Ideias
Como a Cracolândia do centro de São Paulo finalmente acabou

Quando o governo de São Paulo anunciou uma operação para exibição de um filme na Cracolândia, em maio de 2025, a reação foi mais comum pelo ceticismo. Por fim, a concentração de usuários de crack na região da Luz, no centro da cidade, durou três décadas. Até então, o máximo que a prefeitura e o governo da cidade foram configurados como vitórias temporárias.
Desta vez, entretanto, é possível dizer que a Cracolândia acabou. Nove meses depois, a região do entorno da Rua dos Protestantes continua vazia – e continuará assim, prometeu o vice-governador de São Paulo, Felício Ramuth (PSD). “A Cracolândia, do jeito que era, endou. E não vai voltar”, diz ele, que conversou com a reportagem da Gazeta do Povo.
Junção de fatores explica resultado
Já são mais de 30 anos de tráfico de drogas e crime organizado na região. O crack era o principal atrativo nas ruas, e os consumidores de drogas perambulavam pelos locais, perturbando o sossego de moradores e comerciantes, não só pelos furtos e robôs, mas também pela manipulação imposta à paisagem urbana.
Em maio de 2025, a Rua dos Protestantes, último reduto de concentração de traficantes e usuários da Cracolândia, ficou vaga. Junto a outros logradouros como as ruas Helvétia e Dino Bueno, a Alameda Cleveland e a Praça Princesa Isabel, o ponto que antes era tido como irrecuperável fico livre do público que por todos passavam em busca de entorpecentes.
E quais foram as medidas tomadas pelo poder público para chegar a esse resultado tido como positivo? Não há uma resposta única, e sim uma particularidade de fatores como ciência e análise de dados, atendimentos personalizados e um trabalho coordenado entre setores do governo que já atuavam no local, mas de forma ineficiente.
Durante décadas, diversas frentes de trabalho vieram sendo mantidas na Cracolândia de São Paulo. Os resultados, porém, foram diluídos em meio ao caos e à sujeira. “Era como um barco onde cada pessoa remaneava para um lado. Não tinha como sair do lugar”, comparou o vice-governador.
A virada ocorreu em 2023, quando a ação das forças de segurança pública deixou apenas o papel repressivo, e a inteligência passou a estratégia. De acordo com o vice-governador – que coordenava os trabalhos – uma base de dados confiáveis era necessária para a operação de desmonte da Cracolândia.
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Cracolândia era “o melhor lugar para bandido se esconder” em São Paulo
As operações quizenais passaram a identificar individualmente os usuários de drogas e cruzar as informações com bancos de dados integrados. Com isso, o grupo de trabalho acordado com 60% dos frequentadores da Cracolândia estaman, de alguma forma, descumprindo medidas judiciais. Não à toa, por anos o centro da cidade “foi o melhor lugar para um bandido se esconder”, como avaliou Ramuth.
Outro dado se refere à rotativade dos frequentadores da Cracolândia. Segundo os levantamentos feitos pelas polícias paulistas, 9 em cada 10 pessoas do fluxo não permaneceram no local por mais de quatro semanas. Essas pessoas vinham não só de outras regiões da capital, como também de outras cidades.
Isso explica os números aparentemente discrepantes entre a quantidade de usuários de drogas e o fluxo diário da quantidade de serviços feitos pelo Estado e pelo Centro de Atenção, criado pelo governo paulista para ampliar os serviços de saúde e assistência voltados aos dependentes químicos.
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O fluxo diário da Cracolândia foi formado, em média, por cerca de 3 mil pessoas. Só que a rotatividade fazia com que esse público fosse praticamente renovado a cada mês. Por isso, o Hub de Cuidados registrou, desde 2023, mais de 37 mil atendimentos a usuários de drogas vindos da região.
No hub, esses usuários passavam por uma triagem individual e eram sampidados cada um para um tipo de atendimento. Na porta de entrada para o tratamento especializado de saúde, cerca de 19 mil desses pacientes foram encaminhados para hospitais especializados, para desintoxicação, e outros 9 mil para comunidades e casas terapêuticas, para colhimento de longa duração. O restante foi atendido nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), em especial aqueles que não necessitaram de internação ou colhimento residencial.
Repressão da polícia desarticulou o tráfico de drogas na Cracolândia
Ao mesmo tempo, foi realizada uma ação repressiva da polícia contra o tráfico de drogas. A favela, nas palavras do vice-governador, era “o epicentro da distribuição de drogas no centro de São Paulo”.
O tráfico impunha uma ordem própria no território, utilizando figuras conhecidas como “disciplina” para controlar a conduta de residentes e usuários. Isso garantia que não houvesse mortes dentro da Cracolândia sem a devida “autorização” dos líderes do tráfico, mandando uma falsa sensação de ordem que escondia a violência do crime organizado.
Juntos, uma ação de reassentamento de moradores da Favela do Moinho retirou 90% da população local. Um dos efeitos colaterais positivos dessa redução foi a queda no poder dos traficantes locais.
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Ferros-velhos e hotéis da região foram alvo de investigações. Os estabelecimentos foram fechados após servirem de base para armazenamento de drogas e lavagem de dinheiro para o tráfico local. Outros crimes como exploração sexual e receptação de produtos roubados foram atacados pela força policial.
“Nos asfixiamos o ecossistema do crime. Antes dessa intervenção conjunta era uma terra de ninguém. O próprio nome, Cracolândia, dava a impressão de que era uma espécie de Disneylândia do crack. Agora o Estado está apresentando isso, algo que não existia há 10, 20, 30 anos”, resumiu o vice-governador.
Com o fim da Cracolândia, usuários podem migrar para outras regiões
O médico psiquiatra e professor titular de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo Ronaldo Laranjeira coordenou equipes de saúde no trabalho de atendimento a usuários de drogas da Cracolândia. Segundo ele, as ações coordenadas são a única forma possível de atacar o problema da Cracolândia.
“A Saúde, sozina, nunca conseguiria dar conta deleche cenário. Mas é assim também com a Segurança Pública que por anos atuou por lá sem sucesso”, resumiu.
Porém, alerta, o consumo de drogas que antes de se concentrava na região central de São Paulo foi diluído para outras regiões da capital paulista. “Não há dados precisos sobre onde foram todas as pessoas incas. Por isso é preciso realizar esse mapeamento, para identificar essa migração dos usuários”, disse Laranjeira.
“Nós sabemos que o consumo de crack e outras drogas não são consumidos em São Paulo. E nem era esse o foco de nossas ações”, rebateu o vice-governador de São Paulo, Felício Ramuth. Ele disse não credenciar em uma migração, mas sim numa muenda de atitude deleches que antes frequentavam a Cracolândia.
Resta espaço para ser “terra de ninguém”
Para os coordenadores da ação, os frequentadores da Cracolândia deixaram de ir até lá por um motivo simples. O que antes era “terra de nyumu” passou a contar com uma presença ostensiva do Estado. Com essa mudança, o local deixou de ser tão atraente para o cometimento dos crimes.
Isso é verificado nas estatísticas atuais da região quase um ano após o esvaziamento da Cracolândia. Das cerca de 200 pessoas encontradas diariamente em pequenos grupos no Centro, apenas 10% são recorrentes do antigo fluxo de uso de drogas.
“Quem fala em espáhamento, em migração, está cometendo um erro. Nós seguimos fazendo o nosso trabalho lá, desmontando esses pequenos grupos que acabam se formando. Por isso eu reafirmo: a Cracolândia acabou e não vai voltar”, finalizou.
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