Connect with us

Moda

A guerra mais maluca do Brasil quase começou por causa de lagostas capturadas no Nordeste

Published

on


Uma pergunta aparentemente absurda colocou navios de guerra em movimento no Atlântico: a lagosta nada como um peixe ou caminha sobre o fundo do mar? No início dos anos 1960, a resposta determinaria quem poderia explorar um recurso valioso na costa nordestina e transformaria uma disputa pesqueira na maior crise militar já vivida entre Brasil e França.

Após a independência da Mauritânia, em 1960, pescadores franceses perderam parte do acesso às áreas africanas onde capturavam lagostas.
Após a independência da Mauritânia, em 1960, pescadores franceses perderam parte do acesso às áreas africanas onde capturavam lagostas. – Imagem gerada por IA

Como começou a Guerra da Lagosta?

Após a independência da Mauritânia, em 1960, pescadores franceses perderam parte do acesso às áreas africanas onde capturavam lagostas. A alternativa surgiu do outro lado do Atlântico. Em 1961, embarcações da França receberam autorização brasileira para pesquisar estoques do crustáceo a cerca de 160 quilômetros da costa do Nordeste.

O acordo previa número limitado de barcos e inspeção da Marinha brasileira. As autoridades, porém, concluíram que havia mais embarcações do que o autorizado e que a suposta pesquisa escondia uma atividade comercial. Em vez de apenas estudar os animais, os franceses estariam capturando grandes quantidades para vender no mercado europeu.

Acesso não autorizado de embarcações estrangeiras iniciou o conflito em águas brasileiras.
Acesso não autorizado de embarcações estrangeiras iniciou o conflito em águas brasileiras. – Imagem gerada por IA.

Por que a lagosta virou uma questão jurídica?

O Brasil sustentava que as lagostas pertenciam aos recursos naturais de sua plataforma continental, pois viviam e se deslocavam em contato com o fundo do oceano. Já a França defendia que os animais também davam saltos e nadavam. Dessa forma, poderiam ser tratados como peixes de alto-mar, cuja captura não dependeria da autorização brasileira.

O jurista Ibrahim Azzam analisou o caso em 1964 no periódico International and Comparative Law Quarterly e mostrou que a controvérsia envolvia uma área ainda pouco definida pelo direito internacional. Mais do que classificar um crustáceo, os dois países disputavam os limites da soberania sobre riquezas encontradas além do mar territorial.

O lagostim poderia realmente ser considerado um peixe?

Biologicamente, a resposta é não. Lagostas e lagostins são crustáceos, pertencentes ao grupo dos artrópodes, enquanto os peixes são vertebrados. A argumentação francesa não pretendia mudar essa classificação científica. Ela buscava definir o modo de deslocamento do animal para decidir se ele fazia parte do fundo oceânico ou das águas internacionais.

  • Brasil afirmava que a lagosta caminhava sobre a plataforma continental e integrava seus recursos naturais.
  • França argumentava que os saltos do crustáceo permitiam compará-lo aos animais capturados em alto-mar.
  • Direito internacional ainda não apresentava regras suficientemente claras para encerrar a discussão sem negociação.

O almirante e oceanógrafo brasileiro Paulo de Castro Moreira da Silva respondeu com uma frase que entrou para a história: “Se a lagosta é um peixe porque se desloca dando saltos, então o canguru é uma ave”. A ironia expôs o que o Brasil considerava uma tentativa francesa de contornar seus direitos econômicos.

Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube Top Militar LHB contando mais sobre a Guerra das Lagostas.

Como a disputa quase provocou um confronto?

A tensão atingiu o ponto máximo em fevereiro de 1963, quando o presidente francês Charles de Gaulle enviou o contratorpedeiro Tartu para proteger os pesqueiros. O governo de João Goulart respondeu mobilizando navios da Marinha e aeronaves da Força Aérea. Um bombardeiro brasileiro chegou a fotografar o navio francês próximo à costa.

Pesquisa publicada na Brasiliana Journal for Brazilian Studies descreveu o episódio como um teste das relações entre o governo e as Forças Armadas antes do golpe de 1964. Apesar da movimentação, nenhum tiro foi disparado. A França retirou o navio da região em março de 1963, diminuindo o risco imediato de um confronto armado.

Como a crise terminou sem uma guerra?

A negociação diplomática continuou mesmo depois da retirada militar. Em dezembro de 1964, Brasil e França chegaram a um acordo que permitiu a captura por embarcações francesas durante um período limitado, com divisão dos resultados econômicos. A solução evitou que qualquer lado admitisse derrota e confirmou a autoridade brasileira sobre a exploração.

A chamada Guerra da Lagosta não deixou vítimas, mas revelou como interesses comerciais, orgulho nacional e regras marítimas imprecisas podem criar uma crise perigosa. Relembrar o episódio é urgente em um mundo que ainda disputa alimentos, petróleo e minerais no oceano. Às vezes, uma guerra começa muito antes do primeiro disparo.



Continue Reading
Advertisement
Clique para comentar

Deixar uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Revista Plateia © 2024 Todos os direitos reservados. Expediente: Nardel Azuoz - Jornalista e Editor Chefe . E-mail: redacao@redebcn.com.br - Tel. 11 2825-4686 WHATSAPP Política de Privacidade