Música
‘Doces Bárbaros’ completa 50 anos: o encontro que uniu Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil e Maria Bethânia no mesmo palco

Em 24 de junho de 1976, quatro dos maiores nomes da música brasileira subiram juntos ao palco do Palácio das Convenções do Anhembi, em São Paulo, dando início a uma turnê que se tornaria histórica. Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil e Maria Bethânia formaram os Doces Bárbaros — projeto que depois seguiu para o Canecão, no Rio de Janeiro, e outras capitais — e que resultou em um álbum duplo ao vivo, hoje comemorando 50 anos.
Segundo material enviado à imprensa, o nome do projeto surgiu como uma resposta irônica à maneira como parte da imprensa do eixo Rio–São Paulo tratava a presença baiana na cultura nacional — o jornal O Pasquim havia apelidado o grupo de “baianos”, de forma pejorativa, quase como se fossem invasores. Os quatro artistas transformaram essa acusação em força criativa: a barbárie virou doçura, e a invenção, resposta. Num Brasil ainda sob o regime militar, a liberdade do espetáculo dispensava discursos panfletários, ela estava no corpo, na roupa, na dança e na própria ousadia de ocupar o palco daquela forma.
O repertório do álbum atravessa diferentes linguagens e tradições da música popular brasileira sem perder coesão. “Fé Cega, Faca Amolada”, de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, aproxima os baianos do Clube da Esquina. “Chuck Berry Fields Forever”, de Gil, cruza o rock americano com a diáspora negra e a mitologia afro-brasileira. “Tarasca Guidon”, de Waly Salomão, mergulha na poesia marginal da época, com influências indígenas e africanas na própria construção da língua. Já “Pássaro Proibido”, rara composição de Maria Bethânia em parceria com Caetano Veloso, fala de perigo e vigilância — temas que ressoavam diretamente com a realidade política do país.
A faixa de abertura, “Os Mais Doces Bárbaros”, entra em entrada gradual, como se o grupo viesse chegando de longe para anunciar a própria presença, um arranjo longo e circular que já estabelece a repetição como elemento de transe, uma das marcas centrais do disco. Curiosamente, o título originalmente concebido por Caetano Veloso era “Os Mais Doces dos Bárbaros”, mas um erro de grafia da gravadora consolidou a versão sem a preposição, que se manteve ao longo das décadas seguintes. No segundo disco do álbum duplo, o clima se transforma: faixas como “Esotérico”, cantada por Gal Costa e Maria Bethânia, e “O Seu Amor”, em que os quatro artistas alternam versos para subverter o slogan autoritário “Brasil, ame-o ou deixe-o”, reposicionam o amor como forma de resistência e liberdade afetiva.
“Poucos projetos na história da música brasileira conseguiram reunir tanta força criativa quanto os Doces Bárbaros. Cinquenta anos depois, esse encontro entre Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Maria Bethânia continua impressionando pela liberdade artística, pela coragem de experimentar e pela forma como traduziu um momento muito especial da nossa cultura”, afirma Paulo Lima, presidente da Universal Music Brasil. A capa do disco, criada a partir de fotografia de Orlando Abrunhosa, resume visualmente essa força coletiva: os quatro artistas aparecem deitados, com as cabeças reunidas em um centro comum — quatro identidades distintas formando, por um instante, uma só figura.
+++LEIA MAIS: Ritchie fala à RS sobre nova versão de ‘Voo de Coração’, Steve Hackett, IA e legado
+++LEIA MAIS: Como um poema antigo originou a música de rock mais ouvida da história do Spotify
