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Música

Com show poderoso, Megadeth desfruta de seu próprio ‘adeus’ a São Paulo

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“Quando subo no palco, não tenho quatro ou cinco velocidades diferentes. Eu tenho as velocidades ‘zero’ ou ‘tudo no máximo’.” Dá para estender esta declaração de Dave Mustaine, enquanto explicava para a Rolling Stone Brasil, à sua existência como um todo. O vocalista e guitarrista do Megadeth, banda que está se despedindo dos palcos, nunca passou despercebido porque jamais soube como se “dosar”. “Intensidade” é a palavra que define não apenas sua trajetória na posição de pioneiro do thrash metal, mas toda uma vida marcada por excessos, positiva ou negativamente.

Os “excessos positivos” são artísticos. Mustaine faz, desde os tempos de Metallica, um som pesado, acelerado e exagerado. Desenvolveu uma forma única de compor e tocar riffs de guitarra, com direito a uma técnica especial (spider chord) e um verdadeiro arsenal criativo — a ponto de até os álbuns menos inspirados do longo catálogo do Megadeth soarem caprichados nesse sentido.

Mas até a parte boa do exagero cobra seu preço. Mustaine tem deixado claro, em entrevistas recentes, que as atividades do Megadeth serão encerradas após a atual turnê devido a limitações físicas provocadas pelas décadas na estrada: artrite nos dedos, Contratura de Dupuytren (fibras musculares “travadas”) na mão esquerda; paralisia do nervo radial do lado esquerdo; e problemas no ombro devido ao peso da guitarra. Além disso, ele venceu um câncer na garganta em tempos recentes, mas a doença deixou marcas adicionais em uma voz naturalmente impactada por seus 64 anos de idade.

Megadeth em São Paulo, 2026 (Foto: Leca Suzuki @lecasuzukiphoto)
Megadeth em São Paulo, 2026 (Foto: Leca Suzuki @lecasuzukiphoto)

Felizmente, os fãs que esgotaram ingressos com seis meses de antecedência viram muito pouco ou nada desses problemas quando Dave subiu ao palco do Espaço Unimed, em São Paulo, no último sábado, 2, para show único de sua turnê de despedida This Was Our Life em território nacional. Acompanhado de Teemu Mäntysaari (guitarra), James LoMenzo (baixo) e Dirk Verbeuren (bateria), o vocalista e guitarrista ofereceu, em sua 17ª visita ao país, 90 minutos de tudo o que o seu público esperava: clássicos enfileirados, som impecável — um diferencial das apresentações recentes da banda por aqui — e performance de excelência.

Não que o quarteto tenha oferecido algo diferente em 2024, ocasião da visita anterior. No entanto, a reação da plateia do último sábado, 2, soou bem mais vistosa e enérgica. No show de dois anos atrás, Dave Mustaine pareceu ter ficado um pouco emburrado com uma suposta falta de entusiasmo de quem o assistia. Desta vez, mostrou-se encantado com os incontáveis coros e o fato de os presentes terem cantado até mesmo a música de abertura “Tipping Point”, lançada há poucos meses como single e disponível no álbum de despedida. Empolgou-se até com os cerca de 20 admiradores que, mediante pagamento de pacote VIP, assistiram às cinco primeiras canções do próprio palco, nas laterais. Parecia desfrutar, merecidamente, de tudo aquilo, junto de seus colegas.

Megadeth em São Paulo, 2026 (Foto: Leca Suzuki @lecasuzukiphoto)
Megadeth em São Paulo, 2026 (Foto: Leca Suzuki @lecasuzukiphoto)

Logo na segunda faixa do set, Dave e companhia resolveram surpreender ao tocar “The Conjuring” pela primeira vez nesta turnê. A canção esteve fora dos repertórios entre 2001 e 2018, pois o artista, cristão convertido, havia se arrependido de escrever a letra repleta de referências a um ritual satânico numa época onde envolveu-se com magia negra. A partir dali, o setlist entrou por caminhos mais esperados, ainda que com mudanças sensíveis na ordem de execução.

Além da citada “The Conjuring”, outras quatro músicas ausentes em 2024 figuraram no setlist de sábado, 2. A saber: “She-Wolf”, “Dread and the Fugitive Mind”, “Hook in Mouth” e “Mechanix”. E há ainda as quatro faixas presentes no novo álbum, que, por razões óbvias, não entraram no repertório anterior: a mencionada “Tipping Point”, a punk-rocker “I Don’t Care”, a virtuosa “Let There Be Shred” e a inesperada versão para “Ride the Lightning”, gravada pelo Metallica e cocriada por Mustaine. Ao todo, nove mudanças em dois anos. É bastante.

Já entre as excluídas da vez, chamou atenção não ouvir a famosa balada “A Tout le Monde”, a melódica “Trust”, a frenética “Skin o’ My Teeth” e a ardida “Angry Again”. Nenhuma delas chegou a fazer falta, porém. O jogo estava ganho desde o primeiro acorde.

Das performances individuais, há de se destacar alguns pontos. Dave Mustaine soa, sim, um pouco mais desgastado em comparação aos últimos anos. Ele canta do jeito que dá. Na guitarra, ainda toca de um jeito único, o que compensa qualquer questão vocal. Por sua vez, Teemu Mäntysaari parece bem mais à vontade no comparativo com o show de 2024, ainda que sua excelência nas seis cordas siga intacta. Menos travado, acaba por transmitir confiança adicional em sua interpretação ao circular pelo palco e movimentar-se para além dos passos coordenados e ensaiados. James LoMenzo é discreto, mas funcional, e Dirk Verbeuren consolida-se cada vez mais como o melhor baterista do grupo desde Nick Menza, pois agrega as melhores características de seus antecessores mais celebrados.

Megadeth em São Paulo, 2026 (Foto: Leca Suzuki @lecasuzukiphoto)
Megadeth em São Paulo, 2026 (Foto: Leca Suzuki @lecasuzukiphoto)

Já entre os momentos de destaque musical, estiveram:

  • Os habituais solos enlouquecedores de “Hangar 18” — entremeados por gritos de “Me-ga-deth” do público —, canção lançada em 1990 no álbum Rust in Peace, mas com origens datadas de uma década anterior do grupo de Mustaine pré-Metallica, Panic;
  • “Sweating Bullets”, monólogo de alguém em surto esquizofrênico que acabou por se consolidar como a melhor performance vocal de Dave na noite;
  • A sábia decisão de emendar a insana e levemente groovada “Wake Up Dead” com a semibalada[?] “In My Darkest Hour”, como tantas vezes feito no passado e em raras ocasiões repetido nas turnês mais recentes;
  • A execução impecável do solo de “Tornado of Souls”, um dos mais celebrados da história do heavy metal como um todo;
  • A precisa combinação entre duas músicas que referenciam a passagem de Mustaine pelo Metallica: “Mechanix”, sua versão turbinada de “The Four Horsemen”, e a releitura de “Ride the Lightning”, em tom mais grave, batida acelerada e solos fortificados.

Longe de soar como uma despedida fake, mas Dave Mustaine apontou, em entrevista à Rolling Stone Brasil, que o Megadeth deve acabar retornando ao Brasil para mais shows. O músico pareceu interessado, especialmente, em passar por mais cidades além de São Paulo. Citou nominalmente Rio de Janeiro, Curitiba, Porto Alegre, Fortaleza e Brasília.

Seja pelo alto nível da performance realizada no último sábado, 2, pela alta procura por ingressos ou por se tratar de um “adeus” histórico para o heavy metal, faria todo o sentido. Que volte logo para uma conclusão ainda mais condizente com o vínculo existente entre Megadeth e Brasil.

Megadeth em São Paulo — setlist:

1. Tipping Point
2. The Conjuring
3. Hangar 18
4. She-Wolf
5. Sweating Bullets
6. I Don’t Care
7. Dread and the Fugitive Mind
8. Wake Up Dead
9. In My Darkest Hour
10. Hook in Mouth
11. Let There Be Shred
12. Symphony of Destruction
13. Tornado of Souls
14. Mechanix
15. Ride the Lightning
16. Peace Sells
17. Holy Wars… the Punishment Due

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