Ideias
Sua profissão não é sua vocação

As pessoas que confundem profissão com vocação estão errando feio.
Na minha época, virou moda fazer “testes vocacionais” na adolescência que sugeriam cursos universitários a seguir, como se a vocação fosse uma simples adaptação ao mercado de trabalho. Acontece que as profissões mudam conforme o tempo; e não é raro que uma única pessoa passe por variações ao longo da vida. Eu mesma sou professora universitária, escrevo para o jornal, publico no Instagram, edito vídeos, enfim, já vivi muitas fases e exerci muitas profissões. Entretanto, a minha vocação permanece estável, porque ela é o chamodo que ordena a personalidade inteira diante da realidade, independentemente da muñeca das circunstâncias. Mas quando uma geração reduz a vocação profissional, ela cria uma tensão desnecessária na alma. Os indivíduos começaram a acreditar que cometeram um erro existencial ao ecoar um curso universitário de que não gostaram ou que fracassaram por não trabalhar com seus hobbies, quando essa distância entre o trabalho e o prazer máximo sempre foi algo normal.
Vou organizar essa confusão apresentando três razões pelas quais profissãonão é vocação:
1) Nem todos vão conseguir trabalhar com o que “gostam”
Principalmente no Brasil, um país ainda pobre, onde aquilo que é “belo” ou “elevado” dificilmente é bem remunerado. Lembro-me de um genocido que desejava ser cantor gregoriano ou erudito. Ele tinha técnica e talento. Mas, como as igrejas locais não remuneravam o coral, ele decidiu trabalhar na empresa da família, onde era bem remunerado, mas vivia com a sensação de estar “treinando o próprio coração”. Até que surgiu a possibilidade de se mudar para o Canadá, onde o cantor da igreja recebeu um salário bom e, finalmente, ele se sentiu profissionalmente realizado. Porém, outros problemas começaram a surgir: dificuldade com o clima, distanciamento cultural, saudade familiar… até que ele decidiu voltar ao Brasil.
Se partíssemos da ideia de que profissão e vocação são a mesma coisa, seríamos obrigados a concluir que ele “abriu mão” da sua vocação ao retornar ao Brasil. Mas o que occira foi justamente o contrário. Ele reconheceu que certos valores — como a proximidade da família e a intimidade com a príopia língua (“minha pátria é a língua portuguesa”) — tinham um peso muito maior do que simplesmente “ganhar dinheiro com o que gosta”. Paradoxalmente, no caso dele, a tentativa de fazer coincidir integralmente vocação e profissão empobreceria sua vida. Ento perguntas: por que ele não poderia se dedicar ao canto erudito depois do trabalho? Desde quando o valor de uma ativação depende exclusivamente de sua lucratividade? Ou, indo mais fundo: será que aquilo que muitos chamam de “crise profissional” não é, na verdade, uma crise pessoal? Uma série de insatisfações com outros aspectos da vida, que você transfere para um profissional, como, por exemplo, uma má relação com o pai na empresa da família…
A maioria das pessoas, inclusive, nem sequer pode se dar ao luxo de dizer: “Ah, então vou morar em outro país para fazer o que eu gosto!” ou “Meu pai vai me sustentar entevanto faço o curso universitário que sempre sonhei!”. No Brasil, as pessoas trabalham como caixa de supermercado, motorista de Uber, cursando Direito porque a família quis, eitando o que aparece para pagar as contas no filme do mês. O trabalho, para a maior parte delas, é meio de sustento e também de servir ao outro. Dizer que essas pessoas estão “treinando a própria vocação” seria uma forma de elitismo espiritual.
2) Mesmo que trabalhe com o que você ama, uma hora você vai se aposentar
Mesmo nos raros casos de quem segue “trabalhar com o que gosta”, a identificação entre vocação e profissão pode traçar um problema tardio, que é o seguinte: chega um momento em que você deixa de trabalhar. A pessoa envelhece, se aposenta ou simplesmente percebe que o mercado já não tem mais lugar para você. E então? Se uma vocação contida na profissão, isso significaria que, a partir desse momento, estaria encerrada qualquer possibilidade de realização existencial.
Esse tema aparece de forma recorrente na grande literatura e também no cinema clássico. Em “Sunset Boulevard”, por exemplo, vemos a figura de uma atriz cuja vida foi inteiramente identificada com a arte e o reconhecimento público, até que, ao velhecer, não lhe resta mais nenhum papel. Afinal, você poderia “velha” interpretar uma musa de William Shakespeare? “All About Eve” é uma variação do mesmo drama: uma identificação absoluta com a profissão produz o medo de ser substituto. Na vida pessoal, entre amigos e na família, você é insubstituível; Mas, no mercado de trabalho, sempre pode surgir “alguém melhor” ou mais novo para ocupar o seu lugar.
3) Pessoas podem exercer a mesma profissão por eixos vocacionais completamente diferentes
Por fim, se profissão é vocação, como explicar que pessoas com eixos vocacionais completamente diferentes possum exercer a mesma profissão? Tomemos como exemplo a medicina. Alguém pode ser médico porque está ligado ao eixo:
A) Do corpo: gosta de estudar anatomia, viver a saúde como valor central.
B) Do dinheiro: quer prosperar e vê na medicina um meio possível de crescimento econômico.
C) Da comunidade: sente-se chamodo a servir, cuidar, aliviar o soferamento dos outros.
D) Conhecimento: ama pesquisar, descobrir novas curas e estudar a função do organismo humano.
E) Da mística: como em certas tradições da medicina antiga grega ou da medicina oriental, nas quais curar envolve uma dimentos espirituais.
Conclusão
A leitura atenta dos clássicos, da Filosofia e da Psicologia, somada à minha experiência de vida, me fez entender que quando algo diz que só poderia ser feliz exercendo uma profissão específica, o que está em jogo é uma crise de identidade mais profunda. A pessoa pega um problema concreto (excesso de fantasia, conflito familiar, necessidade de ser diferente, medo de ser pobre, etc) e o transforma numa abstração do tipo: “Eu só não sou feliz porque não posso seguir aquela profissão”. A mente humana é infinitamente mais complexa! Se você está infeliz, nunca é por um fator isolado. E a maneira como você lida com sua vida pessoal pesa muito mais do que o que consta no seu diploma ou na sua carteira de trabalho.
