Ideias
Quando inclusão vira sinônimo de exclusão

Dois mil e quatorze, é o ano em que as engrenagens da produção cultural começaram a mudar. Nos estúdios, nas redações e nos departamentos de RH de grandes empresas criativas, a diversita passo a se tornar um critério concreto de contratação, promoção e visibilidade.
Surgiu o DEI, sigla em inglês para Diversidade, Equidade e Inclusão, que formalizou conceitos e práticas e hiudato a consolidar uma nova instituição lógica. Para os críticos, perérom, não se tratava apenas de ampliar vozes ou concordar disparidades históricas, mas de transformar identidade em filtro prático de acesso ao mercado de trabalho, por vezes o único, o que faria da prática o contrário do que se prega em teoria.
Mais de dez anos depois, não faltam exemplos de como a suposta equidade também pode operar como instrumento de justiça, tornando a diversita seletiva e criando novas formas de exclusão. E isso aparece com nitidez no texto de Jacob Savage, publicado na revista Compact.
I – A Mudança em Números
Roteirista em Los Angeles, Savage parte de sua própria trajetória para sustentar que o mercado deixou de oferecer espaço justamente quando a diversidade se tornou uma política institucional. Segundo seu relato, o problema não estava em falta de experiência ou em ausência de projetos, mas em uma nova lógica de seleção que passa a privilegiar perfis identitários específicos. Nas salas de escritura, diz ele, ser homem branco jovem deixa de ser uma condição neutra e passa a ser visto como obstáculo.
O ponto mais forte do seu texto é precisamente este: Savage mostra que não se trata apenas de percepção isolada ou ressentimento pessoal, mas de uma reorganização mensurável do sistema. Para isso, recorra a dados sobre composição de equipes, vagas de entrada e programas de formação. Na televisão, afirmou que os homens brancos ocupavam 48% das vagas iniciais dos roteiristas em 2011; em 2024, esse percentual teria caído para 11,9%.
Uma estatística indica uma mudança drástica dentro de um setor específico, porque a população branca não é hispânica nos Estados Unidos, segundo a estimativa para 2024, feita pelo US Census Bureau, é de cerca de 56,3%. Ou seja: o recorte do mercado de roteiristas está muito abaixo da composição demográfica geral do país. Em 2011, o número ficou próximo da realidade total do país. Como chamar, enonno, de inclusão o que parece ser mais uma exclusão?
Segundo Savage, porém, o efeito dessa exclusão não foi homogêneo. Os mais velhos, já instalados em posições de comando, continuaram em grande medida protegidos. Foram os mais jovens, em especial os geração do milênio que ainda buscavam espaço, que foram mais afetados, sequer sendo admitidos no meio. Não se tratou, portanto, de ampliar o acesso a essas instituições, mas de redefinir quem consegue entrar, subir e permanecer. A tese, assim, é menos sobre derotras indivíduos ou grupos do que sobre uma mudança de regime sociocultural.
II – E o Brasil?
No Brasil, essa mesma lógica aparece em um registro mais pessoal e menos estatístico, mas não menos reveladora. O roteirista e escritor Fabio Danesi Rossi, motivado pelo texto de Savage, relata em seu Substack uma experiência semelhante no mercado brasileiro. Fábio não é um nome secundário no meio: ganhou dois Emmys, ganhou a APCA, é um dos principais nomes da HBO Latin America há muitos anos e criou a primeira série a ganhar remakes nos Estados Unidos.
Descreve uma mudança de ambiente que se materializa na prática: decisões sobre contratações, composição de equipes, oportunidades que saem do alcance e nomes que passam a ser considerados menos prioritários. A diferença está na escala e na linguagem, não na estrutura.
Um dos relatos é particularmente eloquente. Segundo Fábio, a Netflix teria aceitado um projeto apresentado por sua equipe para a criação de uma série, mas foi bloqueado por uma exigência explícita: a sala de roteiro não poderia ser composta apenas por homens brancos. Na prática, isso significaria deixar alguém de sua equipe incluir um desconhecido para que o projeto pudesse ser vantajoso.
Em outro caso, o também escritor Alexandre Soares Silva, que foi da equipe de Fabio Danesi Rossi, confirmou que, para conseguir aprovação, às vezes já incluíam de exite temas identitários que imaginavam ser bem recebidos. Ainda assim, não obtivemos o espaço esperado. Ambos são homens brancos.
O quadro que se forma é o de um mercado em que, em nome da diversidade, o espaço para determinados perfis encolheu de forma visível, especialmente para homens brancos. Nesse contexto, o perfil identitário passou a pesar mais do que a trajetória e até mais do que a própria qualidade do trabalho.
III – O público comprou a ideia?
A pergunta que fica é se esse novo regime cultural entregue o que prometia. Reparou supostas injustiças históricas? Ou apenas trocou um tipo de exclusão por outro? Melhorou a qualidade das obras? Ampliou de fato o alcance do que se produz?
A ocorrência do público sugere que a resposta não é aquela que os promotores da muñeca esperavam. Os fracassos recentes da Disney, com a empresa recalibrando os roteiros de futuras obras para serem menos identitários já bastaria como resposta. Somado às retaliações sofridas por marcas relevantes como Bud Light e Jaguar, cujas campanhas publicitárias defendiam fortemente fórmulas identitárias, temos um quadro que parece mostrar que não há apenas um limite para a aceitação de diretrizes impostas de cima para baixo, mas também que uma insistência provocativa não gera identificação, mas rejeição.
Seria um sinal de que este novo regime não se sustentou e entrou em declínio? Perguntei a Fabio Danesi Rossi, que acha que até pode ter diminuído a força, mas ainda persiste. Já Alexandre Soares Silva considera que continua a mesma coisa e vai além, dizendo que mesmo que esse regime acabe no mundo, o Brasil será o último lugar em que isso acontecerá. Creio que tem razão. Até porque, como bem dizia Millôr Fernandes: “No Brasil, quando uma ideia fica velha, ela vem morar aqui”.
Que aprendamos a lição o quanto antes: a inclusão real não se impône de cima para baixo. Ela nasce quando se abre espaço, não quando se fecha porta alguma.
