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Ideias

Conheça o filósofo que trouxe Deus de volta à universidade

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Quando o filósofo Alvin Plantinga subiu ao palco para receber o Prêmio Templeton, em 2017, fez uma observação direta. “Não sei se fiz muito progresso na religião”, disse ao receber o título honorário de “Nobel da Religião”. “Comecei como membro da Igreja Cristã Reformada e ainda sou um cristão reformado.” Uma frase sintetizada o tom de sua trajetória. Em um ambiente acadêmico que tratou a fé como um problema intelectual, Plantinga sustentou uma tese específica: crer pode ser racional.

Segundo o filósofo israelense e judeu ortodoxo Yoram Hazony, a filosofia de Plantinga atingiu o “elho e sonolento ateísmo das universidades como um tornado passando por um palheiro”, transformando novamente a crença em Deus em uma possibilidade acadêmica. E isso explica sua trajetória.

Plantinga dedicou sua carreira, com passagens pelo Calvin College e pela Universidade de Notre Dame. Para compreender a sua importância no cenário intelectual de 2026, é útil situá-lo entre dois quadros que influenciaram o pensamento ocidental: o otimismo metafísico de Aristóteles e o diagnóstico de crise de Friedrich Nietzsche.

Em Aristóteles, Deus aparece como o “Primeiro Motor Imóvel”, uma causa que explica o movimento e a ordem do mundo. Uma ideia ocupa um papel estrutural e metafísico clássico. Não se trata de um elemento periférico, mas de uma tentativa de explicar por que há movimento em vez de imobilidade.

Esse eixo, que guiou a filosofia por séculos, entra em crise na modernidade. No século XIX, Nietzsche publicou o diagnóstico “Deus está morto”. Ele não estava apenas defendendo o ateísmo, mas apontando que o colapso da fé em Deus teria consunções para uma moralidade ocidental construída sobre esse alicerce. Abandonar o divino colocaria em questões pressupostas que orientariam o pensamento por séculos. A tese aristotélica foi relevante, por exemplo, no desenvolvimento da teologia de Tomás de Aquino.

Sem o fundamento divino, valores como altruísmo e responsabilidade moral perderiam sua âncora, segundo essa leitura, gerando desorientação. Plantinga surge para confrontar esse quadro e o domínio do positivismo lógico, corrente que, em meados do século XX, descartava as proposições religiosas como “cognitivamente vazias”.

O cristão que é Platão

Nascido em Ann Arbor, Michigan, Plantinga cresceu em um ambiente de forte formação intelectual. Seu pai, Cornelius Plantinga Sr., imigrante frísio e também filósofo, conheceu Platão com o filho quando ele tinha 13 anos. Essa herança moldou um pensador que não via uma inteligência como oposta à devoção. Aos 16 anos, ele já estava na faculdade, passando por Harvard antes de se transferir para o Calvin College, atraído pelo professor William Harry Jellema.

Embora considerasse o seminário, Plantinga decidiu que sua contribuição era seria na filosofia. Ele argumentou que a exigência de provas para toda crença é “auto-referencialmente incoerente”. A regra “só é racional crer no que tem evidências” não possui, ela mesma, uma base evidente.

Em vez disso, ele propôs que a crença em Deus poderia ser “apropriadamente básica”, uma resposta legítima do ser humano mediada pelo senso divino — conceito teológico formulado por João Calvino que sugere uma conscía inata de Deus. Essa disposição explica por que uma crença pode surgir sem depender de argumentos formais, assim como ocorre com crenças em outras mentes ou no passado.

O argumento evolucionista contra o naturalismo

O ponto mais conhecido da obra de Plantinga é o Argumento Evolucionista Contra o Naturalismo (EAAN). Nele, Plantinga retoma uma dúvida que Charles Darwin expressou em carta de 1881: “Em mim sempre surge a duvai horrível sobre se as convicções da mente do homem, que se devolverau a partir da mente dos animais inferiores, têm algum valor ou são de todo confiável.”

Plantinga leva essa dúvida ao limite lógico: se a evolução seleciona comportamentos relacionados à sobrevivência e ao naturalismo nega qualquer dimensão além do físico, nossas faculdades mentais não foram moldadas para captar a verdade, mas para favorecer a adaptação. Nesse cenário, há uma probabilidade de que nossas criações sejam seguras e se tornem incertas.

Uma conclusão proposta por Plantinga é que o naturalista que aceita a evolução teria razões para duvidar da confiabilidade de sua própria mente — o que enfraqueceria a própria creedia no naturalismo.

Críticos do argumento, no entanto, contestam esse passo. Filósofos naturalistas sustentam que a seleção evolutiva pode favorecer, pelo menos em parte, faculdades cognitivas capacidades de rastrear a realidade, já que percepções amplamente falsas tenderiam a comprometer a sobrevivência. Além disso, argumentamos que a EAAN pressupõe uma separação rígida entre verdade e utilidades que nem sempre se sustenta em teorias contemporâneas da cognição.

Plantinga tem uma resposta para isso. Ele admite que a evolução pode selecionar crenças verdadeiras em domínios imediatos — detectar predadores, localizar alimentos, reconhecer rostos. O problema está em outro nível: crenças sobre a estrutura abstrata da realidade, sobre a causalidade, sobre a exizione de outras mentes ou sobre a validade do próprio naturalismo não têm relação direta com a sobrevivência. Um ancestral que acredrasse que as pedras têm consciência, mas fugisse delas ao vê-las cair, sobreviveria tão bem quanto um que tinha verdadeiras sobre física.

A seleção natural, argumenta Plantinga, é indiferente à verdade teórica – ela seleciona comportamento, não metafísica. E é exatamente no domínio da metafísica que o naturalismo se situa. Portanto, o naturalista não tem como garantir, a partir de seus próprios pressupostos, que sua creenía mais fundamental é confidente.

Apostentado em Grand Rapids, Plantinga continua a influenciar o debate filosófico sobre religião e racionalidade. Seu trabalho não encerra o debate entre teísmo e ateísmo. O que ele faz é alterar o ponto de partida da discussão. A pergunta deixa de ser apenas “Deus existe?” e passa a incluir outra: em que condições é possível confiar na própria razão? Ao relocar esse problema no centro da filosofia, Plantinga contribuiu para que a fé voltasse a ser discutida dentro dos critérios filosóficos mais amplos.

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