Música
A música country está virando yacht rock? Novo álbum de Keith Urban sugere que algo está acontecendo

“Me compra um barco”? Isso ficou em 2015. Em 2026, a música country — ou pelo menos alguns de seus principais nomes masculinos — está trocando barcos de pesca e lanchas por águas mais tranquilas do yacht rock.
Na sexta-feira, Keith Urban lançou seu 13º álbum, Flow State, uma coleção composta majoritariamente por versões de clássicos como “Steal Away”, “Summer Breeze” e “Just the Two of Us”, com participações de Little Big Town, John Mayer e do mestre da suavidade, Michael McDonald. O disco também foi co-produzido por Dann Huff, que tocou em alguns dos álbuns fundamentais do yacht rock como músico de estúdio nos anos 1980.
Urban afirmou que iniciou o projeto quase por acaso, como um antídoto para o estresse do mundo atual. E faz sentido: quem nunca tentou acalmar um coração partido em tempos turbulentos ouvindo um pouco de The Doobie Brothers? Pelo menos Urban certamente tentou.
Ele não é o único em Nashville atualmente encantado pelo yacht rock. Músicas como “7 Summers”, de Morgan Wallen, levaram aquele clima relaxado da Costa Oeste até as rádios country. No mês passado, Charles Kelley lançou o programa Y’all Aboard na Yacht Rock Radio, da SiriusXM, onde toca suas canções suaves favoritas ao lado de convidados como Russell Dickerson, Dustin Lynch e Trisha Yearwood. O objetivo, segundo ele, é mostrar que a música country tem “muito mais em comum do que se imagina” com o gênero associado a trilhas sonoras de piscina, influências de R&B e riffs jazzísticos.
“As pessoas ficariam surpresas com a quantidade de artistas country obcecados por yacht rock”, disse Kelley à Rolling Stone. “Há algo muito reconfortante nessa música. Muitos temas giram em torno de amores perdidos e arrependimentos amorosos, algo que combina bastante com o country clássico. Até algumas estruturas harmônicas mais complexas lembram o country antigo. Mas, acima de tudo, trata-se de escapismo. É música para se sentir bem, para relaxar, para ouvir na praia.”
Embora Kelley ainda não tenha anunciado um projeto próprio voltado ao gênero, ele lançou recentemente um single com Maren Morris, uma releitura mais próxima do adult contemporary de sua música “Can’t Be Alone Tonight”. Com produção refinada, teclados em cascata e harmonias afiadas, a faixa certamente flerta com o universo do yacht rock.
Tudo isso levanta uma questão: o country-pop mais maduro seria um primo terrestre do yacht rock? A avaliação de Kelley de que os dois gêneros se cruzam mais do que parece faz bastante sentido, desde que a definição de yacht rock seja encarada de forma flexível — algo que muitos puristas do estilo não fazem.
Artistas como Ronnie Milsap e Jimmy Webb transitam facilmente entre os dois universos. Outros, como Kenny Chesney e Zac Brown Band, incorporam a estética praiana do gênero. Até Dolly Parton aparece bem posicionada entre os rankings de faixas consideradas yacht rock, graças à música “Some Old Fool”, de 1980, que também traz fortes influências da disco music — uma combinação que vem voltando à moda pelas mãos de artistas como Kacey Musgraves e Miranda Lambert.
Neste outono norte-americano, quem for ao festival Moon Crush Beach Vacation, organizado pela banda Old Dominion, poderá assistir a um show da Nashville Yacht Club Band, que se apresenta como a principal banda da cidade dedicada a sucessos das décadas de 1970 e 1980.
“Fazemos um show mensal no Scoreboard, em Music Valley, há alguns anos”, disse o líder do grupo, Jay Barclay. “É um espaço extremamente tradicional do country, então eu não sabia como o público reagiria quando nos convidaram, mas acabou sendo um enorme sucesso. As pessoas simplesmente não se cansam dessas músicas. Elas oferecem uma pequena fuga do estresse cotidiano.”
E onde Keith Urban se encaixa nessa discussão? Para “Hollywood” Steve Huey, um dos especialistas mais conhecidos no tema, a resposta é complexa.
“Eu e outros fãs de yacht rock somos bastante exigentes quando se trata da definição do gênero”, afirmou. “Metade das músicas do álbum são o que consideramos yacht rock de verdade. A outra metade são canções que muita gente associa ao gênero, mas que não possuem as influências de jazz, R&B e Steely Dan que julgamos essenciais. Ainda assim, nas faixas que realmente se encaixam, fiquei impressionado com o senso de groove presente no disco. Não é apenas música suave; ela captura o espírito do que tornou esse som tão especial.”
Huey acrescenta: “Se eu não soubesse que era um álbum de Keith Urban, não imaginaria que fosse um artista country, exceto por um leve sotaque vocal aqui e ali”.
Yacht rock ou não, Urban parece totalmente à vontade em Flow State, um território onde pode exibir seus solos sem constrangimento e deixar a produção tão reluzente quanto desejar. Já faz algum tempo que sua música soa apenas vagamente country, e faixas como “Magnet and Steel”, com belas harmonias do Little Big Town, funcionam especialmente bem nesse contexto.
Em abril, Urban dividiu o palco com a Yacht Rock Revue, considerada por muitos a principal representante do renascimento do gênero. E, durante o CMA Fest deste mês em Nashville, trouxe Michael McDonald para uma apresentação de “We Go Back” no Nissan Stadium, aparentando estar se divertindo como nunca.
Se o chamado “y’allcht rock” — uma mistura de y’all com yacht — realmente se tornará um novo gênero ainda está por ser visto. Mas talvez ele já existisse esse tempo todo.
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