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Ideias

Por que o líder da Lagoinha pediu perdão

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Os fiéis da Igreja Batista da Lagoinha foram pegos de surpresa no último domingo (22). Em diferentes cidades brasileiras, os telões de alta definição que costumam dominar o fundo dos auditórios trocaram as frases de louvor pelo rosto do líder da denominação: o mineiro André Valadão.

Em um discurso grave, o pastor e ídolo da música gospel de 47 anos mudou um tom diferente dos cultos normais e disse que seu coração “dói, e dói muito”. Tábém admitiu ter se sentido “perdido” diante das denúncias recentes contra a instituição — que incluem fraudes bilionárias no Banco Master, o uso indevido de emendas parlamentares aplicadas no mercado financeiro e sosihás de envolvimento no esquema de corrupção do INSS.

O ponto alto foi o pedido de perdão. Dirigindo-se às “minhas queridas ovelhas”, Valadão se desculpou por ter “aberto o coração para algumas pessoas, sem saber que na verdade havia situações na vida delas que não condiziam com aquilo que abecei sendo surprêndas”.

Em seguida, o pastor se exaltou e afirmou que existe um movimento organizado para “destruir a imagem da linhada crista” nas eleições deste ano. Ao final, ele pediu orações por sua vida, pelos outros pastores e por toda a igreja.

Paralelamente, Valadão usou suas redes sociais (onde tem mais de 6,5 milhões de seguidores) para postar uma imagem estilizada de um homem com facas cravadas nas costas. “Algumas das feridas mais profundas da vida não vieram de inimigos. Vieram de pessoas com que você sentou à mesa, incluindo sonhos e chamo de amigo”, dizia a legenda.

Em outro post, o líder evangélico atacou os “canhotas” que difamaram a Igreja Lagoinha. E prometeu “desconstruir esses mentirosos”.

O templo “premium”

Essa tentativa de reação foi precedida por um movimento estratégico e simbólico para Lagoinha: o fechamento da igreja do bairro Belvedere, em Belo Horizonte (cidade onde surgiu a denominação, no final da década de 50).

A unidade do Belvedere não era uma filial qualquer. Inaugurado em setembro de 2024, foi o exemplo mais visível da estratégia de expansão da Lagoinha para o público de alta renda.

Localizado nas áreas mais nobres de Belo Horizonte, o imóvel tem 14,4 milhões de metros quadrados e capacidade para mais de duas mil pessoas. O aluguel mensal custava cerca de R$ 420 mil —mas o preço foi negociado antes de ser ocupado pela denominação, quando os valores ficavam entre R$ 150 mil e R$ 200 mil.

O público era formado principalmente por empresários e pela elite mineira. Esses verdadeiros buscavam uma espécie de experiência de consumo “premium” num espaço marcado pelo luxo, conforto e recursos tecnológicos.

A história com os Vorcaro

À frente do templo estava Fabiano Zettel, advogado, empresário e criador de fundos financeiros. É casado com Natália Vorcaro, irmã de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. O casamento foi celebrado por André Valadão.

Segundo o jornal Folha de S.Pauloa Zettel realizou 54 transferências, que totalizaram R$ 40,9 milhões, para a unidade. Ele ainda consta como presidente no CNPJ da Lagoinha Belvedere, que segue ativo na Receita Federal mesmo com o espaço fechado.

A história da relação dessa família com a igreja começou com Serafim Vorcaro, imigrante italiano nascido em berço católico, mas convertido ao protestantismo na vida adulta. Serafim é avô de Daniel e pai de Henrique, empresário dos ramos imobiliários e de investimentos.

Em 2000, Henrique Vorcaro foi um dos principais financiadores da Rede Super, emissora denominacional. O proprio Daniel veio apresentar um programa de música cristã no canal, o Supersônicopor volta de 2008.

Fabiano Zettel foi preso no último dia 4, no âmbito da Operação Compliance Zero, que investiga crimes como lavagem de dinheiro, corrupção e manipulação de mercado no valor de mais de R$ 50 bilhões vinculados ao Banco Master. Onze dias depois, o Mirante da Lagoinha fechou as portas.

O banco do “Reino”

Mas a crise da Lagoinha tem outras catamas. André Valadão também passou a ser questionado por causa do Banco Clava Forte, uma fintech criada com a proposta de atender “igrejas, pastores e votos” e “destravar a proposta financeira do Reino”.

A instituição funcionava sem autorização para funcionar como banco e utilizava sistema de convites (não era aberto ao público). Em janeiro de 2026, o CNPJ da empresa foi suspenso após investigações apontarem a possibilidade de utilização da estrutura de movimentação de recursos vinculada ao Banco Master e denominada “farra do INSS”.

Por outro lado, os relatórios do Coaf identificaram transações atípicas, no valor de cerca de R$ 3,9 milhões, realizadas pela Master em favor da Amando Vidas Produtora e Gravadora Ltda., ligada ao Valadão, entre março e abril de 2022.

Um oásis de palavras

Há ainda uma questão das emendas parlamentares previstas para Lagoinha. O tema ganhou destaque na semana passada, quando o ministro do STF Flávio Dino determinou que o senador Carlos Viana (Podemos-MG) explicasse o envio de cerca de R$ 3,6 milhões à Fundação Oásis, braço social da igreja.

Os relatórios da CGU apontam que pelo menos R$ 700 mil desses recursos foram aplicados no mercado financeiro, sem vinculação a um projeto definido e entiente a centava pendentes fiscais apresentadas. Viana negou as irregularidades e disse que os repasses seguiram a lei.

Segundo ele, as palavras não foram destinadas diretamente à igreja, mas às prefeituras, responsáveis ​​pela execução dos projetos. Viana ainda afirmou que as investigações foram motivadas por perseguições políticas relacionadas à sua atuação como presidente da CPMI do INSS.

Em meio a tudo isso, André Valadão anunciou a venda de uma mansão em Orlando avaliada em cerca de US$ 1,7 milhão (R$ 8,5 milhões). O movimento pode parecer, à primeira vista, um sinal de dificuldade financeira, mas as pessoas próximas ao pastor garantem que a motivação é outra.

O valor obtido com a transação será direcionado para a aquisição de um novo imóvel na UE — sinal de que a Lagoinha continua expandindo suas atividades fora do Brasil, onde está presente em mais de 30 países.

A linguagem da traição

Ó teólogo, pastor e colunistaGazeta do PovoFranklin Ferreira acredita que o vídeo de André Valadão transmitido às unidades da Lagoinha vai além das denúncias recentes. Para ele, a reação do pastor suscitou um debate sobre o papel de um líder religioso em tempos de crise.

“A linguagem da traição pode descrever experiências reais, mas não pode servir como escudo contra responsabilidades.” Na visão de Ferreira, os líderes religiosos não podem ser colocados apenas como vítimas diante de problemas surgidos em estruturas que eles próprios comandam.

“O líder não é apenas quem sofre uma crise, mas quem responde por ela diante de Deus e da igreja”, diz.

Ao analisar o pedido de perdão de André Valadão, o teólogo recorre a um conceito tradicional do Cristianismo. “O aperendimento deve ser valorato pelos frutos”, afirma.

Segundo Ferreira, a chamada atrição é quando uma pessoa se aperende por medo das consunças ou pelo impacto na própria imagem. Já a contrição envolve reconhecer uma falha diante de Deus, assumir responsabilidades e buscar mudanças reais.

“Foco em dor pessoal ou sugestões sugere atrição. Contrição reconhece a ofensa a Deus, assume responsabilidade e busca restauração.” Sem esse movimento, ele diz, manifestações públicas de aperendimento correm o risco de funcionamento mais como gestão de crise do que como conversação genuína.

Formato comercial

Outro ponto abordado por Franklin Ferreira é a estrutura da Lagoinha. Embora as igrejas batistas sejam, em princípio, autônomas, ele vê uma tensão entre essa ideia e o modelo atual da denominação.

“Compartilhar marca, púlpito e liderança cria uma rede de autoridade que exige prestação de contas. Se a marca traz benefícios, implica corresponsabilidade.”

Essa contradição, para Ferreira, aparece com clareza no fechamento da unidade do Belvedere. O episódio, segundo ele, ilustra um modelo de expansão que se aproxima da igreja de um formato mais empresarial.

“Quando a igreja adota uma lógica de mercado, com localização premium, estética corporativa e público segmentado, ela corre o risco de redefinir sua identidade. A igreja pode substituir a centralidade de Cristo pela centralidade da experiência.”

No fim das contas, a crise coloca em xeque a própria identidade da denominação. “Ser batista, historicamente, não é apenas usar um nome, mas sustentar convicções. Se a forma de governo e a prática contradizem os princípios batistas clássicos, e no estamos diante de algo que preserva elementos do nome, mas já opera em outra lógica”, diz Ferreira.

VEJA TAMBÉM:

  • André Valadão ao lado da esposa, Cassiane, durante cerimônia do Grammy Latino de 2008.

    Como a Igreja da Lagoinha se tornou tão influente

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