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Música

Charli XCX aproveita seu momento com ‘Music, Fashion, Film’

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Por mais de uma década, Charli XCX foi uma arma secreta, uma experimentadora destemida, uma cronista confessional sem filtros e (com todo respeito a Chappell Roan) a artista favorita do seu artista favorito. Mas ela ainda não era exatamente uma estrela pop — daquelas que lotam arenas, estampam capas de revista, se apresentam no Grammy e fazem multidões acompanhar cada palavra que dizem. O confessionário eletropop Brat, lançado em 2024 e responsável por redefinir parte da cultura pop, mudou tudo isso, levando seu nome do “também estrelando” para o topo do cartaz. E quem melhor para entregar um tratado de 30 minutos sobre a arte de construir uma imagem?

Charli está no caminho de dominar os três universos citados no título de seu novo álbum de estúdio, Music, Fashion, Film. Mas a narrativa em torno de seu sétimo disco de estúdio tem sido marcada pela aparente mudança de direção anunciada pelo primeiro single, “Rock Music”. A faixa — com guitarras roucas, pratos estrondosos e vocais entrecortados — não soa em nada como os reluzentes hinos de pista de Brat (nem como o pop-punk vibrante de Sucker, de 2014, aliás). Ainda assim, ela define menos uma estética do que uma filosofia: passar tempo com os amigos e criar coisas juntos. Como outro ícone iconoclasta do sucesso já cantou, isso continua sendo rock and roll.

Ao longo de dez faixas concisas (e de um encerramento comparativamente expansivo), Charli e seus parceiros de composição e produção, A.G. Cook e Finn Keane, dissecam a fama que ela ama odiar e odeia amar. A despretensiosa “SS26” brinca com a ideia de cultivar uma imagem de garota má quando o mundo inteiro já parece ruim. “Card Declined” começa como uma piada simples sobre ser definido pelos próprios bens materiais, depois floresce em um breve devaneio antes de terminar como um minuto de indie pop apaixonado e ensolarado. “Fico pensando em você todos os dias”, canta Charli, aparentemente se dirigindo à bolsa de grife dos seus sonhos.

Também há espaço para afeto humano no álbum. “I’m Afraid”, que soa como uma sobra das sessões do MTV Unplugged do Nirvana, apoia-se em notas graves de violão enquanto Charli revela suas ansiedades em relação ao casamento com George Daniel, baterista do The 1975. Já em “Magic Metal Montana”, ela celebra sua outra grande relação — com o colaborador de longa data A.G. Cook — em uma torrente de palavras empolgada, elogiando seu corte de cabelo, sua forma de dançar e sua capacidade de entender exatamente o que ela imagina musicalmente.

Mas a maior parte do disco está interessada na engrenagem que fabrica estrelas, com referências ao Velvet Underground, banda notoriamente impulsionada por um homem que entendia bastante desse assunto. “Camera” vislumbra o futuro que Charli pode construir no cinema, transformando alguns acordes rápidos em uma ode ao entusiasmo de uma nova ambição. A faixa seguinte, “2007”, olha para o início de tudo, quando ela ainda estava no “paraíso”, criando sua própria imagem no quarto e lançando-a ao mundo sem qualquer interferência externa. Seduzida por essa simplicidade, sua voz digitalmente recortada atravessa o ruído: “Você é o jeito como eu quero me sentir/Quero sentir isso de verdade”.

O grande destaque do álbum é “Wink Wink”, a música que mais claramente equilibra autenticidade e artificialidade. Brincando com a forma como sua persona pública foi reduzida a estereótipos — e também com sua conhecida tendência a provocar o público —, os versos falados e hilários de Charli explodem em um refrão extremamente contagiante composto quase inteiramente por uma única nota. Ao adicionar harmonias, ela cria uma espécie de dublê de si mesma enquanto brinca com o duplo sentido das palavras: “Aqui está a verdade, e preciso ser sincera/Não sou mais uma garota má, eu prometo”. Para quem ainda não entendeu a piada, ela deixa tudo explícito: “Wink wink wink wink”.

Charli aborda um tema semelhante de forma completamente diferente na faixa de encerramento, “No One Lasts Forever”. Ela volta a cantar sobre ser vista como uma festeira inconveniente, mas desta vez não há ironia, apenas a promessa de viver o presente sem medo. Conforme a música ganha contornos espaciais, ela entrega o microfone ao cineasta David Cronenberg, conhecido por sua fascinação pelo grotesco. Durante alguns instantes, ele fala sobre como a arte pode ser imortal, mas os artistas que a criam não são.

Charli e sua equipe repetem sua voz entoando “eles morreram, eles se foram, ninguém dura para sempre” exatas 27 vezes — um número cercado de simbolismo na história do rock — antes que a gravação seja interrompida e a voz se transforme em um redemoinho hipnótico e levemente perturbador. Onde isso deixa a sempre mutante Charli XCX? Como uma maestrina cujo verdadeiro meio de expressão é o próprio momento, ela nos deixa sem outra opção a não ser esperar para descobrir.

Nota: ★★★★

+++LEIA MAIS: ‘Music, Fashion, Film’, novo álbum de Charli XCX, tem música com o diretor David Cronenberg

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