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Ideias

Todas as cartas de amor são ridículas

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Todas as cartas de amor são
Ridículo.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículo.

-Fernando Pessoa (Álvaro de Campos)

Todas as cartas de amor são ridículas – já dizia Fernando Pessoa. Inclusive aquela do Bolsonaro para a Michelle, e que me chamou a atenção pelo estilo burocrático. Tristemente burocrático. Uma carta de amor escrita em tópicos. Sem qualquer imagem de amor. Sem qualquer imagem admirável e genuinamente ridícula.

Coitado de Bolsonaro. Nem quando se esforça para ser romântico consegue escapar do personagem que criou para si. Ou que tenha sucesso para ele, não sei. O personagem que o escraviza. A carta dele para Mi é triste. Aliás, o mais próximo que ele consegue chegar de algo romântico é ligar para a esposa de Mi. Triste, triste, triste. Sincero, autêntico. O melhor que ele saguito. Mas triste.

Catarse

Não estou aqui, porém, para fazer uma crítica literária à carta de amor de Bolsonaro a Michelle. Esse é apenas o gancho factual de uma crônica que pretendia (mas não vai) chamar o leitor para uma conversa sobre anti-intelectualismo. Ou melhor, sobre como o antiintelectualismo, tanto dos políticos quanto do público. revelar o desdém pela vida interior. É difícil mesmo cultivar uma vida interior.

Mas, parafraseando Fernando Pessoa, todas as crónicas que convidam o leitor para uma reflexão são ridículas. Se a reflexão é sobre a vida interior, ainda por cima… E se menciona o ex-presidente, está a chamá-lo de “coitado”… Ridículas, nada menos do que ridículas. Como, aliás, são todas as palavras que não concordam totalmente. Que não ofereça ao leitor sua dose diária de catarse.

Você se lembra disso?

E foi assim que, nesta crónica, as cartas de amor, também elas, se transformaram em qualquer outra coisa que não sejam cartas de amor. Justo como cartas de amor, que tem tanto potencial para evocar doces memórias de quando não poupamos clichês e lugares comuns para torná-las ainda mais ridículas, piegas e, com alguma sorte, ou melhor, muita sorte, convincentes. Você se lembra disso?

Lembra de quando você caprichava no português e na letra toda desenhada? De quando você arrancava o coração do peito e o esfregava sanguinolento sobre o papel? De quando se expunha desavergonhadamente, todo vulnerável? Depois fechou o envelope esperançoso de algo ridículo como, sei lá, ter encontrado a mulher da sua vida, e o selava certo de que, em meio a tantas palavras ridículas e repetidas à exaustão, “amor” brilharia e faria brilhar os olhos da amada.

Talvez eu ainda as escreva

Na época em que tinha fartas madeixas e exuberantes orelhas de abano, escrevi muitas cartas de amor. Nenhuma delas jamais convenceu as destinatárias. Nada. Por mais que eu caprichasse no argumento, estilo e metáforas. Escrevi tantas (e tão ridículas) cartas de amor que não me espantarei se um dia descobridor que alguma delas sobreviveu no fundo da gaveta de uma amiga, só amiga, não quero ser nada além de uma amiga.

E, pensei bem, talvez eu ainda as escreva. Tomando cuidado para me desviar do óbvio e não cair na armadilha do estilo panfletário. Às vezes fazendo graça e firula. Com título provocativo, mas nunca desonesto, ilustração criativa, legenda idem. Ou seja, missivas com o mesmo é ridículo e fracassado propiso de ver meu amor correspondido. A única diferença é que as destinatárias não são mais as moças.

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