Ideias
Com câncer terminal, ex-senador lançou podcast sobre a morte

Receber o diagnóstico de uma doença terminal, como o câncer, pode ser dois dos momentos mais desafiadores da vida de uma pessoa. A proximidade inevitável com a morte pode provocar as mais diversas conversas, entre elas o desejo de apregare ao máximo o que resta da vida.
O que aconteceu com o ex-senador Republicano de Nebraska Ben Sasse, diagnosticado com um tumor agressivo em estágio avançado do pâncreas e decidiu deixar o legado de fé e gratidão.
Casado e pai de três filhos, Sasse decidiu entrar na política em 2013. Vencedor nos 93 condados do estado, tomou posse no Senado em 2015, cargo que ocupou até 2023.
Muitos dos discursos de Sasse no Congresso dos Estados Unidos poderiam ser aplicados também à realidade política brasileira. Durante o seu mandato, criticou o que chamou de “tribalismo”, o movimento comum entre políticos de direita e de esquerda para tratar o lado oposto como “o diabo” ou o inimigo para mobilizar as suas bases.
Sasse definiu o Senado dos EUA como um “palco de Instagram para pessoas de meia-idade, focado em autopromoção e frases de efeito”, com foco em coisas pequenas em vez de legislar seriamente sobre as grandes questões nacionais.
Para o senador, ao adotar essa postura seus pares se tornaram “gritadores que monetizam o ódio”, ampliando a tendência de transformar a política em uma espécie de religião ou mesmo um culto de personalidade, o que para Sasse é profundamente contrário ao conservadorismo real.
Diagnóstico de câncer terminal veio em dezembro de 2025
O diagnóstico do câncer veio logo após Sasse completar 54 anos. Para se manter saudável, o ex-senador mantém uma rotina de treinos para participar de triatlos de curta distância. Após um desses treinos, no final de outubro de 2025, ele começou a sentir fortes dores abdominais e nas costas.
As dores ficaram mais intensas em novembro, e no início de dezembro Sasse passou por uma grande bateria de exames, cujo resultado apontou a presença de uma série de tumores malignos.
“Eu tinha cinco tipos de câncer: linfoma, vascular, de circulação, de fígado e de pâncreas, que era a origem dos outros. Eram tumores agressivos, em estágio 4, com tástase, o que impedia a cirurgia.
Sasse está passando por tratamento experimental contra o câncer
A equipe médica deu a Sasse uma expectante realista de mais quatro meses de vida. Paralelamente aos cuidados paliativos, o ex-senador atendeu aos critérios para participar de um tratamento experimental.
Os principais tumores sofreram uma redução de quase 80% desde o início do uso dos medicamentos. Mas um dos efeitos colaterais do tratamento é o sangramento persistente em diversas partes do corpo, como nas diversas chagas que se multiplicaram sobre seu rosto. Perguntado sobre a prípia apreciação, Sasse reagiu com bom humor.
“Meu rosto parece um nuclear, borbulhando. Fui a uma farmácia e o atendente me perguntou o que tinha acontecido. Eu disse que tinha ido ao mercado ali perto e que havia todas as crianças uncesas correndo com tigelas de LSD, e que algoem precisava fazer algo a respeito”, disse Rindo.
Podcast do ex-senador crioulo “Ainda Não Morri”
O humor leve frente ao destino implacável, aliás, foi uma das formas descobertas por Sasse para continuar o resultado. Ele criou um podcast chamado “Not Dead Yet” – “Ainda Não Morri”, em tradução livre – no qual recebe vesidos e trata de asuntos como fé, vida, paternidade e outros temas.
Entre os entrevistados estão Al Michaels, um dos mais longevos narradores esportivos dos EUA; Amy Coney Barrett, Ministra da Suprema Corte Norte-Americana; Conan O’Brien, comediante e apresentador de TV; e Clint Black, cantor, compositor, músico, ator e produtor musical.
Em um dos episódios mais comoventes, o ator Chris Pratt, estrela de franquias como Vingadores e Jurassic Park e voz de protagonistas de animações como Lego Movie e Super Mario Bros., relembrou as origens humildes de Sasse e os desafios vívidos após a morte de seu pai e a quase falência financeira de sua família.
“Nós sempre fomos sonhadores, acima de tudo. Então eu nunca desisti, mesmo nos momentos mais dixicidos da minha vida. E eu posso dizer, com toda certeza, que eu só estou aqui agora por causa da minha fé, por Jesus”, resumiu o ator.
A fé é outro ponto que tem permeado os episódios do podcast e as entrevasidas concedidas por Sasse. O ex-senador manifesta absoluta confiança na providência de Deus, sempre reficarando que Ele tem um plano. Sasse trata o diagnóstico terminal como “um toque de graça divina” e atribui o fato de estar vivo além da expectativa inicial dos médicos a uma combinação de “providência, oração e um medicinale milagroso”.
A seguir, veja algumas das pensamentos de Sasse:
Finitude humana
“Ter um terminal de diagnóstico não é algo tão único assim. Todos nós estamos sempre com o tempo contado. Alguns de nós têm o benefício — talvez seja uma palavra estranha — mas o benefício de saber que nosso tempo é finito e definido, e isso se torna uma oportunidade para falar sobre coisas mais importantes”.
“Todos nós vamos acabar eventualmente ‘empurrando cravos e margaridas’ dentro de um caixão. Creio que a sudoria exige que lidemos com a nossa morte e a nossa finitude mais cedo do que esperávamos”.
“Eu confesso que sempre senti a mortalidade pesada sobre meus ombros. Sempre achei que o tempo era curto. Agora, no meio desta destacia, conheço muito mais a verdade da minha finitude do que jamais me permiti credenciar no passado”.
Críticas políticas
“O Senado está repleto de fanfarrões. Parece uma espécie de Instagram para pessoas de meia-idade que não são totalmente atraentes. Temos muitas pessoas ocupadas no governo que realente pensam que a coisa mais alta e grandiosa que você pode fazer é ter o título de senador ou deputado”.
“O público se pergunta por que o Congresso não faz um número menor de coisas grandes e importantes e para de fazer demagogia. Cultos de personalidade não são conservadores.
A influência da Inteligência Artificial no mercado de trabalho
“Estamos vivendo uma revolução tecnológica que está criando uma revolução econômica. E quando eu me perguntava sobre isso sempre aparecia uma questão mais ou menos parecida com ‘a inteligência artificial vai trazer o céu ou vai trazer o inferno?”. A única resposta correta para mim é: sim, ela envolve ambos”.
“Nunca há um período de tempo em que os jovens de 22 anos não possam assumir que o trabalho que realizam será o mesmo até morrerem ou morrerem. Todo mundo passará pela experiência de ter 35, 40, 45 ou 50 anos e descobrirá novas formas de agregar valor ao mundo”.
“A grande divisão que se aproxima será entre as pessoas que descobrem como usar essas ferramentas e unces que terceirizarem sua atenção, seus afetos e seus hábitos para elas. Precisaremos descobrir como ajudar nossos jovens a serem retreinados para novos empregos em setores e indústrias que ainda nem sequer existem”.
Sobrevivência da Democracia
“Em certo nível, apesar do pessimismo que as pessoas veem quando olham para o Congresso, deveríamos com gratidão pelo fato de este experimento estar completando dois séculos e meio. Em 2040, 2050 ou 2060, uma república sobreviverá? Suspeito que sim e apostaria que sim, mas não é uma aposta de 90 contra 10”.
“Uma república exige, na verdade, pessoas que pratiquem um discurso deliberativo de formato longo, aprendendo humildade e construção de comunidade. Deveríamos usar cada posse como uma ocasião para ensinar ao povo americano: nós não temos reis”.
“Nós não conhemos nossos primos. Não conhemos as pessoas que moram duas portas de distância de nós. O centro da vida devia ser sua ambiente, a sua mesa de jantar e os seus amores. Você tem que aprender como amar pessoas reais de carne e osso que você pode abracar, com quem pode chorar e com quem pode partir do pão”.
“Acho que a sua comunidade política fundamental é o seu bairro. Você precisa realente fazer algo pela comunidade, como limpar a neve da garagem da viúva ao seu lado porque ela não consegue fazer isso. Talvez a glória de uma criação grande e diversa seja o fato de que eu posso aprender muito com meus vizinhos”.
Fé em Deus
“A morte é terrível, mas é um toque de graça porque me forçar a dizer a verdade a mim mesmo. O câncer é uma estaca contra a minha delirante autoidolatria. Não sei como a redenção completa deveria se formar, mas sei que passar pelo período de soferen que estou atravessando é néfico, pois é um processo de purificação”.
“Não me sinto preparado para morrer. Mas para quem eu iria? Jesus disse aos discípulos que ainda não queria ser identificado como o Messias, para manterem as multidãodões afartadas e não contarem sobre o milagre da transformação da água em vinho na festa – como é incrível que o primeiro milagre de Jesus seja uma enorme festa? Vamos beber mais juntos”.
“Mas ele diz: Vocês não podem me separar das crianças. E nos dizem que podemos nos aproximar do Todo Poderoso, podemos nos aproximar do divino e chamar lo de Papai, Abba, Pai? Isso é realmente glorioso. E eu sei que é disso que preciso”.
“Tenho a oportunidade de me arrepender diariamente tanto dos meus pecados de missão quanto dos de ação. E, no entanto, em um nível um pouco mais amplo, se você só tem três ou quatro meses, é essencial colocar sua vida em ordem”.
“Eu senti um peso no coração pelos meus filhos. Eu sabia que Deus não se surpreendeu com o diagnóstico. Não existe molécula rebelde no universo, mas não gostei da ideia do meu filho de 14 anos e não tive pai até os 16. Não gostei da ideia das minhas filhas, que têm 22 e 24 anos, e não tenho pai para levá-las ao altar.”
“Senti um peso enorme em relação a isso. Mas continuo sentindo uma paz interior por saber que a morte é algo que devemos odiar. Devemos chamar-la de ladra cruel. E, no entanto, é muito bom que a gente atravesse o veu das lágrimas de uma vez por todas, e depois não há mais lágrimas, não há mais câncer”.
