Música
Kanye West nega ter obstruído o julgamento de direitos autorais de ‘Hurricane’

Kanye West depôs como testemunha em um julgamento de direitos autorais no centro de Los Angeles nesta quarta-feira, 6. O artista, agora conhecido como Ye, mostrou sinais visíveis de irritação.
Quando o advogado dos demandantes, que alega que Ye deve mais de meio milhão de dólares por suposta violação de direitos autorais relacionada à sua música vencedora do Grammy, “Hurricane”, o cumprimentou após o intervalo para o almoço com um “Boa tarde”, o artista o encarou em silêncio, sem responder. Questionado se havia trocado repetidamente de advogados e representantes de licenciamento entre 2022 e 2023, o que dificultaria o contato, Ye respondeu em tom monótono, repetindo várias vezes: “Não me lembro” e “Não recordo”.
Ye pareceu se soltar visivelmente quando seu próprio advogado assumiu o interrogatório. Questionado sobre o que o inspirou a fazer música, ele disse que foi “ver Michael Jackson na TV”.
Ao descrever seu processo criativo, Ye disse que a inspiração “pode vir de mim simplesmente cantando no chuveiro” ou de um sample enviado por outro produtor. Ele afirmou que retrabalha suas músicas incessantemente, passando por inúmeras versões até ficar satisfeito.
“É difícil, mas é terapêutico, porque quero entregar o melhor produto possível ao público e aos meus fãs”, testemunhou, vestindo um terno bege escuro e uma camisa social combinando com um brilho iridescente. Ele chegou ao tribunal federal acompanhado por vários seguranças vestidos de preto, que se posicionaram dentro e fora do tribunal.
A Rolling Stone estava presente durante parte do depoimento de Ye, enquanto a Billboard acompanhou o momento em que o rapper insistiu que ele e sua equipe “seguiram o processo normal” para obter a autorização para o sample de “MSD PT2” usado na versão inicial de “Hurricane“, tocada em seu evento de audição para dezenas de milhares de fãs no Mercedes-Benz Stadium, em Atlanta, em 22 de julho de 2021.
Ele negou ter obstruído o processo ou deixado de compensar de forma justa os quatro músicos responsáveis por “MSD PT2“, afirmando que se considera uma pessoa altamente colaborativa. “Tenho orgulho de dar às pessoas o que elas merecem”, testemunhou.
“Sinto que muitas pessoas tentam se aproveitar de mim”, disse Ye ao júri, segundo a Billboard. “Enquanto estou sentado neste tribunal hoje, penso que as pessoas estão tentando ganhar mais do que ganhariam normalmente só porque sou eu.”
Ye foi chamado a depor no terceiro dia do julgamento que o coloca contra a Artist Revenue Advocates (ARA), empresa do Texas formada para lutar em nome dos quatro compositores de “MSD PT2”. Durante as alegações iniciais, o advogado do autor principal afirmou que Ye deve US$ 564.046 em indenização pelo uso não autorizado da amostra gravada no estádio de Atlanta. O valor inclui uma porcentagem da venda de ingressos, vendas de produtos, o contrato de streaming de Ye com a Apple Music e uma parte da receita da jaqueta que ele usou no palco e lançou um dia depois por meio de sua colaboração Yeezy com a Gap.
Os quatro músicos — Khalil Abdul-Rahman, Sam Barsh, Dan Seeff e Josh Mease — concordaram em transferir seus direitos autorais para a ARA, “para que pudessem buscar justiça”, escreveram seus advogados em documentos judiciais. A ARA entrou com um processo inicialmente por causa da gravação de áudio sampleada de “MSD PT2”, tocada no evento de audição de Ye em Atlanta, e pela composição subjacente da faixa instrumental de um minuto, que alegou ter sido interpolada indevidamente na versão final de “Hurricane”, lançada em agosto de 2021.
Em fevereiro, porém, o juiz rejeitou as reivindicações de composição potencialmente mais lucrativas, decidindo que os músicos haviam assinado contratos anteriores cedendo seus direitos autorais de composição sob acordos que permaneciam em vigor. Os músicos tentaram argumentar que esses acordos haviam sido renunciados por meio de negociações verbais com antigos sócios, mas o juiz determinou que quaisquer alterações desse tipo deveriam ser feitas por escrito.
Britton Monts, gerente da ARA, testemunhou na terça-feira que a empresa foi criada para “adquirir direitos autorais de músicos profissionais” que “não conseguem exercer seus direitos” porque “não têm condições financeiras para isso”. Ele afirmou que a ARA esperava dar prosseguimento a outros casos, mas reconheceu que o processo contra Ye era o único da empresa até então.
Em sua declaração inicial, o advogado principal de Ye, Eduardo Martorell, sugeriu que a ARA estava sendo financiada por um investidor que tentava ocultar sua identidade. “Quem está por trás disso?”, perguntou Martorell aos jurados. “Não sabemos quem é o dono, porque eles não nos dizem. Por que não processar em seu próprio nome?”
Martorell também disse aos jurados que os quatro músicos receberam, de fato, créditos de composição na versão final de “Hurricane”. Ele afirmou que eles constavam entre os 27 compositores da música no Spotify e no Apple Music, e que a participação conjunta deles nos direitos autorais da composição era de cerca de 30%. Após a divisão desses direitos autorais com as editoras, cada músico recebeu uma parte correspondente a 3,85% como compositor, explicou.
Em seu depoimento na terça-feira, 5, Seeff alegou ter recebido apenas “alguns pequenos pagamentos” relacionados à música, apesar de seu sucesso comercial. Ele também disse aos jurados que era prática comum na indústria musical que os compositores de música instrumental recebessem 50% dos direitos autorais da composição, com os 50% restantes divididos entre os compositores da melodia e da letra.
O julgamento será retomado nesta quinta-feira, 7.
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