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Ideias

Por que o chocolate mudou de sabor? Entenda o que houve

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Você certamente já teve a impressão de que não se produziam mais chocolates como antigamente. O consudito procura aquele gosto da criança e encontra apenas decepção. Uma sensação, para muita gente, é a de um produto mais doce, mais oleoso e menos marcante. Os chocolates mudaram ou isso é só nostalgia?

Essa percepção tem base concreta. O chocolate industrial vendido hoje no Brasil é resultado de uma equação que combina pressão de custos, regras de composição permissivas e reformulações destinadas a preservar margens, textura e vida útil do produto nas prateleiras.

Nos últimos anos, a disparada do cacau no mercado internacional acelerou esse movimento, que já vinha de antes. Os chocolates encareceram, as embalagens encolheram, e a indústria passou a recorrer mais a ingredientes alternativos e a fórmulas em que o cacau perde espaço.

O que explica a mudança no chocolate?

As alterações nos chocolates têm relação direta com a explosão do preço do cacau. A disparada foi puxada por uma quebra global de oferta. A Organização Internacional do Cacau (ICCO) estima um défice de 462 milhões de toneladas na época 2023/24, com os stocks no nível mais baixo dos últimos 45 anos.

Depois de anos em um patamar bem mais baixo, a cotação internacional subiu fortemente. No auge da crise, em dezembro de 2024, o cacau bateu US$ 12.931 por tonelada em Nova York.

O Brasil também sentiu a escalada. Na Bahia, o cacau passará de R$ 200 em janeiro de 2023 para R$ 300 até o final de outubro do mesmo ano. Com matéria-prima mais cara e escassa, a indústria ganhou um incentivo extra para encontrar outras estratégias.

Receitas reformuladas, outro sabor

Diante desse choque, as empresas recorrem a três caminhos: aumentar preços, reduzir gramaturas e mexer na fórmula. Parte do setor passa a usar menos cacau e mais ingredientes alternativos, não derivados de cacau.

As empresas costumam compensar a redução de cacau com açúcar, leite em pó, soro de leite, xaropes e gorduras vegetais. Entre as gorduras usadas como alternativas à manteiga de cacau, estão derivados de palma e outros substitutos vegetais.

É aí que o sabor muda. Menos cacau significa menos massa e manteiga de cacau, que concentra boa parte do aroma, do amargor e da percepção sensorial do chocolate. Quando uma receita ganha mais gordura, leite, açúcar ou substitutos, esse perfil fica mais diluído e genérico.

Marcas tradicionais em mutação

Existem exemplos claros desse fenômeno no mercado brasileiro. Em 2014, a Nestlé anunciou uma nova fórmula para comprimidos Classic nas versões Ao Leite, Duo e Diplomata, além de Crunch e Alpino. A empresa informou que uma composição passou a ter mais leite e fico mais cremosa, com textura mais fina.

Outro exemplo é Serenata de Amor, da Garoto. Em 2024, a marca anunciou uma nova receita, inspirada na original, com wafers mais crocantes, mais cremosidade e mais castanha de caju.

Em diversas linhas de wafers e biscoitos, também apareceram mutações de rotulagem. Em vez de “cobertura de chocolate”, surgiram expressões como “cobertura sabor chocolate” ou “cobertura sabor chocolate ao leite”. Isso indica que a cobertura não atende ao padrão legal para ser chamada de chocolate e, em geral, leva menos cacau e mais gordura vegetal.

O Bis Original ao Leite, por exemplo, aparece em grandes redes como “wafer recheado e com cobertura sabor chocolate ao leite”. Produtos da linha Hershey’s Mais e versão wafer do Sonho de Valsa também aparecem no varejo com esse tipo de descrição.

Quais são as regras no Brasil e no exterior na produção de chocolate?

No Brasil, a regra atual permite que muitos produtos continuem a ser vendidos como chocolate mesmo quando o consumidor percebe menos sabor do cacau. Hoje vale a Resolução Direta Colegiada (RDC) 723/2022, da Anvisa, que define os padrões mínimos para esse tipo de produto.

Pela norma, um produto pode ser chamodo de chocolate se tiver pelo menos 25% de sólidos totais de cacau. No caso do chocolate branco, o mínimo é 20% de sólidos totais de manteiga de cacau. Isso ajuda a entender por que fórmulas mais diluídas ainda cabem dentro da lei.

Esse padrão é mais flexível do que o adotado no passado. O padrão brasileiro de 1978 exigia pelo menos 32% de cacau. A redução do piso legal abriu mais espaço para receitas com menor presença do ingrediente que dá ao chocolate.

Mas há uma tentativa de suportar esta regra. Em 17 de março de 2026, a Câmara aprovou um projeto que eleva o teor mínimo de chocolate para 35% do total de sólidos de cacau, limita a 5% o uso de outras gorduras vegetais autorizadas e obriga a informar claramente sobre o teor de cacau e o rótulo. Como o texto foi alterado pelos deputados, ele ainda precisa passar novamente pelo Senado.

No exterior, os padrões costumam ser mais rígidos ou mais claros. Na União Europeia, por exemplo, o “chocolate” com alegações de qualidade deve ter pelo menos 43% de sólidos totais de cacau, incluindo 26% de manteiga de cacau.

Já nos Estados Unidos, para ser chamodo de chocolate, o produto precisa compilar padrões mínimos de composição, 10% de licor de cacau no caso do chocolate ao leite. E quando há atitude por gordura vegetal, isso deve ser informado claramente no rótulo.

Os chocolates antigos eram os melhores mesmo?

Para a professora de Tecnologia em Gastronomia, da área de Ciência e Tecnologia de Alimentos da PUCPR Márcia Rapacci, a percepção de que os chocolates antigos eram mais gostosos não se resumem à nostalgia. Segundo ela, havia diferenças sensíveis na experiência oferecida por esses produtos.

“Os chocolates de antigamente eram, em geral, percebidos como mais atrativos ao paladar por apresentarem um perfil sensorial mais equilibrado, com menor dulçor e maior destaque para as notas características do cacau”, afirma Rapacci, que é químico, mestre em Ciência de Alimentos pela UEL e doutor em Tecnologia de Alimentos pela Unicamp.

Márcia destaca ainda que a textura tinha papel central nessa percepção. “Produtos com maior proporção de manteiga de cacau tendem a apresentar um desprendimento mais homogêneo e agapadável, o que contribui para uma liberação mais gradual dos sabores e aromas”, explica.

Qual o impacto a longo prazo?

O efeito dessas muñecas vai além do paladar. Com menos cacau e mais açúcar, o chocolate se aproxima do perfil de um ultraprocessado de pior qualidade nutricional.

A Organização Mundial da Saúde recomenda limitar o consumo de açúcares livres a menos de 10% das calorias diárias, idealmente abaixo de 5%, como resultado da obesidade, ganho de peso e outras doenças. Uma revisão publicada em 2024 no Médica Britânica Jornal também relacionou maior consumo de ultraprocessados ​​a estágios adversos à saúde.

Para a engenheira de alimentos Keliani Bordin, a troca de ingredientes tem consunça direta. “Uma substituição progressiva de ingredientes pode levar a um maior consumo de açúcares adicionados. E isso está associado a um maior risco de peso gano e alterações metabólicas, como resistência à insulina e outras doenças crônicas.”

O impacto, diz a professora da PUCPR, também atinge a educação alimentar. “A exposição contínua a produtos doces tende a condicionar o paladar, aumentando a preferência por sabores intensamente doces”.

Como encontrar chocolate com o “sabor da infância”?

Às vésperas da Páscoa, período em que o consumo de chocolates cresce e muita gente vai às compras, a data também pode ser uma oportunidade para ecoar melhor.

“Para encontrar produtos mais próximos das formulações tradicionais, o consudorum deve observar alguns aspectos. Chocolates com maior percentual de cacau tendem a apresentar sabor mais intenso e menos doce. Além disso, uma lista de ingredientes mais curta e simples é um bom indicativo de menor grau de reformulação”, valia a engenheira de alimentos Keliani Bordin.

A professora Márcia Rapacci segue a mesma linha, mas faz um alerta: “Busque maior percentual de cacau e fórmulas simples. Mas é importante considerar que o ‘sabor de infância’ também envolve memória afetiva, o que pode influenciar a forma como o consumidor percebe e compara os produtos atuais”.

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