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Guimarães Rosa: A Vida Mística Entre Escapadas da Morte e Premonições Fatais

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João Guimarães Rosa, um dos mais reverenciados nomes da literatura brasileira, teve uma trajetória de vida marcada por eventos que se entrelaçam com o destino e o sobrenatural. Sua existência foi pontuada por escapadas da morte e premonições que, de forma enigmática, se concretizaram, conferindo uma aura de mistério ao seu legado.

Sobrevivências Inesperadas e Intervenções do Destino

Uma das histórias mais emblemáticas ocorreu em 1941, durante sua atuação como cônsul-adjunto do Brasil em Hamburgo. Uma madrugada, movido pela simples vontade de fumar, Guimarães Rosa saiu para comprar cigarros, momentos antes de um ataque aéreo reduzir seu prédio residencial a escombros. Ao retornar, deparou-se com a destruição e ironizou sobre como o vício, em sua ocasião, havia lhe salvado a vida.

Ainda na Alemanha, Rosa protagonizou outro ato de coragem ao burlar a segurança de um consulado parcialmente destruído por um ataque aéreo. Ele adentrou o edifício em risco iminente de desabamento para resgatar documentos confidenciais de um cofre, saindo ileso instantes antes de o restante da estrutura vir abaixo. Anos mais tarde, em 1958, ele superaria um infarto aos 50 anos. Tais eventos levaram o escritor a confidenciar à sua filha primogênita, Vilma, que "Deus me reservava uma missão. Por isso, salvou-me da morte duas vezes", embora seu biógrafo Leonêncio Nossa afirme que as escapadas foram incontáveis.

Desvendando o Autor: A Biografia Definitiva

Essas e outras facetas da vida de Guimarães Rosa são detalhadamente exploradas na primeira biografia completa dedicada ao autor de 'Grande Sertão: Veredas'. Lançada por Leonêncio Nossa, a obra "João Guimarães Rosa – Biografia", com 736 páginas, oferece um mergulho profundo nas experiências do escritor. Nossa estrutura a narrativa em três partes, ecoando a própria divisão que Rosa fez de sua vida em entrevista: o médico (1908-1938), o diplomata rebelde (1938-1951) e o soldado (1951-1967), enriquecendo a publicação com anexos como linha do tempo e árvore genealógica.

Anteriormente, em 2007, Alaor Barbosa publicou "Sinfonia de Minas Gerais – A Vida e a Literatura de Guimarães Rosa", mas o livro foi retirado de circulação por decisão judicial um ano depois, após a família de Rosa alegar falta de consulta e consentimento. A nova biografia de Leonêncio Nossa, portanto, preenche uma lacuna significativa na historiografia literária brasileira.

A Premonição da Morte e a Posse na ABL

A mais sobrenatural das histórias que envolvem Guimarães Rosa diz respeito a uma profecia cigana sobre sua morte. Supersticioso, o escritor adiou por quatro anos, três meses e oito dias sua posse na Academia Brasileira de Letras (ABL). Eleito em 8 de agosto de 1963, só vestiu o fardão da ABL em 16 de novembro de 1967, pois acreditava que morreria no dia da cerimônia. A premonição, de fato, se cumpriria poucos dias depois.

Despedidas e Últimos Atos

A semana que antecedeu a posse na ABL foi de intensas despedidas. Rosa instruiu sua filha Vilma a enviar os originais de suas obras "Estas Estórias" e "Ave, Palavra" ao editor, caso a premonição se concretizasse. Encontrou-se com a neta Agnes e pediu à pequena Maria de Lourdes, de cinco anos, que não se esquecesse dele. O escritor ainda combinou um sinal com Austregésilo de Athayde, então presidente da ABL: se levasse a mão à testa durante o discurso, a sessão deveria ser suspensa imediatamente, revelando: "Você sabe, talvez seja bobagem, mas o mau pressentimento não me abandona".

No dia da posse, já vestido com o fardão, Rosa expressou grande aflição, confessando ao amigo Geraldo França de Lima: "Não vou", "Vou morrer". Durante o trajeto até a ABL, rezava o terço e pediu ao motorista que desse voltas no quarteirão antes de parar. Chegou a confidenciar a França de Lima: "Não chego a dezembro".

O Discurso Final e o Fim Anunciado

O discurso de posse de Guimarães Rosa, que durou uma hora e quinze minutos, marcou a história com frases como "A gente morre é para provar que viveu" e "As pessoas não morrem, ficam encantadas". Ao chegar em casa, na Francisco Otaviano, em Copacabana, o mais novo imortal desabafou: "Acabou, graças a Deus…". No entanto, o alívio foi efêmero. No domingo, apenas três dias após tomar posse, Rosa começou a passar mal com dores no peito, telefonando para sua secretária e proferindo as palavras finais: "Estou morrendo".

Fonte: https://g1.globo.com

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