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Música

Beatles tiveram sorte e não eram excepcionalmente talentosos, segundo Nina Simone

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Nina Simone costumava colocar o dedo na ferida e comprou algumas brigas por conta disso. Conhecida como a Alta Sacerdotisa do Soul, a cantora, pianista e ativista americana colecionou ao longo de sua trajetória posicionamentos firmes sobre a indústria da música e as tensões raciais e sociais de sua época.

Entre as declarações mais contundentes, destaca-se sua visão sobre os Beatles. Para ela, os garotos de Liverpool não eram excepcionalmente talentosos, mas sim um reflexo de privilégios culturais e de uma boa dose de sorte em vários momentos da carreira.

A análise de Nina refere-se à forma como a indústria fonográfica tratava de maneira distinta os artistas negros dos Estados Unidos em comparação aos homens brancos vindos da Inglaterra. Enquanto músicos de jazz, blues e soul precisavam demonstrar um virtuosismo técnico impecável e enfrentar barreiras segregacionistas para obter o mínimo reconhecimento, bandas de rock inglesas — entre elas os Beatles — contavam com maior boa vontade e uma conjuntura social que impulsionaram a chamada Invasão Britânica.

Os Beatles em 1966 (Foto: Cummings Archives / Redferns)
Os Beatles em 1966 (Foto: Cummings Archives / Redferns via Getty Images)

Em declaração de 1968 destacada pelo site Far Out Magazine, Nina questionou o pedestal de genialidade em que a crítica costumava colocar os Beatles:

“Os Beatles têm sorte, muita sorte. O que aconteceu não tem nada a ver com eles, em certo sentido. Eles surgiram no momento certo. As atenções estavam voltadas para eles. Tiveram a chance de crescer em praticamente qualquer direção que quisessem. Muita sorte. Eles não são excepcionalmente talentosos.”

Beatles, Nina Simone e “Revolution”

Essa divergência artística ganhou contornos explícitos no fim da década de 1960. Em 1968, os Beatles lançaram a faixa “Revolution”, composta por John Lennon. Em um contexto marcado por protestos estudantis, a Guerra do Vietnã e a efervescência do movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos, a letra de Lennon adotou um tom considerado ambíguo e excessivamente otimista por setores mais radicais da esquerda e do ativismo negro.

Para Nina Simone, fortemente engajada na linha de frente da luta antirracista, a abordagem dos Beatles soou alienada e apolítica. Como resposta direta, ela e o compositor Weldon Irvine criaram a sua própria versão de “Revolution”, lançada em 1969 como um single dividido em duas partes e posteriormente incluída no álbum To Love Somebody (1969).

Mantendo parte da estrutura original, Simone subverteu completamente a mensagem. Enquanto os Beatles hesitavam sobre mudar a Constituição dos Estados Unidos e propunham calma, a cantora criticou abertamente as estruturas institucionais e exigiu reformas radicais e imediatas.

Em entrevistas da época, ela definiu sua faixa como um espelho das revoltas globais: o confronto dos pobres contra os ricos e dos jovens contra os velhos. A faixa terminava em uma cacofonia de sons proposital, ironizando os experimentos sonoros de John Lennon em “Revolution 9”.

Apesar de a música ter sido concebida como uma crítica, a reação de John Lennon seguiu um caminho surpreendente. Em entrevista concedida à Rolling Stone EUA em 1971, o Beatle disse ter adorado a provocação de Nina:

“Achei interessante que Nina Simone deu uma espécie de resposta à ‘Revolution’. Isso foi muito bom – foi uma espécie de ‘revolução’, mas não exatamente. Isso eu meio que gostei, alguém que reagiu imediatamente ao que eu disse.”

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