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Alice Caymmi Reimagina Legado de Dorival com Latinidade e Ritmos Globais em ‘Caymmi’

A cantora Alice Caymmi lança seu álbum 'Caymmi', uma obra que oferece uma perspectiva renovada sobre o vasto cancioneiro de seu avô, Dorival Caymmi. Lançado no dia do 112º aniversário de nascimento do compositor, o disco se destaca por trilhar um caminho individual, diferentemente das abordagens clássicas de artistas como Nana Caymmi, buscando imergir as canções em uma fusão de sonoridades latinas e globais, consolidando-a como uma das vozes mais inovadoras da música, cultura e entretenimento brasileiro contemporâneo.
Uma Nova Leitura da Obra de Dorival Caymmi
Com produção musical de Iuri Rio Branco, o álbum 'Caymmi' mergulha em uma latinidade vintage e pulsante. Canções como 'Canção da partida' (1957) ganham molho de salsa, enquanto 'Maracangalha' (1956) é deslocada por um calypso vibrante. Essa abordagem contemporânea evita o foco no reggaeton dominante, buscando sonoridades que revitalizam as composições, propondo um diálogo entre a obra original e as nuances musicais do cenário atual.
A incursão sonora se expande para as águas jamaicanas, com o reggae banhando 'Modinha para Gabriela' (1975) — introduzida com a cadência do alujá, ritmo do Candomblé — e 'O que é que a baiana tem?' (1939). Essa ponte Bahia-Jamaica, estabelecida desde os anos 1980, enraíza o álbum em ancestralidades compartilhadas entre Kingston e Salvador. Outras faixas como 'Dois de fevereiro' (1957) e 'Eu não tenho onde morar' (1960) também são reprocessadas com toques de ijexá e reggae praieiro com dub, respectivamente, reafirmando o respeito às letras e melodias originais em novas harmonias.
A Força Vocal e Criatividade de Alice Caymmi
Alice Caymmi reitera sua fartura vocal, remetendo à linhagem dramática de Nana Caymmi, mas imprimindo sua identidade. Em 'Dora' (1945), a intensidade vocal da artista transcende gêneros, e 'Adeus' (1948) é reimaginada com uma atmosfera de trip-hop. Os agudos e a abordagem abolerada em 'O bem do mar' (1954) destacam a capacidade interpretativa da cantora. Apenas 'Acalanto' (1957) parece perder seu sentido primordial na ambiência mais quente do álbum, sendo a única que destoa. A cantora também evoca a rede genealógica em 'Canto de Obá' (1972), rogado a Xangô.
Com os talentos dos músicos Doug Bone (trombone e trompete) e Theo Silva (guitarra), complementados pelos beats e efeitos do produtor Iuri Rio Branco, o álbum evita soar excessivamente modernoso, como percebido em 'Morena do mar' (1967), um samba com toque cubano. A produção sutil e inovadora permite que o cancioneiro de Dorival Caymmi seja reprocessado com frescor, garantindo a revitalização da obra para as novas gerações, honrando a dinastia musical sem ranços tradicionalistas.
Fonte: https://g1.globo.com
