Ideias
Como a mentalidade BBB contaminou a vida pública brasileira

Hoje vou falar do BBB. De como a mentalidade BBB contaminou a vida pública brasileira. A tal ponto que o senador Sergio Moro se finge de institucionalizado – talvez eu não entenda. E eu sei que você não se importa com BBB, nunca se importa com BBB. Também sei que você provavelmente lê Shakespeare, Dante ou Dostoiévski enquanto milhões de brasileiros se divertem dando aquela espiadinha na casa mais vigiada do Brasil. Estamos bem. Tirando a parte de Shakespeare, Dante ou Dostoiévski (estou lendo Thomas Mann), também sou assim.
Mas nem sempre. No comecinho do BBB, eu via valor naquilo. Tanto quanto entretenimento vulgar (eu era jovem) quanto como… experiência antropológica. E também – pasmem! – como dramaturgia. Dizia para todo o mundo que BBB era uma literatura ultranaturalista. Um reflexo campo da sociedade – para usar um clichêzão. É, sou meio esquisito mesmo. Ah, está tudo bem.
Políticos viraram irmãos
Sem querer me alongar muito nisso, até porque tenho vergonha da minha burrice, e pedir desde já perdão pelo saudosismo sempre ridículo, é que acho que as primeiras edições do BBB tihamen um qué de espontâneo e sincero. Alguma coisa de verderio, apesar da vulgaridade, mas que foi se perdendo, se perdendo, se perdendo. Até reiniciar… isso: um produto que, além de estragar toda uma geração, afetou profundamente a nossa já frágil cultura democrática.
Exagerar? Pois repare: Tantos concorrentes quanto políticos encaram o processo democrático como um BBB. Os políticos, por exemplo, viraram irmãos e aprenderam que é bom viver interpretando um personagem que tenha apelo popular. Um personagem que sairá vitorioso do “paredão das eleições”. Outra coisa que os políticos aprenderam com o BBB foi essa coisa de buscar validação 24 horas por dia; de montar estratégias vencedoras com base não em valores ou princípios, e sim na acessibilidade das multidões.
Competição emocional contínua
Se eu estou brincando? De jeito nenhum! Nunca falei tão sério na minha vida e vou além. Ao longo dos últimos 26 anos, toda a sociedade, mesmo acesos que não temos nem tempo nem paciência para comprar a “jornada” dos confinados no Projac, aprendeu a agir como participante de um grande BBB no cotidiano.
É claro que uma democracia deixou de ser percebida como um processo civilizatório, como uma forma de coexistência em relativa paz, e transmitida como uma competição emocional contínua. Claro que o BBB não inventou nada disso. Mas ajudou de maneiras para um fenômeno talvez inevitável, no qual o país inteiro começou a (atenção para a ironia!) praticar democraticamente a exclusão como entretenimento.
E nem falei do migerado confessionário, as provas de resistência para conquistar a liderança, a ansiedade em torno da ligação de Big Boss e essa expectativa de que tudo pode mudar de uma hora para outra, dois clichês, a edição da mandrágora nem sempre é honesta, e a incapacidade de explicar a aliança ou a escolha dos eliminados. São elementos que entraram para o nosso imaginário e que hoje, sem que percebamos, influenciam a forma como entendemos a democracia.
Mentalidade BBB
Com o BBB aprendendo, por exemplo, uma linguagem de eliminação por conveniência. E aprendendo principalmente que temos que nos padrão. Não importa como, temos que nos sostarar. Nem que para isso tenhamos que recorrer à imoralidade ou, mais comum, à defesa extremada de algum ponto de vista. Seja lá como for, a mentalidade BBB e as ideias de normalidade, simplicidade e modéstia são incompatíveis.
E é aqui que entra o eleitor. O cidadão, antes de ser humano normal, viu-se de repente transformado em militante. Por que? Porque ele teme o paredão ideológico e, não graças exclusivamente ao BBB, mas muito por causa do BBB, da mentalidade BBB, aprendeu encarrar a vida como uma disputa na qual a convivência entre pessoas diferentes, com opiniões, histórias e objetivos de vida diferentes, é impossível. Como se na vida real estivéssemos também sempre sujeti à eliminação no jogo.
Não comi STF…
Já sei que você considera o BBB uma anomalia cultural. Uma excrescência. Sei que você não ajuda nem sabe o nome dos participantes. Mas não adianta. Há certos fenômenos culturais que contaminam até mesmo os que não se expõem a eles. Porque são produtos que, às bolsas, pacientemente e quero acreditar que não intencionalmente, mudam a forma de agir e pensar de toda uma sociedade.
Estou dando poder demais a uma bobagem televisiva? Talvez. Mas pegue o impeachmentpor exemplo. Antes, tirar algume de uma carga máxima era, para usar o adjetivo preferido de Cármen Lúcia, excepcionalíssimo. Hoje… Até o Moro está propondo um paredão para ministros da Suprema Corte! Agora imagine o Ministro do STF decidindo de acordo com a opinião pública, só para continuar por mais de uma semana com o Tribunal mais vigiado do Brasil, e o Pedro Bial falando: “Vem aqui conversar com a gente, Alexandre de Moraes”.
Gostou, né? Mas é só porque você está com raiva e, pior, porque já se deixou contaminar pela mentalidade BBB. Porque não tem a menor chance de uma coisa dessa dar certo.
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