas. Os especialistas interpretam essas marcas como sinais de decomposição, semelhantes aos vistos no Códice Borgia.
A peça provavelmente não cobria um rosto humano
Máscaras tinham papel importante nos rituais mexicas porque permitiam representar ou incorporar simbolicamente uma divindade. No entanto, esta peça não possui aberturas que possibilitariam enxergar através dos olhos. Por isso, pesquisadores do Walters Art Museum consideram improvável que ela tenha sido utilizada diretamente por uma pessoa.
A hipótese mais aceita é que a máscara fosse amarrada a uma estátua, estrutura de madeira ou poste cerimonial. Perfurações nas orelhas também podem ter sustentado adornos. Representações de Mictlantecuhtli frequentemente mostram brincos de ossos, mandíbula exposta e outros elementos associados à decomposição corporal.
Quem seguia para o reino de Mictlantecuhtli?
Mictlán não recebia todos os mortos. Estudos sobre a religião mexica mostram que o destino após a morte dependia principalmente de como a pessoa havia morrido, e não de seu comportamento moral. Em geral, aqueles que morriam por causas naturais enfrentavam uma longa travessia até o domínio de Mictlantecuhtli.
A visão mexica distinguia diferentes destinos após a morte:
- Mortos por causas naturais seguiam para a jornada por Mictlán;
- Guerreiros e sacrificados eram associados ao acompanhamento do Sol;
- Mulheres mortas no parto recebiam uma condição espiritual especial;
- Mortos ligados à água podiam seguir para o domínio de Tlaloc;
- Viajantes de Mictlán enfrentavam obstáculos antes do descanso final.
O Instituto Nacional de Antropologia e História do México descreve Mictlán como um percurso dividido em nove níveis. A travessia podia durar anos e exigia a superação de rios, montanhas e outros perigos simbólicos. No nível final, o morto encontrava o reino governado pelo casal de divindades.
Mictlantecuhtli queria destruir os mortos?
Imagens da divindade frequentemente mostram braços erguidos, garras e uma postura ameaçadora. Algumas interpretações descrevem Mictlantecuhtli pronto para agarrar ou despedaçar aqueles que chegavam ao seu domínio. Essa linguagem visual destacava seu poder, mas não deve ser entendida como o relato literal de um ataque sofrido por todas as almas.
O arqueólogo Michael E. Smith relacionou o culto da divindade a cerimônias que podiam incluir sacrifícios e consumo ritual de carne humana. Pesquisadores alertam, porém, que essas práticas pertenciam a contextos religiosos específicos. Elas não resumem toda a cultura mexica nem explicam, isoladamente, a função desta máscara.
A morte também participava da criação da humanidade
Estudos do arqueólogo Karl Taube destacam o mito em que Quetzalcóatl desce a Mictlán para recuperar os ossos de gerações anteriores. Mictlantecuhtli tenta dificultar a missão ao exigir que uma concha sem abertura seja tocada como trombeta, mas o desafio é superado com a ajuda de pequenos animais.
Depois de recuperados, os ossos são triturados e recebem o sangue dos deuses, dando origem à humanidade do mundo atual. A máscara, portanto, não representa somente medo e decomposição. Ela recorda que, para os mexicas, a vida nascia de restos antigos. Preservar e estudar peças assim é urgente para compreender uma visão de mundo em que o fim também guardava um começo.
