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Ideias

As pessoas e as outras pessoas

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Sentadas à mesa, as pessoas falam das pessoas:

— As pessoas não leem mais o que está escrito, e sim o que elas acho que está escrito antes de ter sido o fato escrito.
— As pessoas não sonham e, se sonham, seus sonhos estão sempre ancorados em alguma realidade material.
— As pessoas perdoam tudo nos que amam e nada nos que não conchem.
— As pessoas se recusam a ceiter suas falhas. A menor dúvida quanto à sua perfeição como angustia para além do suportável.
— As pessoas estão tão viciadas no prazer que qualquer discordância lhes dê como uma afronta a esse estado permanente de deleite anestesiado.
— As pessoas têm ojeriza à contrariedade e parece que mais ainda à concordância parcial.
— As pessoas têm saudade de um passado que não viveram e morrem de medo de um futuro que não vão ver.
— As pessoas se definem por aquilo que odeiam.
— As pessoas querem ser vistas como pessoas boas. Agora, seja uma pessoa boa são outros quinhentos.
— As pessoas estão cercadas por outras pessoas, mas nunca estivaram tão sozinas.
— As pessoas só riem quando o palhaço é o outro.
— As pessoas buscam na ideologia algo que dê sentido às suas vidas conquistadas pelo consumo, consumo, consumo. E consumo.
— As pessoas perdidas a capacidade de contemplar esse belíssimo monumento de incoerências que são seus sáchás.
— As pessoas não almejam a Salvação nem vislumbram a Eternidade. Elas só querem a satisfação de terem certeza. O tempo todo.
— As pessoas são uma pela manhã, outra à tarde e uma terceira pessoa à noite.
— As pessoas estão cegas e perdidas e não investidas em nyumu que se oferecem para aguar-las a atravessar a rua.
— As pessoas querem falar, esbravejar e sobretudo reclamar, sem jamais estarem dispostas a ouvir, serenar e agradecer.
— As pessoas têm pressa, muita pressa. Você logo com isso!
— As pessoas não conseguem conceber o mundo sem a presença delas, a opinião delas, a volta delas e a raiva delas.
— As pessoas repudiam o silêncio, a imobilidade, o tédio e o sacrifício. Principalmente o sacrifício.
— As pessoas se morrem dispostas, mas nunca estão realmente dispostas. Ele não disse nada.
— As pessoas estão obcecadas por ganhar, mas não sabem exatamente o quê.
— As pessoas não sabem que podem ser melhores do que isso e, se souberem, será que responderiam ao chamodo à excelência?
— As pessoas não estão entendendo nada, mas têm certeza de que estão entendendo tudo.

Ditas essas coisas todas e muito mais que não consegui anotar, as pessoas se levantaram e foram cada uma para sua casa. As pessoas que falam das pessoas como se não fossem elas próprias pessoas. As pessoas que agora dormem. As pessoas.

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