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Por que existem dois vasos sanitários nos banheiros europeus? Um deles não deve ser usado

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Quem viaja pela Europa e entra em um banheiro de hotel pela primeira vez costuma ter a mesma reação de surpresa: há dois vasos sanitários lado a lado, e um deles não tem caixa de descarga, nem assento convencional, nem botão de acionamento. Esse segundo equipamento é o bidê, um dispositivo de higiene íntima com séculos de história que a maioria dos brasileiros nunca viu pessoalmente. Entender a origem, a função correta e o motivo pelo qual ele está presente nos banheiros europeus revela uma história fascinante que envolve hábitos de banho, aristocracia francesa e até a resistência cultural americana.

O bidê surgiu na França no início do século XVIII, em uma época em que os hábitos de banho europeus eram drasticamente diferentes dos atuais.
O bidê surgiu na França no início do século XVIII, em uma época em que os hábitos de banho europeus eram drasticamente diferentes dos atuais.Imagem gerada por inteligência artificial

O que é o bidê e para que ele realmente serve no banheiro?

O bidê é um equipamento sanitário projetado exclusivamente para a higiene das partes íntimas após o uso do vaso sanitário. Diferente do que muitos turistas imaginam ao vê-lo pela primeira vez, ele não é um segundo vaso sanitário, nem uma pia baixa, nem um bebedouro. Seu formato lembra o de um vaso sanitário convencional, mas possui uma torneira ou jato de água direcionado para cima, permitindo que a pessoa se lave sentada sobre o aparelho.

A forma correta de usar o bidê é sentar-se de frente para a torneira, com as pernas abertas ao redor do equipamento, e utilizar o jato de água para a limpeza. A temperatura e a intensidade do fluxo podem ser reguladas conforme a necessidade. Em banheiros europeus mais antigos, é comum encontrar o bidê ao lado do vaso sanitário como peça fixa do ambiente, enquanto versões mais modernas integram a função de lavagem diretamente ao assento do vaso sanitário, os chamados vasos com ducha higiênica.

Qual é a origem histórica do bidê e por que ele nasceu na França?

O bidê surgiu na França no início do século XVIII, em uma época em que os hábitos de banho europeus eram drasticamente diferentes dos atuais. Até o século XIX, grande parte da aristocracia e da população europeia acreditava que banhos frequentes eram prejudiciais à saúde, pois supostamente removiam a camada protetora natural da pele. Para compensar a falta de banhos completos, os franceses desenvolveram o bidê como solução para a higiene íntima localizada.

A palavra “bidet” vem do francês e significa “pequeno cavalo”, uma referência à posição de montaria que a pessoa adota ao usar o equipamento. Os primeiros modelos eram bacias de água apoiadas sobre bancos de madeira, e o usuário precisava lavar-se manualmente. A evolução do bidê ao longo dos séculos acompanhou os avanços da engenharia hidráulica. Alguns marcos históricos dessa trajetória incluem:

  • O primeiro registro escrito sobre o bidê data de 1726 na Itália, quando a rainha Maria Carolina solicitou sua instalação nos banheiros do palácio real de Nápoles
  • Napoleão Bonaparte possuía um bidê de prata que o acompanhava em todas as campanhas militares e que foi mencionado em seu testamento
  • Em 1889, comerciantes argentinos conheceram o bidê na Exposição Universal de Paris e levaram o equipamento para Buenos Aires
  • A Argentina chegou a obrigar por lei a instalação de bidês em todas as residências novas, regulamentação que só foi revogada em 2018

Por que o bidê se popularizou na Europa mas nunca chegou aos Estados Unidos?

Enquanto o bidê se espalhou por banheiros de toda a Europa, especialmente nos países do sul como Itália, Espanha, Portugal e Grécia, os Estados Unidos nunca adotaram o equipamento em larga escala. A explicação para essa resistência cultural tem raízes históricas curiosas. Os primeiros colonizadores americanos, de origem puritana, cultivavam um estilo de vida austero que rejeitava itens considerados luxuosos ou supérfluos.

A situação se agravou durante a Segunda Guerra Mundial, quando soldados americanos tiveram contato com bidês pela primeira vez em bordéis europeus. Essa associação entre o equipamento de higiene e casas de prostituição criou um estigma cultural que atrasou por décadas qualquer tentativa de introduzir o bidê no mercado americano. Apenas recentemente, com a popularização dos vasos sanitários japoneses com função de lavagem integrada, os americanos começaram a aceitar o conceito de higiene íntima com água no banheiro.

O bidê surgiu na França no início do século XVIII, em uma época em que os hábitos de banho europeus eram drasticamente diferentes dos atuais.
O bidê surgiu na França no início do século XVIII, em uma época em que os hábitos de banho europeus eram drasticamente diferentes dos atuais.Imagem gerada por inteligência artificial

O bidê ainda é comum nos banheiros europeus ou está desaparecendo?

A presença do bidê nos banheiros europeus vem diminuindo gradualmente nas últimas décadas. Em países do norte e do leste da Europa, o equipamento já é bastante raro. Mesmo no sul europeu, onde a tradição é mais forte, hotéis e residências modernas têm optado por banheiros mais compactos que dispensam o bidê como peça separada. A tendência mundial aponta para a substituição do bidê tradicional por alternativas integradas ao vaso sanitário.

O Japão liderou essa revolução com o desenvolvimento do Washlet pela empresa TOTO na década de 1980, um assento sanitário que combina jato de água aquecida, secagem com ar quente e aquecimento do assento em um único equipamento. Essa tecnologia elimina a necessidade de um segundo aparelho no banheiro e oferece funcionalidades que o bidê convencional nunca teve. No Brasil, a ducha higiênica instalada ao lado do vaso sanitário cumpre função semelhante, sendo uma solução prática e econômica que já faz parte da cultura de higiene do banheiro brasileiro.

O que o turista brasileiro deve saber ao encontrar um bidê em um banheiro europeu?

Para o viajante brasileiro que se depara com dois equipamentos sanitários no banheiro do hotel, a regra fundamental é simples: o vaso sanitário com caixa de descarga é para as necessidades fisiológicas, e o bidê, sem caixa e com torneira, é exclusivamente para higiene íntima posterior. Usar o bidê como vaso sanitário é um erro comum entre turistas que desconhecem o equipamento e pode causar constrangimento e problemas de manutenção no banheiro.

Conhecer a história e a função do bidê transforma o que seria um momento de confusão em uma experiência cultural enriquecedora. O equipamento que intriga tantos visitantes nos banheiros europeus é, na verdade, um ancestral direto da ducha higiênica brasileira e dos modernos vasos japoneses com jato de água. Séculos de evolução na busca por uma higiene íntima mais eficiente produziram soluções diferentes em cada cultura, e o bidê europeu permanece como testemunho elegante de uma época em que tomar banho era considerado perigoso, mas cuidar da limpeza pessoal já era reconhecido como indispensável.



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