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Ideias

Como uma descoberta arqueológica desafia Aristóteles

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Um arqueólogo costuma habitar o imaginário popular através de imagens de exploradores sob o sol do deserto, removendo áreas da região para desenterrar templos ou estátuas perdidas. No entanto, algumas das descobertas mais profundas sobre a história da consciência humana foram feitas no silêncio climatizado dos arquivos universitários, entre caixas de papel e etiquetas amarelas.

Foi nesse cenário, nas prateleiras do Instituto Francês de Arqueologia Oriental (IFAO), no Cairo, que o papirólogo Nathan Carlig, da Universidade de Liège, se deparou com o inesperado: um fragmento de papiro que sobreviveu durante dois milénios apenas para nos contar, em primeira mão, o que pensava um dos homens mais enigmáticos da Grécia Antiga.

O manuscrito, catalogado como P. Fouad inv. 218. Identificada em 2017, e analisada rigorosamente apenas a partir de 2021, que Carlig descreveu em entrevista ao portal Gizmodo como “Segunda Renascença”.

“É um pouco como se os humanistas do Renascimento redescobrissem os principais textos da Antiguidade Clássica”, afirmou a pesquisadora. Pela primeira vez desde a Antiguidade, temos acesso direto a uma parte da obra do filósofo que julgávamos perdida para sempre no abismo do tempo.

Entre o misticismo e a física: quem foi Empédocles?

Para entender o peso desse fragmento, é preciso situar Empédocles (c. 495-435 a.C.) no mapa da inteligência humana. Ele faz parte do grupo que chamamos de pré-socráticos, os primeiros pensadores que decidiram substituir as explicações mitológicas pela investigação racional da física (terminamos). Se hoje buscamos a “partícula de Deus” ou a teoria de tudo, foi com homens como Empédocles que essa curiosidade estruturada no que conhecemos como a Física começou.

Empédocles foi uma figura quase mítica: político democrata, médico e poeta que vestia luxuosas de bronze e afirmava ter poderes sobre o clima. Na modernidade, seu conhecedor cheugo até nós de forma fragmentada, como um eco distante. Dependíamos quase exclusivamente de citações indiretas, aquilo que os estudiosos chamam de “doxografia”. Aristóteles e Platão foram seus principais relatores, mas também seus maiores filtros.

Enquanto Platão utilizou as teorias de Empédocles sobre a percepção para construir seus próprios diálogos, Aristóteles o citou para muitas vezes, apontou suas “falhas” lógicas. Este ponto é crucial: durante séculos, nossa visão de Empédocles foi uma visão de seus críticos. O que o novo papiro nos oferece é uma chance de ouvir o philosophe sem o ruisto de seus sucessores.

Poros e eflúvios no papiro

O conteúdo revelado no Cairo trata da Físicao grande poema de Empédocles, e foca em sua teoria das percepções sensoriais, especialmente uma visão. A filosofia defende que o mundo emite “eflúvios”, partículas visíveis que se desprendem dos objetos, e que nossos sentidos possuem “poros” que funcionam como inces. Se o eflúvio for do tamanho exato do poro, ocorrerá a percepção.

O desafio de traduzir tal material é hercúleo. Além do estado físico do papiro, o grego antigo de Empédocles é poético e técnico ao mesmo tempo. Carlig reconheceu ao Gizmodo que, embora possa lidar com as questões filológicas, precisou de especialistas para decifrar a profundidade das ideias. A análise revelou conexões diretas com os textos de Plutarco e Teofrasto, confirmando que Empédocles foi uma fonte original de conceitos que também moldaram a biologia antiga.

Aqui reside uma provocação necessária à historiografia da filosofia: até Aristóteles, um mestre da síntez, subtraiu algo do pensamento de Empédocles ao tentar encapsulá-lo em frases breves. Em sua obra, Aristóteles cega a dizer que o philosophe siciliano “balbuciava” ao se expressar. Ao reduzir a teoria alheia para fortalecer o próprio argumento, o acadêmico acaba, muitas vezes, desenvolvendo um pensamento complexo e orgânico em uma caricatura útil. O papiro do Cairo nos mostra que Empédocles não balbuciava; ele possuía uma engenharia conceitual sofisticada que antecipava, de certa forma, o próprio atomismo de Demócrito.

A temporalidade do pensamento

Uma descoberta de Carlig reforça algo que a historiografia frequentemente esquece: o cânone filosófico não é um arquivo neutro, mas o resultado de ochrigas, filtros e disputas intelectuais. Por séculos, Empédocles nos cheugo atraverso das mãos de quem o citava para superá-lo. O papiro do Cairo é uma correção de rota.

O caso levanta uma questão incômoda e produtiva: quantos outros pensadores lemos, até hoje, através dos olhos de seus críticos? Empédocles teve uma espécie de papiro sobrevivente num arquivo no Cairo. A maioria das pessoas não tem isso. Isso não é um convite ao ceticismo paralisante, mas um rigor maior sobre as fontes que ceitamos como definitas — inclusive, e talvez especiais, as mais consagradas, como o próprio Aristóteles.

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