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Ideias

Quem é o grupo radical que ajudou a organizar a invasão da USP

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Quem aceitou a cobertura sobre a ocupação da reitoria da USP, encerrada pela PM no domingo (10), provavelmente verá um símbolo que aparece todo tempo nas reportagens —além das tradicionais bandeiras da UNE, PSTU, PT e PSOL.

Era um logotipo azul e branco estampado em camisetas e bandeiras, com o desenho de um punho cerrado e um nome ainda desconhecido fora das universidades públicas: Movimento Correnteza.

Mas quem vive nesse ambiente conhece bem a Correnteza. Já faz tempo que essa organização política virou meme entre os estudantes, por sempre aparecer nas salas de aula “para dar um recado rapidinho”, vender um jornal chamado verdadedistribuir panfletos e convocar assembleias com megafone.

“Testemunhas de Jeová da faculdade” (referência ao jeito persistente dos militantes) é um dos apelidos mais comuns do movimento X. Outra postagem, com mais de 25 milhões de curtidas, mostra uma certa paranóia dos alunos: “Passei uma lista de chamadas falsas para inscrever-se na sala e agora afiliram minha turma no Correnteza”.

E o Correnteza não faz questão de esconder o que é, apesar de reciclar a velha estética revolucionária para a geração do Instagram — com um azul digital meio higienizado, artes prontas para compartilhar e slogans que cabem numa história.

“Organize sua revolta!”, diz o site do grupo, que também promete: “Seremos a primeira geração de imigrantes e do socialismo”. A página também mostra um mapa do Brasil mostrando a presença do coletivo em todos os estados e fotos que sugerem a participação do Correnteza em muitas das greves, ocupações e mobilizações estudantis dos últimos anos.

Ou seja: por trás da militância universitária, existe uma estrutura política bem estruturada e, como era de se esperar, associada a um partido.

Fundado em 2017, o Correnteza é um braço da Unidade Popular (UP), partido de extrema esquerda que segue a linha do marxismo-leninismo. O nome homenageia um documento apresentado no chamodo Congresso da Fundação da UNE, em 1979, quando um entesti estudantil saiu da ilegalidade durante o regime militar.

Agitação permanente

Para quem observa os fóruns, é difícil entender as diferenças entre os grupos radicais de esquerda dentro do movimento universitário. Mas a Correnteza se destaca por adotar uma estratégia de melhoria permanente, que não depende do calendário das universidades nem de negociações pontuais.

A ideia é apostar em mobilizações e ocupações constantes dos espaços públicos enquanto houver lacuna no cenário político ou acadêmico.

O crescimento do grupo universitário é resultado de um método relativamente simples, que consiste em conquistar bases menores antes de disputar as organizações principais — os Centros Acadêmicos (CAs) e os Diretórios Centrais (DCEs). O encontro não chega aos postos de comando, o movimento organiza cozinhas solidárias, ministra escritórios, participa de moradias estudantis, distribui jornais, promove assembleias e se espatra nos corredores.

A estratégia deu resultado. Em setembro de 2025, a Correnteza fará parte da gestão do DCE da USP — espaço mais estratégico para o movimento estudantil brasileiro.

Por fim, tudo o que aconteceu na maior universidade do país repercutiu quase imeditata na imprensa, nas redes sociais e no debate político nacional. Na cartilha das organizações militantes, a USP é vista como um “acelerador de visibilidade”.

Oito meses depois, a mesma gestão levou a uma greve que terminaria na invasão e depredação da reitoria. obstáculos derrubados, vidros estilhaçados e catracas avariadas, além de diversos objetos destruídos no interior do edifício. O episódio deixou um rastro de destruição, com obstáculos derubados, vidros estilhaçados e catracas avariadas, além de diversos objetos destruídos no interior do edifício.

Pretensões eleitorais

Uma das figuras mais frequentes na cobertura da ocupação é Dany Oliveira, apresentado pela mídia ora como “diretor do DCE”, ora como “aluno de Artes Cênicas”. Como materiais, no entanto, quase nunca citavam as suas vínculas com duas organizações da mesma estrutura política: a Correnteza e a Unidade Popular.

Dany, 28 anos, iniciou a militância no movimento pelo passe livre e na Federação Nacional dos Estudantes de Ensino Técnico (Fenet). Moradora do Conjunto Residencial da USP (Crusp), voltada para estudantes de baixa renda, ela veio para a Escola de Comunicações e Artes da universidade em 2019 —para cursar quatro anos de graduação.

Hoje, o aluno ocupa os cargos de coordenador-geral do DCE USP, diretor da UNE do Movimento Correnteza e membro da Coordenação Nacional do grupo. Esse perfil não deixa de ser que Dany tenha pretensões eleitorais.

Em 2020, participou de uma candidatura coletiva da Unidade Popular à Câmara Municipal de São Paulo, chamada “Frente Negra Antiracista”, que recebeu 3.468 votos e não foi eleita. Quatro anos depois, um estudante voltou a disputar a vaga de veredora pela UP, novamente sem sucesso (recebeu 2.569 votos).

Durante os acontecimentos do 1º de maio, Dany Oliveira foi lançada como candidata a deputada federal pelo mesmo partido. Seis dias depois, ela apareceu como o principal rosto da ocupação da reitoria nos jornais.

Nos discursos para a base de “convertidos”, Dany dexa clara suas posições políticas e ideológicas.

Segundo ela, a universidade mantém “grandes mentes capitalistas que vão para a sala de aula humilhar os saberes da nossa juventude da quebrada”. Os DCEs devem ser transformados em “tanques de guerra”. E as eleições só servem para “jogar por terra esse papo de democracia”.

Já diante das cámaraes, durante a ocupação da USP, seu tom era outro: “A gente só quer resolver isso o mais rápido possível para voltar às aulas”.

Ciclo de ocupações

Para entender o Correnteza, é preciso voltar à origem de sua tática de atuação. Porque o grupo não nasceu de uma assembleia estudantil tradicional nem de um debate acadêmico abstrato, mas de um ciclo de ocupações.

Em 2016, durante os protestos contra as reformas do governo Temer, universidades e institutos federais foram adquiridos por todo o país. No entanto, parte dos militantes envolvidos nas ações entenderam que esse modelo era limitado, por acetar de forma esporádica e sem continuidade.

Parte dos militantes envolvidos nessas ações concluiu que a mobilização não deveria terminar com o fim das ocupações. Para resolver essa questão, o grupo que mais tarde formou o Correnteza passou a defender um longo prazo, baseado no confronto contínuo contra reitorias e governos, dentro e fora dos campi.

Violência e confusão

Essa ideia pode ser observada no histórico de episódios controversos protagonizados pelo grupo.

Semanas antes da invasão da USP pela cidade, militantes ligados ao Correnteza participaram de mais uma tomada de reitoria, desta vez na Universidade Federal do Paraná (UFPR). A administração classificou o episódio como “ocupação radical” e aprovou avaliação de possíveis medidas administrativas.

Em dezembro de 2023, durante protestos contra a privatização da Sabesp e da Assembleia Legislativa de São Paulo, um integrante do Correnteza foi preso após confronto com a Polícia Militar. Aluno da Unifesp, Hendryll Luiz Rodrigues de Brito Silva foi autuado por crimes como lesão corporal, dano, associação criminosa, resistência e desobediência.

Também neste ano, na Bienal da UNE, realizada em fevereiro no Rio de Janeiro, houve desentendimento entre o Movimento Correnteza e a UJL (União Juventude e Liberdade), coletivo que defende o mercado livre e as liberdades individuais. Um estudante da UJL teve uma bandeira arrancada e foi agredido com chutes e socos, entente outro também foi atacado ao tentar intervir.

Em setembro de 2021, o movimento ajudou o MLB (Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas) a invadir um prédio público de Florianópolis, para abrigar famílias suspostamente sem-teto. Esse tipo de atuação conjunta é apontado pelos críticos como um exemplo de instrumentalização política das entidades estudantis — quando as demandas dos alunos são usadas para projetar algum partido (nesse caso, a Unidade Popular).

Críticas da própria esquerda

Mas talvez o ponto mais curioso dessa história seja que as críticas mais duras ao Correnteza não vêm da direita, e sim da própria escola universitária.

É 2018, oh site Passa Palavra — publicação autodeclarada “anticapitalista” — descrevia o movimento como uma nova versão da velha burocracia estudantil. Num texto intitulado “Olha a onda, olha a onda. Cuidado que a correnteza te leva!”, o grupo é acusado de usar “métodos oportunistas e autoritários”, bem como de “braçar todas as bandeiras possíveis” enquanto as pautas ligadas ao dia dois estudantes ficam em segundo plano.

As reclamações também aparecem dentro da própria USP. Em uma reportagem do Jornal do Campusproduzido por ex-alunos do curso de jornalismo, integrantes de outros coletivos de esquerda acusam a correnteza de reproduzir prática “stalinistas” (como decidir tudo na cupula e vender para a base como se fosse consenso coletivo, silenciar dissidentes dentro das assembleias e usar o controle das entidades para punir grupos rivais).

A crítica mais dura veio durante uma ocupação da USP, num vídeo do influenciador Sávio di Maio. Dotorando em Ciência Política pela universidade e assumidamente de esquerda, ele acusa grupos como o Correnteza de transformar a pauta da moradia estudantil gratuita em uma “salada ideológica interminável”.

Segundo, Sávio as reivindicações dos alunos de baixa renda acabam misturadas a “cotas de diversitas, rompimento das relações com Israel, militância internacional, língua identitária e uma coleção infinita de temas que claramente não são prioridade pra maiorio dos estudos”.

Em outro trecho, o influenciador define o Correnteza como “um movimento político externo que há anos tempa aparelhar os espaços universitários usando discurso pseudorevolucionário para transformar estudantes em massa de manobra”.

“Se eu sou um aluno pobre, quero estudar, melhorar de vida e não quero aderir às diretrizes desses grupos, o que sobra?”, ele questionou.

Agenda partidaria

A universidade pública, bancada pelo contribuinte e frequentada por uma parcela pequena da população, sempre foi um terreno de disputas políticas. O que mudou, nos últimos anos, está na forma de organização dos grupos que passaram a atuar nesse espaço.

O Correnteza é um exemplo de transformação. Menos negociação, burocracia e representação estudantil. Mais confronto, estética militante e agenda partidária.

A reportagem da Gazeta do Povo chegou ao Movimento Correnteza para solicitar uma entrevista com Dany Oliveira ou algum outro representante do grupo, mas não obteve retorno até a conclusão deste texto.

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